Você tem pressão alta, toma remédio todo dia, já passou susto, vive no cardiologista, às vezes fica mal no trabalho… e ainda assim acha que “não dá nada no INSS”? Normal. O Brasil é especialista em duas coisas: burocracia e desinformação. E quando as duas se juntam, quem paga a conta é você.
Agora, preste a atenção: pressão alta não dá benefício automático. Não é porque você tem hipertensão que o INSS vai sair te oferecendo auxílio-doença ou aposentadoria como se fosse brinde de supermercado. Só que tem um detalhe grande aqui, e é exatamente nele que muita gente perde tempo e dinheiro: a pressão alta pode, sim, abrir caminho para benefícios do INSS quando ela vira limitação real, quando ela descompensa, quando ela traz complicações, quando ela gera risco no trabalho, quando ela te derruba de verdade.
E o problema é que muita gente só descobre isso quando já está no limite, ou pior, quando já ouviu um “indeferido” seco, sem explicação decente. Aí começa a romaria: pega atestado genérico, corre em clínica, pede ajuda para um “especialista” do WhatsApp ou do Google, cai em promessa milagrosa… e pronto. Mais confusão.
Afinal, quais benefícios podem entrar no jogo para quem tem hipertensão (pressão alta), quais são os caminhos mais comuns, o que o INSS costuma fazer para negar, e como você se prepara para não cair em cilada?
Pressão alta é o quê, na vida real?
Hipertensão é quando a pressão do sangue fica alta de forma frequente ou constante. Não é “um dia deu alto porque eu briguei com alguém”. É um quadro que pede acompanhamento, controle e, em muitos casos, uso contínuo de medicação.
O jeito mais fácil de entender é assim: imagine que suas artérias são canos. Se a pressão dentro do cano fica alta o tempo todo, o “cano” sofre. E o “motor”, que é o coração, sofre também. A pressão alta vai desgastando o corpo por dentro. Silenciosa, persistente e, quando resolve aparecer, aparece com força.
Ela pode afetar principalmente:
- Coração (sobrecarga, insuficiência cardíaca, arritmias)
- Cérebro (risco de AVC)
- Rins (perda de função renal)
- Olhos (alterações na visão)
E aí vem o ponto que muita gente não entende: o INSS não paga benefício por diagnóstico. Ele não paga porque você tem “hipertensão”. Ele paga quando a hipertensão vira incapacidade, limitação ou impedimento de longo prazo.
Ou seja: não é sobre o nome da doença. É sobre o estrago e o impacto na sua vida.
“Mas eu tomo remédio… isso já conta?”
Conta, mas não do jeito que as pessoas imaginam.
Tem gente que controla a pressão com um remédio e segue a vida. Beleza. E tem gente que vive o outro lado: dois, três, quatro medicamentos, ajuste de dose, crises, idas ao pronto atendimento, efeitos colaterais, picos, pressão que não estabiliza, e de brinde uma complicação no coração, no rim ou um AVC.
A pressão alta pode virar um problema previdenciário quando acontece, por exemplo:
- Crises hipertensivas com sintomas fortes
- Internações ou atendimentos frequentes
- Complicações (AVC, infarto, insuficiência cardíaca, doença renal)
- Risco no trabalho (dirigir, operar máquina, altura, vigilância, atividades com perigo)
- Limitação para esforço, fadiga e falta de ar
- Quadro associado com diabetes, obesidade, apneia do sono, depressão, ansiedade, etc.
E aqui um detalhe que muitos já perceberam: o INSS adora a palavra “controlada”. Se alguém olha seu papel e escreve “hipertensão controlada”, pronto, parece que sua vida virou um mar de rosas. Só que “controlada” no papel não significa “sem risco” na rotina.
O que a maioria erra (e por isso perde)
Muita gente perde benefício não porque não tem direito, mas porque pede errado e prova mal. E o sistema não perdoa.
