LITERATURA

Umbigo

Por Vanessa Maranha | especial para o Portal GCN/Sampi
| Tempo de leitura: 5 min
Arte indiana: representação de Mahamai, deusa mãe, dando à luz. Relevo em madeira, século XVIII. Coleção particular

Era uma vez, uma história que não.

Uma vez em que as palavras deixaram de bastar... não, não é bem isso. Porque as palavras não bastam mesmo.

Era outra vez, então, mais claramente, uma menina. E do outro lado, sua mãe.

E a menina olhava: escuro, olho enervado, profundo ou raso. O umbigo é a cicatriz do primeiro corte literal, pós-amniótico, expulsão das entranhas, a queda no mundo.

Lavínia, desde pequena tinha curiosidade pelo umbigo, esse furo.

Um dia, de tanto mexer e cavoucar o ponto pregado na barriga, enxergou nele um buraco de entrada, era criança elástica ainda, cheia de tonicidade, então, curvou-se para olhar bem dentro e fundo daquele seu oco, o dedo abrindo passagem que a convidava mais e mais até que, zupt. Para dentro de si ela escorregou e quando se viu inteira no local onde pensava pairarem todas as comidas da vida, vísceras e borbulhas, sentiu outra coisa: jardim.

Peônias e frésias, águas incandescentes, aves do paraíso. Era grande o fundo de si. Viu um fiorde, um poço, eucaliptos, uma aurora boreal, um osso, uma casa. A mãe, do lado de fora sentindo falta de Lavínia, gritou alto venha aqui. A menina, dentro de si própria olhou para cima e lá estava o buraquinho, pequeno rasgo por onde entrara.

Esticou os dois braços, precisou pular um pouco, fez o mergulho reverso ao redor de sua epiderme e, em segundos, saída do seu avesso estava de volta ao mundo de fora. Atordoada pela claridade outra, pelos barulhos, ela correu à mãe, que lhe ofereceu lanche, sem perceber o que se dera. A mãe sempre lhe dando comida na função umbilical mesma.

Estar junto da mãe era como estar misturada ao que desde sempre fora assim mesmo, mas havia mais. Descobrira ser o umbigo uma espécie de entrada a algum éden ou umbral em outra dimensão da qual só poderia usufruir sozinha porque já tinha noção de que entrar dentro de si mesma pudesse parecer muito esquisito, nunca vira alguém nisso.

E se a mãe não gostasse e a proibisse de voltar lá? E se a confundissem com alguma espécie de tatu bola? Mais tarde na vida ouviria dizer que o inferno são os outros, no que até haveria de concordar, acrescentando, com expertise, que o paraíso somos nós mesmos.

Passou daí, desde a primeira experiência, a escolher os momentos de sua glória: trancada no banheiro, antes do banho, uns bons minutos no inverso do seu mundo e, depois, à noite, quando todos já dormiam, esse seu segredo.

A cada vez que mergulhava no próprio umbigo, cerne, encontrava coisas novas: uma radiola, um circo, um trombone, jacas. Plantas sempre variadas, algumas carnívoras, objetos com os quais não sabia se haver, porque não existia ali quem lhe ensinasse sua utilidade e manuseio, portanto, qual a valia de uma cítara, de um realejo para quem não sabe sequer que tais objetos criam música?

Mas, tão bom e vasto era ser assim, ensimesmada que, no de fora mesmo, muito pouco ia aprendendo a caminhar.

A família estranhava seu alheamento e sumiços cada vez mais frequentes e longos, às vezes desde que o sol se despregava da manhã até o início da escuridão.

— Ela simplesmente desaparece, dizia a mãe, entre alarmada e desconfiada: estaria a filha desenvolvendo algum tipo de loucura, errância, parvoíce? Seria abdução?

Essa mãe rezava muito. Devotadamente, sem grandes entusiasmos emocionais e um firme conhecimento do próprio lugar, que sabia ser praticamente nenhum. “Melhor não ser nada, para poder ser tudo”, um mantra que ouvira nalgum lugar. A vida embola e mancha, é esse ringue, essa selva, todos os dias até o fim dos dias. Até ouvira dizer que se poderia existir de outra maneira, mas, ainda não experimentara. Bebia escondida, durante os afazeres, aos golinhos, para sorrir, bebia para esquecer. Para doer menos. Para abrir o choro, soltar demônios. Mas, agora, não era hora para existencialismos, nem devaneios. Precisava saber da filha.

Planejou então uma tocaia, a boca na botija, seguindo silenciosamente todos os passos da menina até finalmente descobrir o que de extraordinário se passava ali. Estava bem detrás das cortinas do quarto de Lavínia quando, de repente, olhos arregalados e paralisada, presenciou o seu movimento corporal para dentro feito uma cobra que se engolia a si mesma, sumindo e deixando, no chão do quarto uma pequena, quase invisível pelota de peles e algum cabelo que, de perto, parecia matéria morta.

Tal foi o seu horror por aquela visão, de repente interpelada pelo corpo, que essa mãe desmontou, peça por peça, quebra-cabeças sobre a poltrona do quarto da filha: primeira vez que se desfazia assim e, então, se descobria desmontável e, mesmo aos pedaços, pensante, o pensamento irrompendo, como se tudo ali pensasse, sem marcar hora para acontecer, mas, parecia inoculada pelo vírus do silêncio, como se vivendo uma pandemia de um único dia.

A filha enrodilhada para dentro de si; a mãe, frágil estrutura desencaixada de pedacinhos, talvez lego, pouca sustentação, sem palavras, precisava pescá-las, para algum formato. Prosseguia por ali, ainda desmontada, quando Lavínia chegou de volta de si mesma e viu, sobre a poltrona a grande quantidade de fragmentos, peças que compunham aquilo a que ela chamava de mãe: será que a mãe tinha morrido de morte eterna? desesperou-se, ainda que lentamente, à visão da filha, ia se reintegrando, então, não: vivia.

Imediatamente, olhando-se, mutuamente abismadas, afigurou-se um segredo tácito entre as duas: uma sumida em si, a outra, vivendo aos pedaços, em aparência de inteireza.

Eram, desse modo, e para sempre, mãe e filha e assim o dia se desfez. Sem muito, um dia neutro, comum, como a maioria dos dias de uma existência. Esse dia ido pelo último gole que Lavínia entornou sem ver que a água fresca e potável era engolida pela voragem do tempo. E desde então, quando uma sumia, a outra sabia.

Tinham aprendido que sabiam desaparecer. Não só para fugir do mundo. Mas para encontrá-lo inteiro, por dentro.

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