OPINIÃO

O diferente não é o inimigo

Por Marília Martins | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução/Redes Sociais
Imagem mostra Donald Trump em uma das cenas da sua posse para o segundo mandato como presidente dos EUA
Imagem mostra Donald Trump em uma das cenas da sua posse para o segundo mandato como presidente dos EUA

Para nós, acostumados aos carros, é quase inimaginável um mundo em que se deslocar por curtas distâncias poderia demorar dias no lombo de cavalos ou chacoalhando em carroças. Hoje, no mundo do WhatsApp, pensar que o único meio de se comunicar com alguém que morava longe era uma demorada carta, para muitos é coisa de filme de guerra. Para quem adora as plataformas de streaming, os corredores das locadoras onde fitas de lançamentos eram muito disputadas são só uma memória muito distante.

É o progresso, que chega e transforma sem dar muito aviso.

Ainda hoje há quem não goste dos veículos automotores, quem ainda envie uma ou outra carta ou até os cinéfilos que não abrem mão de uma fita VHS, mas é inegável que as mudanças fazem parte da nossa própria humanidade.

Os exemplos podem parecer singelos, mas assistir à posse de Donald Trump e o medo (transfigurado em desprezo) que essa onda conservadora exala da diversidade, do diferente, me fez pensar muito sobre como podemos até temer a evolução, mas que, na maioria das vezes, é uma luta em vão.

A posse do presidente americano foi prestigiada por alguns dos homens que representam o que há de mais moderno no mundo. Participaram do evento Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (Tesla, SpaceX e X), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Shou Zi Chew (TikTok) e Sam Altman (OpenAI). Uma reunião inédita, ao menos publicamente. Enfileirados, eles tiveram lugar de destaque no evento.

O curioso é imaginar que entre os responsáveis pela grande revolução tecnológica – não vamos generalizar, claro – que vivemos hoje estão alguns homens que parecem presos a um passado que deixou marcas nefastas. Depois de Zuckerberg dizer que falta "energia masculina" nas empresas e abrir a porta para o discurso de ódio em suas plataformas, assistir a Elon Musk fazer uma réplica de uma saudação nazista chega a dar um nó no estômago. “Ah, ele é só um desajeitado”, alegam aqueles que defendem que ele queria apenas "mandar seu coração" para todos. Sinceramente, não podemos desconsiderar a inteligência de um dos "gênios" do momento que certamente tem referências históricas o suficiente para saber que há semelhanças brutais entre o que ele fez diante de uma plateia de milhares e um gesto abominável que inspirou a tortura e morte de milhões de pessoas – pelo simples fato de serem diferentes dos “arianos”.

A história nos ensina que o medo do diferente é uma narrativa que frequentemente tenta atrasar o progresso. Mesmo que existam líderes que gostariam de negá-lo.

No entanto, assim como superamos os temores de tecnologias disruptivas no passado, também somos capazes de transcender os preconceitos que nos prendem ao atraso. Um exemplo disso é o Renascimento, que transformou o mundo ao abraçar a diversidade de ideias e culturas. Foi o contato com diferentes saberes – preservados por estudiosos egipcios, árabes, indianos e outros povos – que alimentou a ciência, as artes e a filosofia ocidental.

O que essa lição nos diz é claro: o diferente não é o inimigo. Ele é a centelha que acende a inovação, a inspiração que renova nossas certezas e expande nossos horizontes.

Seja ao ouvir as palavras de uma bispa pedindo misericórdia para imigrantes e comunidades LGBT+, ou ao relembrar o poder do encontro entre culturas, somos convidados a refletir: o que seria do progresso sem o contraste? Sem a troca? Sem a aceitação do outro?

No final, o progresso nunca se curva ao medo. Ele avança – inevitável e incansável – porque a humanidade é, por natureza, plural. E é essa pluralidade que nos torna fortes, resilientes e capazes de enfrentar até as tempestades mais sombrias.

Que possamos, então, superar nossos temores, abrir nossos corações e lembrar que o futuro pertence àqueles que têm coragem de incluir, de respeitar e de celebrar o diferente. Afinal, não é preciso temer o que, no fundo, sempre foi nossa maior riqueza.

Marília Martins é professora, produtora cultural, foi membro do Conselho de Políticas Culturais, do Conselho da Condição Feminina e atualmente é vereadora em Franca/SP pelo Psol.

