ARTIGO

Um novo ano começa. E com ele, velhos desafios.

Por Miguel Francisco | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min
Ilustração

É preciso reimaginar Franca.

O ano de 2025 começa carregado de um desafio que não é novo: como podemos avançar quando ainda estamos, de alguma forma, presos aos mesmos dilemas do começo do século?
O bicentenário de Franca nos mostrou um panorama repleto de desafios em várias frentes — política, segurança, economia, entre outras que moldam o nosso cotidiano. As escolhas que fizermos agora não apenas definirão esta década, mas também ecoarão pelos próximos 200 anos, influenciando o futuro que desejamos construir para nossa cidade.

Em tempos em que a falta de perspectivas se tornou quase rotina, é preciso abrir um espaço de diálogo sincero e sem rodeios, buscando soluções práticas, mas também ousadas. Franca tem um passado de grandes conquistas, que nunca deve ser esquecido, mas, ao mesmo tempo, carrega a urgência de olhar para frente com coragem, planejamento e muita ação.

Um ciclo eleitoral previsível

As eleições de 2024, que poderiam ser a chance de uma verdadeira mudança, acabaram apenas reafirmando o que já sabíamos. Apesar de 79,4% dos eleitores expressarem o desejo de renovação (GCN/Ágili), apenas 5 dos 15 vereadores da Câmara Municipal são verdadeiramente novos.

Os motivos para essa quebra de expectativa são bem conhecidos. Um dos maiores obstáculos é a desigualdade no acesso aos recursos eleitorais. Dos R$ 4,96 bilhões do Fundo Eleitoral (FEFC), a maior parte foi destinada a candidatos à reeleição, enquanto novos concorrentes enfrentaram desafios significativos para financiar suas campanhas.

Além disso, 37% das doações privadas vieram dos próprios candidatos, evidenciando o peso do poder econômico nas eleições e tornando ainda mais difícil para candidatos sem recursos próprios ou apoio financeiro significativo competir em igualdade de condições.

Essa concentração de recursos resulta em campanhas mais robustas para os incumbentes, que já possuem visibilidade e redes de apoio estabelecidas, enquanto novos candidatos, por mais qualificados que sejam, enfrentam barreiras quase intransponíveis para se destacar.

Essa falta de renovação vai muito além de nomes novos. Quando os mesmos grupos permanecem no poder, mantêm-se também as mesmas prioridades, que, muitas vezes, estão distantes das necessidades reais da população. O resultado disso é um ciclo vicioso de inércia, no qual os problemas estruturais da cidade nunca são enfrentados de verdade.

Acendam o alerta

Franca, outrora reconhecida como um modelo de segurança, tem enfrentado sinais de alerta preocupantes nos últimos anos. O cenário atual acende o sinal amarelo, com uma tendência de longo prazo que se revela cada vez mais desalentadora.

No ano de 2024, vimos os furtos de veículo crescerem quase 50% em relação ao ano anterior, mesmo crescimento relativo aos estupros no mesmo período (SSP-SP). Crimes contra o patrimônio, contra a vida e contra a dignidade sexual seguem uma trajetória ascendente preocupante, com índices que, em alguns casos, já superam os patamares observados antes da pandemia.

Esse quadro reflete uma série de falhas que se interligam. A Guarda Civil Municipal (GCM) está operando com o menor efetivo dos últimos anos. Os recursos destinados à GCM são insuficientes, fazendo com que os agentes fiquem sem ferramentas para atuar de maneira eficaz. Além disso, a integração entre as diversas forças de segurança da cidade ainda é muito limitada, o que compromete a capacidade de ação coordenada.

O problema vai além da falta de pessoal ou recursos. Enquanto cidades de porte semelhante estão adotando tecnologias de ponta para combater a criminalidade, como câmeras de vigilância, sistemas inteligentes de monitoramento e análise aplicada ao mapa criminal com foco em áreas de reincidência, Franca parece se contentar com meia dúzia de câmeras na região central da cidade. Isso nos coloca em desvantagem e nos impede de oferecer uma resposta rápida e eficiente aos incidentes.

Os impactos desse cenário na qualidade de vida são profundos. Este não é um problema que pode ser ignorado ou tratado de forma superficial.

Reverter esse quadro exige um esforço conjunto e bem planejado. Precisamos investir na modernização da GCM, ampliar seu efetivo, integrar as forças de segurança e adotar tecnologias que permitam um monitoramento mais eficaz.

Uma oportunidade de ouro

A economia de Franca está vivendo um momento crucial. De um lado, o setor calçadista, que colocou franca no cenário internacional, segue com acentuada tendência de queda. As exportações de calçados despencaram 25,3% no primeiro semestre de 2024, caindo para apenas US$ 28 milhões. A alta carga tributária, os custos de produção elevados e a concorrência acirrada com os países asiáticos tornaram nossa indústria menos competitiva.

Por outro lado, o comércio eletrônico tem se mostrado uma força emergente. Franca já é um nome de peso no e-commerce, com empresas inovadoras, uma mão de obra qualificada e soluções logísticas que a colocam na vanguarda do setor. Embora os calçados ainda representem uma grande fatia das vendas online, outros setores, como vestuário, eletrônicos e itens especializados, também têm conquistado seu espaço rapidamente.

No entanto, essa transição não é simples. Muitos setores ainda resistem à inovação, e a falta de políticas públicas que incentivem a modernização dos negócios coloca a cidade em uma situação delicada.

A economia de Franca precisa de uma abordagem equilibrada. Não podemos abrir mão da nossa tradição industrial, mas devemos diversificar e aproveitar as oportunidades que o comércio eletrônico nos oferece. Modernizar o setor calçadista, investir em infraestrutura tecnológica e capacitar profissionais para o mercado digital são passos essenciais para garantir nossa competitividade no futuro.

Franca tem o potencial de ser uma referência no setor digital e não pode ficar presa a paradigmas do passado. Uma grande oportunidade se abre, e cabe a nós abraçá-la com todas as forças.

Basta escolher

Iniciamos aqui alguns dos ensaios para responder os diversos desafios do futuro, porém a estrada é longa. Esses temas são reflexos de problemas mais profundos, que precisam ser enfrentadas com seriedade e determinação.

Estamos em uma encruzilhada histórica, e as decisões que tomarmos agora vão determinar o futuro de nossa cidade.
Este espaço será dedicado a explorar essas questões com honestidade e profundidade. O objetivo é claro: abrir espaço para o diálogo, refletir sobre alternativas e, quem sabe, propor soluções reais.

O ano de 2025 abre uma nova chance. A chance de transformar nossas fragilidades em forças. Agora, cabe a nós, caro leitor, decidirmos se teremos a coragem de olhar para frente ou se continuaremos presos a um passado que já não nos serve mais.

Convido você a fazer parte dessa jornada. Nos veremos novamente em breve.

Miguel Francisco é mecatrônico, coordenador do Movimento Brasil Livre, estudante de Direito na UNESP de Franca e Colunista no portal GCN.

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Comentários

3 Comentários

  • Carlos 08/01/2025
    Miguel sempre muito assertivo , parabéns!
  • Ederson 07/01/2025
    Posso fala, baita colunista
  • Maria Clara 07/01/2025
    Ótima analise. Precisamos olhar para o futuro. Prazer Miguel ????????????????????????