LANÇAMENTO

Com 64 anos de magistério, professor conta experiências em livro

Por Giovanna Attili | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Sampi/Franca
Divulgação
Luiz Cruz, autor do livro 'Be-a-bá'
Luiz Cruz, autor do livro 'Be-a-bá'

Luiz Cruz de Oliveira lança o livro “Be-a-bá”, obra em que revisita sua trajetória de mais de seis décadas como professor e propõe reflexões sobre alfabetização e ensino no Brasil. No texto, o autor reúne memórias de sala de aula e experiências acumuladas ao longo de 64 anos de atuação, articuladas com críticas às transformações recentes na educação.

A ideia de transformar vivências em livro surgiu a partir de uma mudança forçada na rotina. Com problemas de visão, Cruz precisou reduzir significativamente a carga de aulas, passando a lecionar apenas aos fins de semana. “Eu nunca tinha pensado nisso, não. Só que eu estou com um problema de visão que me mantém muito parado. Então, eu diminuí muito as minhas aulas. Só dou aula no sábado de manhã e no domingo de manhã. Sobrou tempo em excesso e eu resolvi relatar parte das minhas memórias em sala de aula”, contou.

Ao longo de “Be-a-bá”, o autor aborda de forma crítica as mudanças promovidas por legisladores na educação, especialmente no processo de alfabetização. Segundo ele, o ensino funciona como uma corrente, em que o primeiro elo é decisivo. “O elo principal é o primeiro, é a alfabetização. E, infelizmente, os legisladores quebraram exatamente o primeiro elo, que na minha avaliação é o mais importante de todos. Quebrado o primeiro elo, as coisas vão se danando”, afirmou.

Com mais de seis décadas em sala de aula, Cruz afirma que a obra também nasce da ausência de diálogo entre quem decide as políticas públicas e quem vivencia o cotidiano escolar. “Eu estou na sala de aula há 64 anos. Alguma coisa eu tenho de conhecimento do que seja o ensino, do que é o trabalho numa sala de aula. Nunca alguém chegou para mim e perguntou: ‘Preciso fazer uma modificação no ensino, que sugestão você dá?’. Nunca”, disse.

A principal preocupação do autor está no enfraquecimento da formação de alfabetizadores. Para ele, há práticas que não podem ser substituídas por reformas sucessivas. “O relacionamento professor e criança não tem jeito, até hoje não acharam jeito de aperfeiçoar. A criança aprende imitando. Não se pode mexer onde está funcionando. Eliminou-se o curso normal. Não temos mais a normalista, não temos mais a alfabetizadora”, afirmou. Ele relata que atualmente encontra alunos com formação avançada e dificuldades básicas. “Hoje eu recebo pessoas, às vezes até com curso superior, que não sabem ler nem escrever direito. Existe uma falha muito grande nessa caminhada escolar.”

Mesmo ao tratar de temas críticos, Cruz optou por uma abordagem literária, sem compromisso estritamente histórico. “Eu não sou historiador. Eu tento fazer literatura. Busco um mínimo de lirismo, um mínimo de beleza. São minhas memórias, mas eu não tenho compromisso com a história, eu tenho uma busca constante pelo literário”, explicou, ressaltando que a forma é tão importante quanto o conteúdo.

Os ex-alunos ocupam papel central na narrativa e no sentido da obra. Para o autor, o aprendizado sempre foi uma via de mão dupla. “Tudo o que eu sei eu aprendi com os ex-alunos. O convívio é que ensina. O que faz um professor bom não é só o conhecimento, é a capacidade de conversar com o aluno”, disse. “Ser professor é gostar de viver, gostar do ser humano, ter doçura e alegria. Eu aprendi isso com meus alunos, e o livro é uma prova de gratidão a eles.”

Ao falar sobre a leitura, Cruz define o livro como um retrato do relacionamento entre professor e aluno ao longo do tempo. “Eu fiquei muito satisfeito ao final desse livro. Acho que dei a minha contribuição sobre o que é o ensino no país, não só de língua portuguesa ou matemática, mas o aprendizado e o relacionamento professor-aluno. Alguns alunos foram mestres para mim. Me ensinaram demais”, concluiu.

O lançamento de “Be-a-bá” ocorre neste sábado, 10, das 14h às 16h, na AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), em Franca. O encontro será informal, com sarau musical e café da tarde, reunindo amigos, leitores e ex-alunos do autor.

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