LITERATURA

Brasileiras estão lendo mais

Por Sonia Machiavelli | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 6 min

É fato que somos um país que lê pouco. E, aparentemente, cada vez  menos livros físicos.  Perdemos nos dois últimos anos 20% das livrarias de rua e o número dos  lidos por ano caiu de 7 para 5. Os dados são confiáveis pois derivam da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Mostram ainda que mais da metade da população não havia lido sequer um livro nos doze meses anteriores à última publicação, que é de 2024.

A boa nova é que as mulheres estão lendo mais e superando os homens: 49 % delas se declararam leitoras; entre os segundos o percentual é de 44%. Outra informação importante se refere ao fato de que a força feminina não está apenas na leitura, mas na compra de livros: 62% dos que os adquirem no Brasil são mulheres.

Os motivos que levam à escolha de títulos divergem entre os sexos.  Eles preferem assuntos ligados à história, política e ciências sociais. Elas, impulsionadas por interesses afetivos, tendências da publicidade, frequência em clubes de leitura e informação nas redes sociais optam por ficção, poesia e autoajuda.

Pensando na leitora deste século, refletindo sobre o contexto onde estamos todas inseridas, inspirada também pela data, este 8 de março marcado no calendário como efeméride, listei alguns livros que considero importantes para serem lidos pelas mulheres, mas não só por elas, é óbvio.  São obras que abrem janelas ao entendimento mais amplo da natureza feminina, da importância de sua presença e atuação no mundo, das lutas em que vêm se empenhando através dos séculos e na contemporaneidade, dos inalienáveis direitos que são absurdamente ignorados por muitos, das injustiças que vêm sendo enfrentadas há mais de 500 anos- quando se fala de cultura brasileira.

Começaria a lista por ‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’, de Martha Batalha. É a saga de duas irmãs: Guida desaparece da casa dos pais sem deixar notícias; Eurídice se torna dona de casa exemplar. Nenhuma delas parece feliz em suas escolhas. O tema é a invisibilidade feminina. A escritora precisou batalhar muito para ver o livro lançado no Brasil. A Cia das Letras, por exemplo, só se interessou depois que uma editora alemã o comprou. Hoje ele já ganhou o mundo e até virou filme.

Continuaria com ‘Oração para desaparecer’, de Socorro Acioli, que conta a história de mulher desmemoriada, ‘desenterrada’  em Portugal falando português do Brasil. Ela precisa reconstruir sua vida contando apenas com a língua como seu porto seguro. A narrativa, que flui entre Europa e Brasil, mistura realismo mágico, suspense e amor.  Seu tema pode ser entendido como a necessidade de recomeçar depois de algum luto.

Outro. ‘Olhos d’Água’, de Conceção Evaristo, coletânea de quinze contos independentes. O espaço onde a ação se desenrola é a periferia. Nesta, as pretas são protagonistas que enfrentam muitos desafios, entre eles desigualdade social e violência. O estilo mistura prosa com poesia e os neologismos constituem marca nas histórias contadas em primeira pessoa.  É obra que denuncia dores profundas e alerta para a necessidade de se estar sempre atenta à discriminação e ao preconceito.

Continuaria com ‘A Hora da Estrela’, romance narrado por voz masculina, Rodrigo S.M., que ao trazer à baila a história de Macabéa, mira em questões de marginalização social, solidão, alienação e busca por significado. Ao construir a saga da nordestina que trabalha como datilógrafa e leva vida monótona e sem aspirações, Clarice Lispector, neste seu último livro publicado em vida, a perfila como criatura marcada pela insignificância. E ao inseri-la num contexto bizarro, revela tanto a indiferença do mundo em relação aos invisíveis e oprimidos como desvela as complexidades filosóficas da existência.

Não poderia deixar de fora “Um Defeito de Cor”, fruto de anos de pesquisas e viagens para entender a diáspora africana nas Américas. Além de romancista, a autora Ana Maria Gonçalves é professora, palestrante e ativista. Foi eleita ano passado a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O romance reconstrói a história da escravização sob uma perspectiva afro- feminista. A ficção monumental em primeira pessoa registra a luta heroica  de Kehinde, sequestrada no Daomé ainda criança e trazida ao Brasil no século xx, onde em busca de um filho vendido transita pela Bahia e Rio de Janeiro, participando de eventos históricos como a Revolta dos Malês.