Os erros mais comuns:
- Chegar na perícia só com um papel escrito “hipertensão”
- Levar atestado curto, sem explicar limitações e riscos
- Não explicar a profissão e o que você faz na prática
- Não juntar histórico de crises, urgências, internações e exames
- Achar que o perito vai “entender” sua rotina sem você mostrar
Benefício do INSS não é loteria. Mas também não é “só pedir”. Você precisa alinhar três coisas: direito, estratégia e prova.
Agora vamos explicar quais são os benefícios que pode ter e como cada um funciona para quem tem pressão alta.
Benefícios por incapacidade: quando a hipertensão te impede de trabalhar
a) Auxílio-doença (benefício por incapacidade temporária)
Se a pressão alta ou as complicações dela te afastam do trabalho por um período, pode existir direito ao auxílio-doença. E aqui o ponto principal é: a incapacidade é para o seu trabalho, para a sua função real, do jeito que você vive no dia a dia.
Exemplos comuns em que a hipertensão pode pesar:
- Pressão descompensada com tontura, cefaleia intensa, mal-estar
- Dor no peito, falta de ar, palpitações
- Crises recorrentes mesmo com tratamento
- Recuperação após AVC, infarto ou crise grave
- Quadro com insuficiência cardíaca ou comprometimento renal
- Função com risco, em que um mal súbito pode gerar acidente
Se sua profissão envolve risco, não é drama, é segurança. Um motorista de caminhão profissional com tontura e picos de pressão, por exemplo, não está “fazendo corpo mole”. Ele está dirigindo uma arma de duas toneladas.
O INSS vai olhar, na prática:
- Se você tem qualidade de segurado (está coberto pelo INSS)
- Se cumpre carência (em geral 12 contribuições, com exceções no caso concreto)
- Se existe incapacidade temporária comprovada
Atenção: dizer “tenho pressão alta” é fraco. Pense antes de responder: o que a pressão alta está fazendo com sua capacidade de trabalhar hoje?
b) Aposentadoria por invalidez (benefício por incapacidade permanente)
A aposentadoria por invalidez costuma aparecer quando a hipertensão já trouxe repercussões graves. Não é comum o INSS conceder só por “hipertensão essencial” sem mais nada. Mas é bem possível quando o quadro é pesado, por exemplo:
- Sequelas importantes de AVC
- Cardiopatia grave, insuficiência cardíaca avançada
- Comprometimento renal relevante
- Limitações físicas e funcionais persistentes
- Risco alto, sem possibilidade real de reabilitação para outra atividade
Não esqueça: aposentadoria por invalidez não é prêmio por estar doente. É proteção quando a incapacidade é permanente e não há caminho realista de voltar ao trabalho de forma compatível.
E o INSS vai tentar empurrar para “reabilitação”, mesmo quando o cenário é irreal. É aqui que o caso concreto manda, e é aqui que muita gente se frustra.
Aposentadoria da Pessoa com Deficiência (Lei Complementar 142/2013): onde muita gente nem olha
Agora vem um dos pontos mais “escondidos” para o público geral: a aposentadoria da pessoa com deficiência, pela Lei Complementar nº 142/2013.
Atenção: isso não é a mesma coisa que aposentadoria por invalidez. Na aposentadoria PCD, a pessoa pode trabalhar. O foco é outro: é a existência de um impedimento de longo prazo que traz limitações reais e duradouras.
A hipertensão pode virar “deficiência” para essa regra?
Pode, mas não é qualquer caso.
A hipertensão pode se encaixar quando ela gera um quadro de longo prazo com impacto significativo, como:
- Limitação persistente para esforço e atividades
- Complicações cardiovasculares duradouras
- Sequelas neurológicas após AVC
- Necessidade contínua de tratamento pesado e restrições relevantes
- Barreiras reais na vida e no trabalho, por causa da condição
O INSS avalia com perícia e também com avaliação social, observando o grau do impedimento e desde quando ele existe. E aqui mora um erro clássico: a pessoa só pensa na doença “agora”, mas a análise pode envolver quando começou a limitação e quanto tempo ela trabalhou nessas condições.
