Uma cena inusitada trocou o clima de tensão por risadas na tarde desta terça-feira, 13, em Franca. Após uma pancada de chuva intensa, que fez o Córrego dos Bagres transbordar na Avenida Ismael Alonso y Alonso, na altura da concessionária Automec, um peixe — uma tilápia de aproximadamente 1,5kg — foi encontrado se debatendo no meio do asfalto.
O relato foi feito por Rafael Ferreira de Souza, 31 anos, que trabalha no local que presenciou toda a cena. Segundo ele, o temporal chegou de repente. "A gente percebeu que o tempo estava mudando, estava bem calor. Veio uma pancada muito forte e o nível do córrego começou a subir de forma rápida. Chega a assustar, a gente já conhece o histórico de alagamentos de Franca", contou.
Do susto à pescaria urbana
Durante a chuva, alguns motoristas precisaram invadir a contramão para fugir da água que ultrapassava a ponte da rotatória. "Vem aquele sentimento de impotência ao ver a força da natureza. No momento a gente só pensa na família", desabafou o morador. Felizmente, a loja onde ele trabalha não sofreu prejuízos e ninguém se feriu.
Porém, assim que a água baixou, o susto deu lugar à surpresa. Vizinhos alertaram que havia um peixe na rua. "Achei que fosse brincadeira. Fui lá conferir e, de fato, era uma tilápia de mais ou menos uns 40 centímetros, em torno de 1,5kg. Um belo exemplar, que a gente não encontra nem em pesque-pague", brincou.
O comerciante pegou o peixe, que ainda estava vivo, mas bastante machucado devido à força da enxurrada e ao atrito com o asfalto. "Tentei salvar para devolver ao habitat natural, mas ele não resistiu", explicou. O destino do peixe acabou sendo a mesa: amigos do estabelecimento vizinho levaram a tilápia.
História de Pescador?
Nascido e criado em Franca, o rapaz conta que já passou por situações inusitadas — como salvar uma vaca atolada e ter um pássaro batendo no vidro do seu carro — mas pescar na avenida foi inédito.
"Quem espera encontrar uma tilápia no meio de uma das principais avenidas da cidade? Cheguei a brincar com meus amigos: pescar em rio e represa é coisa de gente fraca. Nós gostamos de pescar é na avenida mesmo, no asfalto", finalizou com bom humor.
O que diz o especialista?
O caso está viralizando nas redes sociais e levantou dúvidas: de onde veio esse peixe? A água do córrego está limpa? E, principalmente, pode comer? Para responder a essas questões, nossa reportagem conversou com o Professor e Doutor Célio Bertelli, engenheiro agrônomo, zootecnista e vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Sapucaí-Mirim/Grande.
Segundo Bertelli, a presença do peixe ali não é incomum, apesar do susto. A tilápia provavelmente desceu arrastada pela força da chuva de reservatórios acima, como o do Castelinho ou represas particulares de fundo de quintal. "A tilápia é um peixe exótico e um dos mais resistentes que existem", explica.
O especialista destaca também que ver peixes sobrevivendo no Córrego dos Bagres é uma excelente notícia. Trata-se de um bioindicador de que a qualidade da água está evoluindo.
"Antigamente, essa água era classificada como nível 4 (a pior possível). Hoje, graças ao desvio de esgotos e tratamento feito pela Sabesp e Cetesb, ela já está na classe 3, caminhando para a 2. Se tem peixe vivendo, é sinal que a água está melhorando", afirma Bertelli.
Cuidado com o consumo
Embora o peixe encontrado tenha sido levado por moradores para consumo, o Dr. Célio Bertelli faz um alerta severo: ingerir peixes dessa drenagem urbana não é recomendado sem uma análise laboratorial prévia.
O motivo é o histórico industrial de Franca. "No passado, caíam ali resíduos de curtumes com metais pesados, como cromo e chumbo. Embora hoje a situação seja controlada, esses metais podem estar sedimentados e o peixe, por ser resistente, absorve isso. Nós, humanos, não somos resistentes a metais pesados", alerta o especialista.
Além dos metais, há o risco biológico. "O peixe pode conter parasitas internos e externos que comprometem a saúde humana. Portanto, para alimentação, a procedência é duvidosa e arriscada", conclui.
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