Dia desses, tendo assistido a um vídeo da influencer Cláudia Matarazzo a respeito de seus esquecimentos e necessidade de fazer cada vez mais anotações em agendas físicas e eletrônicas para não perder compromissos; e tendo ouvido pouco depois a audiossérie de título ‘Deve ser da idade’, onde a atriz, escritora e documentarista Maria Ribeiro comenta envelhecimento, corpo e transformações, eu me senti representada. Tanto uma quanto outra são mulheres que já adentraram esse patamar chamado eufemisticamente de ‘terceira idade’. Sinceras e realistas, mas mantendo um tom leve, rejeitaram em suas falas tanto as fantasias românticas quanto a desfaçatez das frases prontas que inundam a Internet e tentam suavizar a passagem do tempo com afirmações do tipo ‘idade é só mais um número’; ‘envelhecer leva à sabedoria’; ‘se a juventude é presente da natureza, a velhice é obra de arte’. Nem sempre. E as exceções, como a extraordinária Tânia Mara, 77, do elenco de ‘O Agente Secreto’, só confirmam a regra. Envelhecer dói.
Foi importante ter encontrado no mundo virtual Cláudia e Maria e poder refletir com elas sobre o estágio da vida no qual me encontro já há algum ‘tempo’- esse verbete cujo sentido ‘escoa inapelavelmente’, como costuma dizer um amigo querido. Mas foi conversando sobre o tema com a geriatra que me atende quando preciso que ouvi dela, competente também no teclado nas suas poucas horas de lazer, uma frase de impressionante lucidez ao responder ao meu questionamento sobre a dor de envelhecer. “Essa dor é queixa comum e se eu fosse defini-la diria que não é nota única, mas acorde complexo”. Ainda que leiga em música, compreendi na hora a diferença fundamental entre a nota como som isolado e o acorde como combinação simultânea de duas ou mais notas. Concordei de imediato com tão expressiva metáfora de cunho musical para descortinar um fato inarredável à existência humana, caso não se morra jovem.
Nosso papo prosseguiu na enumeração das principais dores dos idosos. A física, mais óbvia, surge devagar e aos poucos se impõe por conta do desgaste das articulações, da perda da força muscular, de limitações que transformam tarefas simples em desafios estressantes, porque o corpo, até há pouco tempo aliado silencioso, passa a gritar por manutenção constante. Então, dá-lhe dietas, suplementos, ginástica, pilates, caminhadas e outras atividades físicas diárias que podem ajudar a melhorar o quadro. Acuda-se também o ouvido e a visão.
Junte-se a essa primeira dor, outra, a da invisibilidade, para muitos ainda mais cruel, no sentido de que à medida que os anos passam, o mundo parece acelerar para quem já soma mais de seis décadas e vai aos poucos desaparecendo por trás das rugas e dos cabelos brancos, deixando paulatinamente de ser protagonista e se tornando, não raro, apenas coadjuvante de sua história. Some-se a essa sensação o medo da perda de autonomia e a proximidade da finitude, mesmo quando se leva em conta que a matemática da longevidade não se mede em probabilidades. Para morrer basta estar vivo, diz um dos nossos ditados populares; e a vida não é exata, lembram os filósofos.
Fechando a tríade sombria, emerge com certa frequência a dor da saudade a cada partida de parente, amigo, colega, vizinho; a cada mudança dos espaços que tinham relação com os afetos; a cada lembrança que não encontra mais respaldo na realidade. Esse específico sentimento nem sempre é expresso de forma verbal, e se persiste pode gerar uma sensação de luto constante não só em relação a terceiros como a versões de si mesmo que ficaram para trás, e de incômodo relativo a um mundo que já não existe da maneira como foi organizado pela memória.
Enfim, envelhecer, deduzimos a doutora e eu, precisa ser aceito como um processo marcado por perdas. É o corpo que já não responde com a mesma agilidade, a memória que nos ludibria, o espelho que revela um mapa de rugas e devolve flashes de desconhecidos semblantes a cada mirada. Nesta altura, a médica se lembrou com melancolia de Elizabeth Bishop, autora dos versos célebres: ‘A arte de perder não é nenhum mistério/Tantas coisas contêm em si o acidente/De perdê-las, que perder não é nada sério./Perca um pouquinho a cada dia. Aceite austero...’ De volta, resgatei Cecília Meirelles no icônico ‘Retrato’: ‘Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo./Eu não tinha estas mãos sem força,/tão paradas e frias e mortas;/eu não tinha este coração/que nem se mostra./ Eu não dei por esta mudança,/tão simples, tão certa, tão fácil:/
- Em que espelho ficou perdida a minha face?’
Encerramos essas considerações com a conclusão de que a dor de envelhecer não é mero desabafo; é reconhecimento de uma realidade física e emocional profunda. Entretanto, embora seja real, não precisa representar o fim. O simples fato de sofrer significa que estamos vivos. Então, nas pausas das dores, vamos saborear pequenos prazeres como tomar uma xícara de café passado na hora, degustar um pedaço de bolo caseiro, olhar sem pressa o pôr-do-sol, ouvir as canções de um repertório íntimo, conversar com alguém de forma genuína, valorizando as palavras na tradução de sentimentos. Vamos também manter a curiosidade pelo que acontece ao redor, pois o cérebro e a alma envelhecem mais devagar quando continuamos a aprender coisas novas; e cultivar laços porque a solidão é o que mais entristece na velhice; e estabelecer conexões também com gente mais jovem porque isso confere certo frescor à rotina; e continuar buscando o sonho acompanhando o que dizia o bizarro Barão de Itararé: ‘se não o encontrar numa padaria, procure em outra’.
Enfim, humor à parte, envelhecer dói. Principalmente porque exige que nos desprendamos do que fomos para aceitar o que somos. Aliás, li recentemente em livro de autor chinês cujo nome esqueci (nenhuma novidade!), algo que está fazendo muito sentido para mim neste ‘novo’ tempo: ‘Envelhecer é uma metamorfose ao contrário: a lagarta, depois de muito voar, precisa aprender a honrar o chão no qual pisa.’
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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