Na poesia, lembraria ‘’Vintém de cobre’, obra de estreia de Cora Coralina, de quem alguém já disse ser ‘puro ouro’ e foi publicado em 1983, quando a poeta havia completado 73 anos. É coletânea de poemas, memórias pessoais, crônicas da vida em Goiás Velho e a rica experiência da autora. Temas recorrentes na obra futura dessa escritora foram aqui reunidos como sementes: a infância, o cotidiano da mulher, a cozinha, a cidade, as tradições. Tudo em linguagem de alta voltagem poética, mas estrema simplicidade formal. Com humor sutil e muita sabedoria, os textos funcionam como ‘acerto de contas’ em relação a preconceitos diversos. Cora Coralina é uma das vozes essenciais da poesia regionalista moderna.

Junto à goiana, a mineira Adélia Prado, cujo livro ‘Bagagem’ foi lançado em 1976. Obra de estreia, aclamada por Carlos Drummond de Andrade, revelou uma voz única na literatura brasileira, ao abordar o cotidiano, a fé, o erotismo e a condição feminina. Com simplicidade e profundidade, os poemas desta escritora destacam-se por transformar o comum em algo inusitado porque transfigurado pela poética do olhar. Premiada com o Camões, honraria concedida a escritores lusófonos, mora em Divinópolis e tornou-se conhecida particularmente ao escrever do ponto de vista de mulheres dedicadas à família, que gostam de sexo, temem a Deus e são de vez em quando assombradas pela morte.

Agora um de autora de língua inglesa. ‘O ano em que disse sim’, de Shonda Himes, já traduzido para o português, tem sido bem vendido no Brasil, onde a autora é bastante conhecida dos que acompanham séries, pois é a criadora de uma das mais vistas entre nós: ‘Grey’s Anatomy’. Autobiográfico, o livro fala sobre superação e mudança de perspectiva a partir da transformação da escritora que tinha por hábito dizer sempre ‘não’ diante de iniciativas que desafiavam sua  timidez. A leitura pode ser inspiradora enquanto reflexão sobre como pequenas mudanças podem acarretar grandes transformações.

Mais um de autora estrangeira, ‘Mulheres que correm com os Lobos’. Escrito pela psicóloga norte-americana  Clarissa Pinkola Estés, explora o arquétipo da ‘Mulher Selvagem’, representativa da  força instintiva e criativa que muitas reprimem. Pela via dos contos de fada, mitos e histórias ancestrais, a autora analisa a psique feminina sob a luz junguiana enquanto traça paralelos entre lobos e mulheres, destacando resistência, criatividade, devoção e capacidade de adaptação. Ela também combate a domesticação feminina e a imposição de papéis limitadores em muitas culturas. Mostra como identificar predadores externos e internos, resgatando a condição feminina de impor limites e proteger a si mesma.

Por falar em ‘impor limites’, bastante necessário é ‘Justiça para Todas’. Não foi escrito por ficcionista e sim por advogada, Fayda Belo. É obra que - aleluia!- desmistifica o juridiquês, explicando de forma didática os direitos femininos e os tipos de agressões (física, psicológica, moral, patrimonial e sexual) que podem ser sofridas por uma mulher. Na abordagem corajosa, a especialista esmiuça a histórica discriminação contra a mulher e o patriarcado estrutural. É obra que pode funcionar como guia de empoderamento e denúncia, oferecendo orientações práticas sobre como buscar apoio e justiça. Leitura imprescindível num pais que contabilizou em 2025 mais de 1500 feminicídios.

Aí estão dez sugestões de títulos que podem ser lidos até o final do ano. Um por mês eles irão acrescer algo à vida de quem mergulhar em suas páginas. Vamos continuar lendo, queridas leitoras. Leitura é conhecimento. E conhecimento é poder.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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