OPINIÃO

O tempo que não leva à razão


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O ano de 1945 marcou um ponto de ruptura na história humana: Hiroshima e Nagasaki revelaram ao mundo uma força de destruição até então inimaginável. Ruínas, silêncio e sombra nuclear tornaram-se imagens permanentes da memória coletiva desde então. Parecia evidente que a humanidade jamais ousaria aproximar-se novamente daquele abismo. A devastação ensinaria prudência. A lembrança da guerra funcionaria como vacina moral contra novas catástrofes.

Décadas seguintes alimentaram uma esperança real. Reconstrução da Europa, criação de organismos internacionais, expansão do comércio global e revolução científica produziram a impressão de que a história humana começava a amadurecer e caminhava para algo bom; o fim da Guerra Fria em 1991 reforçou esse sentimento.

Mas a atmosfera do início do século XXI já não guarda o mesmo otimismo. Os ataques de 11 de setembro de 2001 inauguraram um tempo de insegurança difusa. A guerra na Ucrânia iniciada em 2022 recolocou exércitos convencionais em choque direto no coração da Europa. Tensões entre Estados Unidos e China reorganizam o tabuleiro estratégico do planeta. Oriente Médio permanece como campo permanente de convulsão política e militar. E lamentavelmente o vocabulário geopolítico voltou a incluir palavras que pareciam pertencer ao passado.

Uma inquietação cresce lentamente por trás dessas transformações. Se, por um lado, a humanidade aprendeu muito sobre ciência, tecnologia e economia desde 1945, acabou desaprendendo sobre si mesma. Rivalidades antigas  continuam presentes sob novas formas. Ambições nacionais, ressentimentos históricos e disputas de poder atravessam sociedades sofisticadas com a mesma intensidade que atravessavam civilizações antigas.

A bomba atômica permanece silenciosa nos arsenais do mundo. A mesma criação que deveria funcionar como limite absoluto continua existindo como possibilidade concreta. A história mostra que avanços técnicos não produzem automaticamente maturidade moral. Afinal, civilizações brilhantes também foram capazes de abrir caminho para guerras devastadoras.

O século XXI começou com promessas de progresso e integração global. Mas a sensação atual lembra mais um prelúdio inquietante. Muitos dos eventos recentes sugerem que a humanidade entrou novamente em uma fase de tensão histórica profunda. Essa inquietação que atravessa o tempo presente ultrapassa o campo da estratégia e da política internacional.

Algo mais profundo parece insinuar-se no horizonte histórico.

A confiança que durante décadas sustentou a ideia de um progresso contínuo começa a ceder lugar a uma consciência mais sóbria da fragilidade das conquistas humanas. Um mundo que julgava ter deixado para trás as grandes tragédias do século XX redescobre que a história não obedece a linhas de avanço permanente nem concede garantias de estabilidade às gerações que se sucedem.

O século iniciado sob expectativas de integração, prosperidade e cooperação internacional passa a conviver com a percepção de que o rumo do futuro permanece aberto.

Terrivelmente aberto.

Samuel Vidilli é cientista social 

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