O fracasso da segunda licitação da Expoagro Franca 2026 (Exposição Agropecuária de Franca) acende um alerta de que a principal festa popular da cidade pode repetir o cenário do ano passado e ficar sem shows pelo segundo ano consecutivo. O Portal GCN/Rede Sampi apurou, com exclusividade, que as cinco empresas que participavam do processo licitatório desistiram de promover o evento, levando à anulação da licitação na manhã desta quarta-feira, 14.
A desistência geral ocorreu mesmo após a ampliação do número de interessados. Diferentemente da primeira tentativa, que contou com apenas duas empresas, o segundo edital atraiu cinco participantes, o que gerava a expectativa de que ao menos uma delas fosse contratada.
Na segunda-feira, 12, foram abertos as propostas no processo licitatório. Inicialmente, desistiram a 3L Produções Artísticas Ltda., de Barra Velha (SC), Luciano Santiago Reinert, de São João do Itaperiú (SC), e a BF Shows – Sports & Entertainment Ltda., de São José do Rio Preto (SP). Com isso, restaram apenas duas empresas: Organiza Eventos Ltda. ME, de Palhoça (SC), e Império Comércio & Serviços Ltda., de Sapiranga (RS). Ambas também formalizaram pedido de desistência, encerrando de vez a disputa.
O lance mínimo estipulado pela Prefeitura de Franca para que a empresa vencedora executasse a festa foi de R$ 279.903,81. Apesar de as propostas apresentadas ficarem próximas desse valor, nenhuma das empresas quis assumir o compromisso de realizar o evento. O fato chama atenção, já que todas participaram do certame cientes das regras e exigências do edital.
Modelo considerado pouco atrativo
Produtores de eventos e profissionais do setor artístico apontam que o formato atual da licitação tem afastado empresas interessadas. Entre os principais entraves estão o fato de a empresa vencedora precisar pagar para realizar a festa, o limite máximo de R$ 30 no valor do ingresso de pista, a impossibilidade de explorar financeiramente o estacionamento em frente ao Parque de Exposições “Fernando Costa” e a exigência de realização de ao menos dois shows gratuitos, custeados integralmente pela própria promotora.
Outro fator citado é a mudança no mercado de eventos. Em diversas cidades da região, festas populares têm sido bancadas diretamente pelas prefeituras, com shows gratuitos ou fortemente subsidiados. Em muitos casos, o poder público contrata a empresa para executar o evento conforme um cronograma definido, dividindo custos e riscos, modelo oposto ao adotado atualmente em Franca.
Concorrência com outros eventos
Também pesa no cenário a consolidação do Franca Rodeo Music, realizado em setembro e já em sua segunda edição. Promovido por empresários de grande porte do show business nacional, o evento consegue reservar atrações de alto nível e oferece um formato mais atrativo tanto para artistas quanto para o público pela estrutua oferecida, o que impacta diretamente a agenda e o interesse do mercado em outros eventos na cidade.
Produtor aponta modelo ultrapassado
O produtor de eventos Fabio Patres, que já realizou a Expoagro de Franca em 2018 e 2022 e atua em diferentes regiões do Brasil, avalia que o edital reflete um modelo defasado de contratação.
Segundo ele, o formato adotado impõe à empresa vencedora a responsabilidade integral por todos os custos do evento — contratação de artistas, estrutura, logística, segurança, taxas, ISS, ECAD e demais encargos — sem qualquer contrapartida financeira relevante do Município. “Trata-se de um modelo que não compartilha riscos e ignora a realidade econômica atual do setor de entretenimento”, afirma.
Patres destaca que, desde 2024, a Expoagro já dava sinais de esgotamento. “Não existem mais ingressos populares de R$ 20 ou R$ 30 para grandes shows. Os cachês artísticos aumentaram significativamente, assim como os custos operacionais. Obrigar o promotor a arcar com esses valores e, ao mesmo tempo, limitar o preço dos ingressos torna o projeto inviável”, explica.
Ele compara com o que ocorre hoje na maioria dos municípios brasileiros, onde os modelos preveem pista gratuita ou subsidiada, participação direta do poder público no custeio de parte dos shows e atuação da iniciativa privada na estrutura, operação e áreas comerciais. “Esse equilíbrio garante a continuidade do evento e amplia o acesso da população”, avalia.
Para o produtor, a repetição de licitações fracassadas reforça o diagnóstico. “Sem revisão do modelo, sem participação ativa do Município como apoiador e cofinanciador, e sem atualização do formato para os padrões nacionais, a Expoagro de Franca está, na prática, encerrada. A manutenção desse edital não preserva a tradição do evento, apenas consolida o seu fim.”
Prefeitura ainda não se manifestou
A Prefeitura de Franca foi procurada para comentar o assunto, mas até a publicação desta reportagem não havia retornado o contato.
Histórico de fracassos
Na primeira tentativa de licitação para a Expoagro 2026, lançada ainda em 2025, a empresa vencedora, WJC Promoções Artísticas Ltda., de Restinga, solicitou por três vezes prazo para efetuar o pagamento de R$ 279.903,82. O descumprimento das regras do edital levou à anulação do processo.
Em 2025, a situação foi semelhante. A tradicional festa da cidade ficou sem shows após as empresas classificadas desistirem da realização do evento, e não houve tempo hábil para abertura de um novo processo licitatório. Na ocasião, a Expoagro contou apenas com a programação agropecuária.
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