CRÍTICA

‘Sonhos de Trem’: do livro ao filme

Por Sonia Machiavelli | especial para o GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação/Netflix

Em 2012, justificando a inclusão do livro ‘Sonhos de Trem’, do norte-americano Denis Johnson, entre os finalistas ao prêmio Pulitzer, o júri considerou a obra ‘um épico em miniatura’. Destacou também na ocasião o fato de que através do estilo sutil o autor demonstrava ter herdado muitos traços de uma linhagem norte-americana representada por Mark Twain, Ernest Hemingway, William Faulkner e Cormac McCarthy. Este último, escritor de estilo gótico, conforme lembramos aqui neste NL há duas semanas no texto ‘Considerações sobre o fogo’, também se tornou conhecido ao ser indicado ao mesmo renomado prêmio. Todos os mencionados são ficcionistas que criaram personagens introspectivos, deslocados e solitários como o protagonista de ‘Sonhos de Trem’, Robert Grainier, operário de uma companhia ferroviária de Idaho, durante a crescente industrialização dos Estados Unidos, no começo do século XX.

Os acontecimentos na vida deste personagem correm em paralelo à do país que ele ajuda a construir. Ao longo de jornadas marcadas por trabalho duro e bem poucas gratificações, ele encontra seres estranhos e até bizarros, que compõem com ele cenário perturbador. Porque a expansão das ferrovias que impulsionam o crescimento é marcada por perdas trágicas; e a transição da natureza selvagem para a modernidade, no que se convencionou chamar progresso, cobra alto preço aos humanos, aos animais, ao reino vegetal.

A leitura do livro já tornado cult, e que na estrutura fica entre conto extenso e pequena novela, inspirou o cineasta norte-americano Clint Bentley, responsável pelo filme homônimo que concorre neste março ao Oscar 2026 em algumas categorias e é forte candidato a levar o prêmio pela fotografia que tem a assinatura do brasileiro Adolpho Veloso. Produção com a maioria das cenas na natureza, e sobre personagens que existem em função dela, a obra foge um pouco à dramaturgia tradicional e convida o espectador a abraçar uma experiência sensorial na qual as imagens, muito mais que os diálogos, contam a história de um homem e a do desbravamento do Oeste americano. 
 Por isso mesmo os críticos reiteram em suas análises o uso do adjetivo ‘contemplativo’. De fato, estamos diante de um filme que convida à contemplação, como tal considerado o ato de observar algo ou alguém com presença total, indo além da simples visão superficial para alcançar conexão profunda. É um estado de pausa onde o julgamento silencia, permitindo que a essência do objeto — seja um ser, uma paisagem, uma obra de arte ou um pensamento — se revele por inteiro. Diferente da análise intelectual, a contemplação não busca decompor ou explicar, mas sim sentir e integrar a experiência.

Sob este aspecto, o trabalho de Veloso tornou-se icônico na transposição da linguagem literária para a cinematográfica. Ele conseguiu criar espetaculares efeitos oníricos, e muitas das imagens expõem de maneira excepcional o mundo interior dos personagens sem que nenhuma palavra precise ser verbalizada. É o que acontece, por exemplo, na captação pela câmera da violência contra um trabalhador chinês, Fu Cheng, atacado de forma covarde, fato que desencadeará em Grainier um impacto recorrente. Outras imagens alçam o patamar da metáfora; é o caso do par de botas pregado na árvore que vai aos poucos sendo tomado pela vegetação: como não ver aí o símbolo da pegada de um humano no seu curto trânsito pelo planeta?

Contada em off desde o início, a história mostrada pelo filme reproduz a narrativa literária através de uma voz onisciente de timbre único, cujas intensidade, tonalidade e extensão soam às vezes como sussurro e outras como música.  Will Patton é o responsável por costurar na fala fragmentos da saga levando para a tela palavras do livro e ocupando lugar importante na construção do perfil do protagonista. Homem que parece ter sido abandonado desde a infância, sua lembrança mais remota data dos seis anos, quando, por ser órfão, é colocado num trem rumo a lugar distante onde cresce e aprende um ofício. É pelo narrador que se fica sabendo ainda, entre tantos detalhes desveladores, que Grainier era tão introspectivo que ‘houve um período em que passou meses trabalhando com um colega sem que lhe dirigisse a palavra.” É também essa voz que descreve a passagem do tédio à esperança, quando o lenhador encontra, quase por acaso, uma mulher por quem se apaixona, tendo com ela uma filha. Grainier alcançará a alegria possível dentro da pobreza, no seio da família que constituiu, ainda que tenha de permanecer distante de casa por vários meses, cortando árvores para construir trilhos para os trens que mudavam a fisionomia do seu país. Mas então acontece um incêndio que funda uma culpa e muda o rumo de sua vida.

‘Sonhos de Trem’ mostra o isolamento humano, a natureza selvagem, a passagem do tempo, a miséria dos trabalhadores, os sofrimentos mas também a graça de estar vivo. Neste contexto, o grande desafio dos atores foi conferir verdade aos personagens equilibrando silêncio e expressividade. Joel Edgerton vive Robert Grainier, o coração da trama: interpretá-lo exigiu muito talento para transmitir as dores do corpo e da alma em décadas marcadas por exigente trabalho braçal, muitas perdas, alguns remorsos e admirável condição de resistir. Felicity Jones, a luminosa Gladys, é o retrato da feminilidade cuja presença é sentida mais pela memória desdobrável do marido do que pelo pouco tempo de vida em comum. William Macy interpreta com precisão Arn Peeples, detonador de dinamite que tem papel de potente significado na relação homem/natureza. 
Enfim, e em síntese, por meio de idas e vindas num bloco de tempo que compõe 80 anos, a história se constrói como retrato visceral de personagens anônimos que ajudaram a construir a história americana mas não desfrutaram dos benefícios conquistados pois ficaram confinados à sua margem.  
Na saga saída da imaginação de Denis Johnson, e levada para a tela por Clint Bentley, o destino não parece nem um pouco compassivo; ele apenas segue seu curso, marcado pela crueza e inevitabilidade. Sob este aspecto, faz lembrar os filósofos estoicos, embora a cena final traga alguma esperança a quem possa ter sentido a fragmentação como um dado pessimista. Visto a certa distância de tempo/espaço, ‘tudo está conectado’, como diz Granier na cena final, do alto, no interior de pequeno avião que sobrevoa área onde ele havia trabalhado. É uma quase epifania.
Enquanto o filme não chega às salas de cinema, veja-o na Netflix. Vale a pena. É obra de arte para quem prioriza filmes que levam à reflexão sobre nosso estar num mundo que muda inapelavelmente.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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