OPINIÃO

Franca, a cidade que (quase) matou o Carnaval

Por Marília Martins | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução

Sou uma entusiasta da cultura e não poderia deixar de falar dessa época do ano que demarca, simbolicamente, o início de tudo — afinal, no Brasil, “o ano só começa depois do Carnaval”.

Quando eu era criança, uma das poucas atrações culturais que vivíamos em família era o Carnaval na Avenida Integração. Chegávamos cedo para assistir às escolas desfilarem. No final, sempre emendávamos na ala das baianas, como se aquele gesto nos autorizasse a fazer parte da festa. Depois vinha o cachorro-quente self-service e a maçã do amor.

Quando lembro de como eu me sentia, sou tomada por uma enorme vontade de proporcionar essa mesma alegria e esse mesmo sentimento de pertencimento às futuras gerações.

Quem não tem uma boa história de Carnaval para contar? Na infância, na juventude, nos bailes de salão, nas marchinhas, nos desfiles. O Carnaval é uma celebração pública baseada na alegria coletiva e na inversão simbólica dos papéis sociais.

É o momento em que, por meio das fantasias e da sátira, o povo conta suas histórias, ri de si mesmo e critica o mundo.
Cada lugar tem o seu estilo: blocos de rua, escolas de samba, trios elétricos, bailes mascarados. No Brasil, o Carnaval tornou-se uma mistura potente de tradições europeias, culturas africanas, influências indígenas e música popular urbana.

O resultado? Uma das maiores expressões identitárias do mundo.

Suas origens são antigas e múltiplas. Na Idade Média, era uma celebração cristã anterior à Quaresma — tempo do “mundo invertido”, quando as normas eram temporariamente suspensas. O próprio nome vem do latim carnis levare (“retirar a carne”), ligado ao período de restrição que vinha depois. Chegou ao Brasil com os portugueses, através do entrudo — água, farinha e brincadeiras populares — e foi profundamente transformado pela influência africana. Foram as comunidades negras, com seus ritmos, danças e tradições de resistência cultural, que deram forma ao samba, aos cortejos e ao Carnaval que conhecemos hoje.

O Carnaval se popularizou porque é democrático. É festa de rua, acessível, espaço de crítica política, catarse social e humor. Tornou-se símbolo da identidade nacional e também motor da economia criativa, gerando emprego temporário em massa e movimentando cadeias produtivas inteiras.

Mas não é só festa. É cultura viva.

E é justamente por isso que precisamos falar sobre Franca.
Lembro do sentimento de pertencimento que o Carnaval proporcionava. Algo que, apesar do movimento crescente atingindo o auge em 2020 mesmo, após a pandemia foi intencionalmente desaparecendo como quem tira o glitter do corpo — devagar, por etapas, até quase não restar brilho.

O motivo? Ignorância.

Por anos, uma campanha anti-cultura plantou no imaginário dos francanos a ideia de que investir em Carnaval significaria tirar dinheiro da saúde. Se isso fosse verdade, eu mesma seria contra.

Mas não é.

O que vimos foi a combinação entre racismo cultural — direcionado a tudo que carrega traços afrocentrados — e a incapacidade de enfrentar problemas pontuais de organização, generalizando-os como “bandidagem”. Criou-se um discurso fácil do “nós contra eles”, espalhando pânico moral.

Um município de 350 mil habitantes que investe em Carnaval não joga dinheiro fora — investe na própria economia. Em cidades de porte semelhante, um investimento público entre 3 e 8 milhões pode movimentar de 25 a 70 milhões de reais. O retorno costuma variar entre cinco e dez vezes o valor investido, atraindo de 40 a 120 mil visitantes.

Esse dinheiro circula em hotéis, aluguel por temporada, bares, restaurantes, ambulantes, transporte, artistas e produtores culturais. Aumenta a arrecadação municipal por meio de ISS, taxas e consumo local. Gera renda. Gera trabalho. Gera pertencimento.

Quando uma cidade como Franca ignora isso, envia um recado preocupante: não apenas sucumbe ao preconceito cultural, mas também abre mão de uma estratégia inteligente de desenvolvimento econômico capaz de fortalecer, inclusive, áreas como saúde, educação e segurança por meio da arrecadação.

Antes, dezenas de escolas de samba movimentavam comunidades o ano inteiro. Hoje, sobrevivem — com esforço heroico — talvez três. Enquanto isso, cidades menores da região entendem a potência do Carnaval e utilizam a festa como estratégia de turismo e desenvolvimento.

Ainda assim, o Carnaval resiste. Em Franca, ele não depende exclusivamente da vontade política dos governantes. Sobrevive graças aos blocos de rua, aos bailes de salão, aos coletivos independentes e aos grupos culturais que insistem em ocupar o espaço público com alegria. São eles que mantêm vivo o maior evento popular do Brasil também aqui.

Aos inquietos que condenam a festa por medo de encarar a própria liberdade, resta a fiscalização moral da vida alheia.

Aos políticos que desprezam a cultura popular, fica o risco de não pertencerem ao território que os elegeu. Aos foliões, permanece o direito de celebrar a vida para além do trabalho.

Porque o Carnaval é isso: é memória, é identidade, é economia, é política. É resistência.

E enquanto houver povo na rua, glitter na pele e tambor marcando o compasso, Franca não terá conseguido matar o seu Carnaval.

Viva a resistência do nosso povo, que deixa o Carnaval viver.

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca pelo Psol e Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Franca.

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Comentários

3 Comentários

  • Adauto Casanova 2 dias atrás
    Aos poucos carnaval e futebol vem dando lugar a outras mais importantes prioridades na vida das pessoas, que gradualmente vem se informando melhor e apoiando gestões mais austera. Marília, Ourinhos e outras cidades tomaram medidas de contenção de despesas e há apoio da população. Todos os entes públicos passam por dificuldades financeiras, em grande medida justamente por perda de foco sobre o que essencial para a população é o que deve ser promovido pela iniciativa privada.
  • Sxndrx 2 dias atrás
    Infelizmente nao é possivel realizar o carnaval aqui pois o que teria era venda de drogas prostituicao roubos assaltos tentativas se homicidios pedofilia menores embriagados e escolas que seus representantes desviaram o dinheiro e se apresentam de uma forma tosca e ridícula
  • jaques campos 3 dias atrás
    Sempre oportuna e inteligentes as observações da vereadora Marília Martins.