O fantasma chegava todas as noites e se sentava na poltrona do quarto de Joana, sempre no momento da queda, aquele tombo, tropeço entre a vigília e o sono.
Por instantes, ela podia vê-lo, velho, fleumático em seu terno cinza de colete, uma veste meio rota – provavelmente o mesmo que lhe servira de mortalha e com o qual estivera debaixo da terra por alguns séculos antes de começar a aparecer todas as noites naquele quarto.
A face sisuda, ilegível, mas, era persistente, ele. Chegando cotidianamente sem falhar. Nenhuma palavra ouvira dele, desde que se entendia por gente. Os olhos fundos, a pele pálida e um tanto translúcida velando ali, em seu silêncio eterno os sonhos da criança, depois, as inquietudes da adolescente e, agora, os sobressaltos da jovem mulher de vinte anos que era ela.
Um móvel noturno, quase, talvez uma espécie de abajur, já que luminoso e ectoplasmático como todo fantasma que se preze.
Tão logo o dia amanhecia desfazendo a penumbra, o fantasma desaparecia, rarefeito no ar como se nada tivesse sido. Joana então dele se esquecia durante o dia para revê-lo por átimos de segundo à entrada do mundo dos sonhos, sem tempo de indagar, já que capturada por Morfeu – qual o objetivo daquela persistência sempre ali.
Colocou-se então no propósito de não adormecer sem antes falar ao fantasma – xícaras de café e energéticos poderosos a mantiveram desperta para a chegada do senhor que nessa noite, contudo, pela primeira vez, não viu chegar porque, na sua condição fantasmagórica só poderia estar na inconsciência ou na letargia de Joana, ela então se preocupou: será que ele voltaria? Teria sido, por outro lado, somente produto de delírio, estado sonambúlico? Alguma espécie de alucinação, aquela alma penada que lhe foram tão estranhamente íntima-telepática?
Teria sido ele pai-amigo-irmão-marido-amante-filho-inimigo de outras vidas? Era ressentimento, cuidado, aprisionamento, condenação, expiação ou o quê, aquela presença tão antiga, séria e silenciosa.
Estava já próxima de alguma espécie de loucura quando, altas horas, a noite ameaçando a se romper em novo dia numa aurora que ela antevia pela linha insinuada por azul cobalto no horizonte, finalmente piscou mais longo e, então, num zaz, viu a silhueta corcunda e luminescente do homem velho se acercando. Foi daí que olhou fundo, ainda que rapidamente, para aquela imaterialidade e sentiu pena. Da sua incomunicabilidade, da sua perseverança, do mal que nunca lhe fizera, pelo contrário, ou talvez, não, sua companhia apaziguadora que lhe poupava novas aventuras. Da sua inaptidão para qualquer ato além do olhar. Um ser acorrentado à eternidade. Designado a vagar sozinho e vigiar uma existência não seria um destino pouco? Talvez um anjo cumprindo a sina do lento desaparecimento? É triste inexistir, mas, talvez, pior que isso seja existir pela metade, ser e não ser.
Tê-lo quieto, sem expressão e parado ali parecia lhe garantir uma caminhada de sono mais seguro, sem sustos, antídoto de todo medo, como se de fato fosse ele o responsável por não se desgarrar e se perder nessa outra dimensão.
Então era mesmo assim o pacto tácito: só chegava ali ao início da inconsciência porque não era presença que a consciência pudesse decifrar ou mesmo suportar. Nada ele fazia que não fosse estar ali, seus olhos sem expressão nem afeto decifráveis a olhá-la com a severidade da gente aristocrática, com a mesura de um mordomo ou professor, talvez advogado, juiz, ou seria algoz?
Parece que nunca saberia o que guardava aquela alma aparentemente vazia e grave ao mesmo tempo, contemplando-a com olhos de nada enquanto beladormecidamente a mulher passeava pelos sonhos e ia para o sem fim dos mundos improváveis. Tinha o peso e o ressentimento sugeridos nesse olhar, sua inutilidade palpável e invisibilidade. Seus modos de resistir aos desmoronamentos e desleixo com as coisas do corpo.
Não que renegasse o velho porque tivesse ele remela nos olhos, nem tufos de pelos saltando das orelhas e do nariz, nem a roupa puída do enterro. O que trazia ele, e isso parecia o mais incômodo, era o abafamento da não vida, a imobilidade do que não respira e nem tem sangue circulando. Daquilo que embora não pulse, contraditoriamente, em sua escuridão ilumine e diga muito sem nada falar. Um espectro ou espelho transverso?
Ninguém dele saberia qualquer verdade. Ninguém dele poderia saber ao preço de nela ser imputada alguma pecha de loucura ou qualquer outra espécie de apoteose mental. Do que fora sem de fato ter sido.
O fantasma, ela concluía, era então o impossível. Tão presente, tão ali, fiel, todas as noites, sem perguntas nem respostas, impalpável, guardando-lhe a vida a cada travessia de noite até que a sua própria chama se extinguisse e ele então a reencontrasse na próxima vida e na que viesse depois desta, eternamente. Destino de sombra.
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