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Comentários

9 Comentários

  • JORGE LUIS MATINS 03/02/2025
    Uma reflexão oportuna e profunda
  • Darsio 26/01/2025
    Por qual motivo os bolsonaristas se calam diante da violência de Trump sobre os brasileiros deportados. Brasileiros acorrentados, algemados e violentados física e mentalmente, onde estão os bolsonaristas para defendê-los? Ainda mais levando-se em consideração que, muitos são eleitores da família bozo. Preferem cheirar a bunda do Trump ou defender os patriotas brasileiros? Vira-latas!!!! respondam!!!!!!
  • Darsio 26/01/2025
    Fica a pergunta: como demonstrar o patriotismo? Segundo os bolsonaristas é entregar as riquezas brasileiras para os EUA, como bem pretendiam fazer com as reservas de nióbio e, como fizeram com a Base de Alcântara. Significa também humilhar e explorar o povo brasileiro segundo os interesses dos EUA. Mas, ser patriota é acima de tudo cheirar a bunda do Trump, mesmo que ele diga várias vezes que o Brasil não tem a mínima importância para os EUA. Afinal, o próprio Bolsonaro disse que Trump o excita tanto que, ele dispensa até mesmo o uso de viagra. E isso é estranho, não pelo homossexualismo na família bolsonaro, para pelo uso do medicamento. Afinal, o Bolsonaro não é imcrochável?
  • Darsio 26/01/2025
    Não deixa de ser hilário que, muitos brasileiros presos e deportados como animais pelo Trump, acorrentados, algemados e agredidos verbal e fisicamente, fizeram campanha e juras de amor pelo alaranjado e, mesmo diante de toda essa humilhação e violência, ainda declaram amor a versão hitleriana estadunidense. Os próprios parlamentares bolsonaristas que, estão curtindo férias nos EUA as nossas custas, também são adorados por esses brasileiros expulsos, violentados e humilhados pelo Trump. E, por que é estranho? Porque esses parlamentares, assim como o Bolsonaro, declararam total apoio a essas medidas do Trump. Sorte desses brasileiros deportados, que o Governo Lula determinou a retirada das algemas e das correntes e, lhes proporcionou um avião da FAB para que então fossem transportados como gente e, não como lixo.
  • Helio P Vissotto 25/01/2025
    Qta incoerência da vereadora! Partir de uma premissa falsa e determinar que o gesto de Elon Musk foi uma réplica de uma saudação nazista, nada mais é do que um perfeito discurso de ódio! Vade retro hipocrisia!
  • Carlos 25/01/2025
    Parabéns Marília. Ótimo texto.
  • Darsio 25/01/2025
    Musk, assim como os donos das demais big techs, se aliaram a Trump para aumentar ainda mais a riqueza que possuem, e o próprio laranja para não ficar de fora, também aproveitou a posse para lançar uma criptomoeda, faturando bilhões de dólares. Juntos, os dez mais ricos possuem uma fortuna maior do que o PIB de cerca de 150 países. E, para aumentar ainda mais a fortuna estão dispostos a tudo e, jamais admitirão qualquer regulamentação de suas redes, entendendo que estão acima das leis dos países e dos interesses nacionais. Mas, o ego entre eles é muito grande e, logo podemos esperar por brigas e muita lavagem de roupa suja. Afinal, se há uma característica importante entre os conservadores extremistas é que eles não toleram uns aos outros. De tão ruins que são buscarão destruir seus adversários. Ou alguém acredita que o laranja aceitará receber ordens do neonazista, MusK?
  • Darsio 25/01/2025
    Musk não é estadunidense e, sim sul-africano. A esposa do alaranjado também não é estadunidense. Ou seja, são dois imigrantes que alimentam o ódio as outras pessoas em situação de migrantes. Musk é militante neonazista e não há a menor dúvida disso, pois se não bastasse propositadamente em público estender a mão tal como Hitler fazia, esse sujeito está apoiando e financiando o partido neonazista na Alemanha. Sinceramente, nada disso me surpreende partindo desse lixo de pessoa, mas me estranha o silêncio das entidades judias no Brasil, assim como das autoridades israelenses. Seria o antissemitismo seletivo? E se fosse o Lula que tivesse imitado Hitler, estariam essas autoridades caladas? Tenho pra mim que a maior ameaça de um terceiro conflito mundial está justamente no crescimento do extremismo de direita, pois é um pensamento que defende e propaga o ódio e a violência contra os que se julgam e se fazem diferentes.
  • Gabiroba 25/01/2025
    Essa luta entre conservadores x progressistas está acabando com a relações e saúde mental de todos. Uns pecam pela cafonice outros pelo excentricidade, uns pela violência outros pela sexualização constante, uns pelo retrocesso outros pelo desrespeito, uns pelo autoritarismo outros também... São duas faces de uma laranja pobre! Onde uns querem armas outros drogas, uns querem família tradicional outros poliamor, uns querem Aurélio outros querem inovar até o português. Estamos cansados, esgotados e seria muito bom que o meio termo também tivesse voz, que a imprensa não tivesse lado, que houvesse respeito mútuo, que não precisassemos de armas e nem de drogas para sermos felizes. Que homens e mulheres pudessem se relacionar com quem quisessem, mas sem sexualizar tudo. Que quem quisesse ir no culto, na igreja ou terreiro fossem sem críticas ou juízo de valores. Depois disso tudo! Eu acordei... Vou tomar meu café!