Não é rótulo, é funcionalidade: o que você consegue fazer, com que custo, com que risco, e por quanto tempo isso já acontece.
BPC/LOAS: quando a pessoa não contribui, mas pode ter direito
O BPC é um benefício assistencial, não é aposentadoria. Ele é para:
- Idoso com 65+ em vulnerabilidade
- Pessoa com deficiência (impedimento de longo prazo) em vulnerabilidade
Aqui a hipertensão entra quando o quadro é grave e limita de forma duradoura, principalmente quando vem junto de outras condições.
Quando a hipertensão pode ajudar a fechar o requisito de “impedimento de longo prazo”?
Em geral, quando existe:
- Hipertensão grave com complicações
- Sequelas de AVC
- Insuficiência cardíaca e limitações importantes
- Doença renal crônica
- Associação com outros problemas de saúde que aumentam a limitação
Atenção: no BPC não basta doença. É preciso também provar vulnerabilidade econômica. O benefício é para quem não consegue se sustentar e tem apoio familiar insuficiente, dentro dos critérios que são analisados no caso concreto.
O BPC não tem 13º e não deixa pensão por morte. Isso não é para te assustar, é para você decidir com consciência.
O que levar e como se preparar (para não cair na cilada do indeferimento)
Aqui vai o que funciona na prática, sem teatro.
Documentos médicos que ajudam de verdade
- Relatório médico detalhado (de preferência de cardiologista), dizendo:
- seu diagnóstico e histórico
- sintomas e crises
- tratamento e medicamentos
- limitações e riscos
- por que precisa afastar (quando for o caso)
- Exames como MAPA, ecocardiograma, exames renais, e os que se aplicarem
- Registros de atendimentos de urgência e internações
- Documentos de reabilitação, se houver (pós-AVC, por exemplo)
Prova da sua rotina de trabalho
- Descrição da função (o que você faz, como faz, com quais riscos)
- Se trabalha dirigindo, em altura, operando máquina, com risco de acidente, isso precisa estar claro
- Histórico de afastamentos e atestados, quando existirem
Cuidado: o perito não vive sua vida. Ele decide pelo que está no papel. Se o papel é fraco, o resultado costuma ser fraco também.
Cuidado com golpes e “atalhos” que viram prejuízo
Sempre aparece alguém dizendo que “consegue benefício rápido”, que “tem contato”, que “é garantido”. Isso é o tipo de promessa que termina em duas coisas: frustração e perda de tempo. No pior cenário, termina em golpe mesmo.
Conversa séria e protetora: benefício sério se pede com prova séria. E estratégia séria. Se alguém te oferece milagre, desconfie. Milagre não paga suas contas quando o INSS nega.
Conclusão: a verdade que muda o jogo
Observa-se que PRESSÃO ALTA não dá benefício automático. Mas pressão alta pode, sim, dar benefício no INSS quando ela vira limitação real, quando traz complicações, quando gera risco no trabalho ou quando vira impedimento de longo prazo.
Muita gente tem direito e perde por dois motivos simples. Pede o benefício errado e prova do jeito errado. E aí o INSS faz o que ele sempre faz: nega e segue o baile.
Agora o meu alerta: não espere virar tragédia para organizar prova. E não vá para a perícia “na esperança”. Esperança não é documento.
Dessa maneira, se você tem hipertensão e está afastando, tendo crises, acumulando complicações, ou se sua função envolve risco, procure um advogado especialista em Direito Previdenciário de sua confiança. Leve seus exames, relatórios, receitas, registros de urgência e explique sua rotina de trabalho. Em muitos casos, a diferença entre receber e não receber está em detalhes que o segurado nem imagina.
E se você conhece alguém que sofre por conta de pressão alta, aproveite e compartilhe esse texto.
Tiago Faggioni Bachur é advogado, professor e especialista em Direito Previdenciário. Atua na defesa dos direitos sociais, com foco em benefícios e revisões do INSS, BPC/LOAS e planejamento previdenciário. Colunista do Portal GCN. Autor de obras jurídicas.
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