Há mais de 20 anos eu não acompanhava o reality show que, todo início de ano, sequestra a atenção de milhões de brasileiros. Mas desta vez, como vereadora, não pude ignorar o que, nas artes cênicas, chamamos de laboratório social: um espaço de observação de comportamentos, conflitos e relações de poder.
Para viver em sociedade, aprendemos cedo a usar máscaras. Desde crianças, somos ensinados a modular o tom de voz, os gestos, as opiniões e até os afetos para caber no que é socialmente aceitável. Família, escola, comunidade religiosa e, depois, estranhos nos moldam. O ciclo é tão automático que, quando nossas crianças nascem, fazemos o mesmo com elas — muitas vezes sem perceber.
O confinamento do BBB apenas acelera esse processo. Assim como nas nossas famílias, bairros e locais de trabalho, pessoas diferentes são obrigadas a conviver. Rapidamente se formam panelinhas, hierarquias e privilégios. Há quem entre com vantagens evidentes — camarotes, veteranos — e quem precise provar o tempo todo que merece estar ali. É sobre estes últimos que quero falar.
Quem não reconhece, ali dentro, pessoas que conhece fora do programa?
A jovem do interior que interrompeu os estudos cedo demais para cuidar de um filho e cresce acreditando que não é inteligente, embora sonhe com uma faculdade. A mulher negra que começou a trabalhar ainda criança, como empregada doméstica, e tem sua capacidade constantemente desconsiderada — inclusive por quem compartilha da mesma origem racial. O homem que se diz cristão e defensor da família, mas pratica violências e incoerências. Pessoas negras que reproduzem o racismo acreditando que algum privilégio as protegerá. Profissionais que colhem benefícios sociais, mas ainda sofrem discriminação. Mulheres feridas que atacam outras mulheres. Contradições humanas que não nascem ali — apenas ganham palco.
Nada disso é individual ou aleatório.
O caos social que vivemos no Brasil é resultado de um projeto histórico. Foram mais de três séculos de escravização legalizada e pouco mais de um século de uma abolição sem reparação e inclusão. Tempo suficiente para, em pleno século XXI, vermos como ainda somos manipulados por um sistema que nos coloca uns contra os outros para minar nossa força coletiva.
Criaram até seitas político-religiosas que transformam o mundo em uma falsa batalha entre o bem e o mal. Direita contra esquerda. “Cidadãos de bem” contra inimigos imaginários a serviço da moralidade vazia. Tudo para nos impedir de olhar para cima — onde estão os verdadeiramente endinheirados, protegidos e intocados.
No BBB, vemos pessoas defendendo aliados mesmo quando erram gravemente, atacando quem confronta abusos, reforçando discursos de “nós contra eles” mesmo sendo vítimas desse mesmo sistema. Na política e na vida real, o roteiro é assustadoramente parecido.
Os partidos políticos viraram torcida organizada. Com uma diferença cruel: no futebol, há punição coletiva para quem protege crimes. Na política, muitas vezes, há aplauso.
Assim como no reality show, também podemos votar para tirar ou manter participantes. Mas aqui a pergunta é outra: quem está do lado de quem vive do próprio trabalho ou de quem lucra explorando essa mão de obra em formas precárias, e se blinda da justiça? É como escolher quem vai dormir no seu quarto e sentar à sua mesa.
Este ano tem eleição. Diferente do BBB, o prêmio não é individual. A escolha define se vamos seguir vivendo de xepa e favores ou com dignidade, direitos e comida na mesa.
Talvez o maior desafio seja esse: entender que podemos ser diferentes, discordar, pensar e viver de formas distintas — mas não somos inimigos objetivos. Somos pobres em um país profundamente desigual. E enquanto brigarmos entre nós, alguém seguirá lucrando com isso.
Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora pelo Psol e Procuradora da Mulher.
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Comentários
1 Comentários
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Helio Pinheiro Vissotto 29/01/2026Escrever tudo isso e ainda votar no Lula seria uma grande contradição!