OPINIÃO

A professora que transformou sucata em futuro


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Profissão? Professora, com muito orgulho.

A educação como bastão e guardião do futuro do País é exposto e cuidado com relevância somente durante o curto período de eleições, sejam elas municipais, estaduais ou presidenciais, em discursos solenes, mas raramente está no centro das prioridades nacionais. Assim como a palavra professor foi lentamente jogada na fossa do irrelevante, arcaico e até obsoleto, o título “professor/educador”, principalmente no ensino fundamental e médio, é tratado e visto como menos valia pela sociedade brasileira.

Contrariando a falta de recurso, estímulo e galhofa nacional, uma professora paulistana, Débora Garofalo, fez história e se tornou modelo inspirador do que um educador é capaz de fazer quando a vocação encontra propósito.

Débora Garofalo nasceu em São Paulo em 1979 e construiu sua trajetória dentro da escola pública, território onde se formam as grandes contradições, mas também os maiores milagres educacionais do país. Formada em Letras e Pedagogia, com especialização pela Unicamp e mestrado em Linguística Aplicada pela PUC-SP, ela passou mais de uma década lecionando em diferentes etapas da educação pública, do ensino infantil à educação de jovens e adultos.

No entanto, foi em uma escola municipal da zona sul da capital paulista que sua história ganhou projeção internacional com a “robótica com sucata”. Nas proximidades da escola, localizada entre favelas, o lixo se acumulava nas calçadas, mostrando a pobreza como parte intrínseca da paisagem cotidiana. Vivenciando na pele esse retrato, nasceu um dos projetos pedagógicos mais criativos da educação brasileira recente — ensinar tecnologia a crianças da periferia usando materiais recolhidos do lixo.

A escola não tinha recursos para laboratórios sofisticados, a cidade oferecia matéria-prima suficiente para a imaginação.

Assim, latas, motores descartados, fios e pedaços de plástico começaram a ser transformados em carrinhos movidos a ar, mãos mecânicas, aspiradores improvisados e até protótipos de energia solar. Em poucos anos, os estudantes haviam retirado mais de uma tonelada de resíduos das ruas e os transformado em projetos tecnológicos, mais uma vez contradizendo a lógica da pobreza, descobriram que eram capazes de criar.

A professora conta que muitos de seus alunos diziam que robótica era coisa “de escola particular”. Não acreditavam que pudessem construir algo tecnológico. O desafio inicial foi, portanto, ensinar confiança, antes dos circuitos ou motores.

O projeto ganhou o mundo. Em 2019, Garofalo entrou para o grupo das dez melhores professoras do planeta ao chegar ao Top 10 do Global Teacher Prize, prêmio internacional chamado de “Nobel da Educação”. Anos depois foi eleita a professora mais influente do mundo em uma categoria criada pela fundação responsável pelo prêmio, reforçando o alcance global de um trabalho que nasceu dentro de uma escola pública da periferia. O que nos faz lembrar: sempre houve um professor antes de qualquer inovação.

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação

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