A primeira vez que a palavra filosofia apareceu grafada foi em Heródoto, que viveu 500 anos antes de Cristo. Conta o historiador grego que Creso, rei da Lídia, disse para Sólon, o legislador ateniense: “Ouvi dizer que viajastes por muitas terras, como que ‘filosofando’, isto é, buscando adquirir novos conhecimentos”. Mas, segundo Cícero, orador romano nascido em 106 a C, o autor do vocábulo foi Pitágoras, ao responder ao príncipe Leonte que lhe perguntara em que arte era versado: ‘Em nenhuma, sou apenas um fílos- sofos’. Com essa frase o matemático quis definir seu saber como uma procura por toda forma de conhecimento. Desde então, decorridos mais de dois milênios, a ideia contida no verbete evoluiu de tal forma que sua história se confunde com a própria odisseia do homo sapiens.
Em sentido vulgar, e de uso corriqueiro na linguagem comum, a filosofia representa uma concepção do existir adotada para uso pessoal. Sob esse aspecto fala-se de um ponto de vista mais otimista ou pessimista, descolado ou sério, escuro ou luminoso. É explicação individual para nossas atitudes perante o mundo e a vida; um conceito exclusivista que não contempla a amplitude e profundidade alcançadas ao longo do tempo pela filosofia como conhecimento sistematizado. Desde o século XIX considera-se que ela, ao contrário da ciência, não pretende explicar o mundo. Sua missão primordial é esclarecer e delimitar, com precisão possível, pensamentos, problemas, conceitos que de outro modo ficariam opacos e confusos. Isso pressupõe curiosidade, dedicação, busca, esforço, honestidade, concentração e capacidade para aceitar que no caminho há vazios a serem preenchidos com respostas nem sempre fáceis de encontrar. De todo modo, é senso comum considerar que enquanto humanos diferimos dos animais por nossa capacidade de criar contextos explicativos do meio e do universo. Não vivemos como outros seres no mesmo plano das coisas. O mundo em que realizamos nossa existência é mais psíquico que material. E a grande pergunta da filosofia continua sendo: por quê?
Em razão das múltiplas e constantes inquietações, a imagem dos filósofos evocada por pintores e escultores é, na maioria das vezes, a de um homem com a cabeça entre as mãos. Como não pensar em Rodin e ‘O Pensador’? Mas é preciso lembrar que os filósofos não inspiraram apenas artistas plásticos. Eles vêm enriquecendo páginas de literatura há muito tempo. Nos nossos dias, o romancista norueguês Jostein Gaarder povoou com filósofos a mente de milhões de leitores de seu romance ‘O Mundo de Sofia’. Usando como ponto de partida bilhetes e postais anônimos endereçados a uma adolescente, ele percorreu toda a galeria da filosofia ocidental, ao mesmo tempo em que construiu enredo instigante.
Perto de nós, Marlene Becker, prosadora e poeta, empreende jornada semelhante no romance ‘Entre a Razão e a Loucura’, lançado na primeira sexta-feira de fevereiro, no auditório da OAB/Franca. Ao levar o protagonista a uma busca, de sentidos e propósitos, que o conduz a encontros com alguns nomes exponenciais da filosofia, a autora constrói com sua imaginação fértil e escrita personalíssima, um painel onde filósofos pontuam a trajetória do herói de nome emblemático: Cisco. De Platão a Nietzsche e Spinoza, passando por Teillard de Chardin e Schopenhauer, resvalando em Deleuze e Guattari, a narradora, pela via do protagonista, nos convida a importante análise de ideias que abrem portas a maiores discernimento e lucidez. Além dos filósofos clássicos, pinça escritores como Dan Brown e Lewis Caroll; e diante de um enredo que opõe filho e pai, evoca oportunamente o fundador da psicanálise, Sigmund Freud. No último capítulo, questões profundas buscam perfilar Cristo sem contudo nomeá-lo, pois a ficcionista pertence à tribo dos escritores que têm na sutileza a sua força.
No romance, de título autoexplicativo, como constatarão os leitores, a narrativa, construída em dez capítulos, obedece à divisão clássica de começo/meio/fim. O enredo avança na linearidade embora dela se afaste quando o protagonista, em monólogo interior ou conversa com terceiros, busca responder às perguntas que faz já no começo do segundo capítulo, denominado ‘Inferno’, alusão à primeira parte da ‘Divina Comédia’ de Dante Alighieri. Muitas vezes os diálogos ganham força em situações peripatéticas, que evocam Sócrates mas curiosamente avançam no tempo com Darwin e Spinoza reunidos: “Nascemos no fundo dos oceanos como organismos simples e só o que tínhamos era o ‘conatus’, ou seja, o impulso para continuar existindo. Se não fosse esse impulso não lutaríamos e seríamos extintos, mas evoluímos e acabamos chegando ao que somos hoje.”
Há duas linhas nítidas na saga densa. Uma diz respeito à tragédia familiar de jovem oriundo do meio rural cuja socialização é custosa por conta da baixa autoestima, do medo e da raiva, elementos que reunidos formam um feixe de Morte. A outra é sobre a busca de Vida através do conhecimento e apesar da compreensão do sofrimento, tema que tem atraído pensadores de todos os matizes, desde que o homem começou a refletir sobre sua trajetória no planeta. Do equilíbrio de ambas as forças e da prevalência do impulso vital na existência de Cisco nasce o livro de Marlene Becker, que tanto entretém pela intriga como desvela questionamentos que nos afetam enquanto humanos. Afinal, somos todos, de alguma forma, Ciscos diminutos na imensidão de um planeta de 7 bilhões de seres diferentes em trânsito pelo universo infinito.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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