NOSSAS LETRAS

Dai-lhes de comer

Por Sonia Machiavelli | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 5 min

Parte dos cristãos está vivenciando a Quaresma, que começou na quarta-feira de Cinzas e avançará até o domingo de Ramos, que precede o de Páscoa, a maior das festas cristãs. São quarenta dias de jejuns, orações e reflexão sobre a passagem de Cristo pela Terra e sua mensagem aqui deixada há  mais de dois mil anos. Por que quarenta?  Não se sabe de modo preciso o motivo, mas nos textos bíblicos diversos acontecimentos são marcados por este número: o jejum de Jesus no deserto durou quarenta dias; a travessia de Moisés rumo à Terra Prometida levou quarenta anos; o dilúvio ao qual Noé sobreviveu perfez quarenta dias e quarenta noites. Etc.

A Quaresma é um tempo respeitado por fiéis de tradição católica, assim como por devotos da Igreja Ortodoxa, anglicanos e luteranos. No Brasil, o grande número de cristãos evangélicos não a guarda, uma vez que o entendimento na sua tradição é de que jejuns e orações não devem ser cumpridos apenas nos 40 dias que antecedem a Páscoa.

No que diz respeito ao nosso país, como acontece todos os anos no começo da Quaresma, a Campanha da Fraternidade, criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, lança um tema social sobre o qual refletir. Pela terceira vez este tema é a fome, pois números indicam que em 2022 aproximadamente 58% dos brasileiros enfrentaram alguma situação de insegurança alimentar. Isso significa que milhões se alimentaram de forma insuficiente e/ou com comida de baixa qualidade nutritiva. Desse total, 15, 5 %, ou seja, 33 milhões de pessoas, passaram fome em algum momento. Metade desse contingente vive no norte e nordeste do Brasil e se concentra no interior.

Não é a primeira vez que a fome tematiza a Campanha da Fraternidade, que completou 60 anos de existência. A questão mobilizou a CNBB em 1975, na vigência do regime ditatorial imposto ao nosso país por militares desde 1964; e em 1985, quatro anos depois do início da redemocratização. Transcorridos 38 anos, a fome dos pobres volta a incomodar e a indagar as consciências lúcidas, conscientes de que a alimentação é um direito humano a ser assegurado a todas as pessoas. Assim está firmado na nossa Constituição, através da emenda nº 64, de 4 de fevereiro de 2010. Entretanto, as leis são muitas vezes letras mortas, embora isso nunca devesse acontecer. O país está figurando de novo no mapa da fome, e, a bem da verdade, não somos apenas nós, brasileiros, a conviver com essa tragédia. Nos continentes africano e asiático, por conta de guerras, baixa produtividade, concentração da população e desastres naturais, há países onde se morre de fome todos os dias do ano.

Lembrando que o planeta, apesar das agressões sofridas, ainda é capaz de produzir alimentos para toda a população mundial, a pergunta que se faz é por qual motivo milhões ainda passam fome e podem morrer em razão de dietas que não suprem as necessidades do seu organismo. Há poucos anos, discursando na Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, organizada pela FAO, o Papa Francisco respondeu “ser doloroso constatar que a luta contra a fome e a subnutrição” era dificultada “pelas prioridades do mercado e a primazia do lucro”. Estes teriam reduzido os alimentos a uma mercadoria qualquer, sujeita a especulações financeiras. Mas alimentos não são uma mercadoria qualquer. Nunca foram. Eles são essenciais à manutenção da vida.

 No Brasil, a fome acentuou-se diante da pandemia de Covid, do desemprego, do nível de renda. Não há como uma família de três pessoas sustentar-se com um salário mínimo, e ainda que recebendo benefícios sociais. A fome se aloja em geral nas periferias, faz vítimas entre idosos e principalmente crianças que, se escapam, levam sequelas pela  vida a fora, pois não se alimentaram conforme seria necessário em seus primeiros anos. Não podemos fazer vista grossa diante de tal tragédia.

Precisamos olhar para os que sofrem e ajudá-los, de alguma forma. Assim como os apóstolos se apiedaram da multidão faminta e chamaram a atenção de Cristo, saibamos reconhecer essa fome e saciá-la da maneira possível a cada um.  A propósito, se o tema da Campanha da Fraternidade é a fome, o lema é uma frase do Cristo reproduzida por Mateus: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Com ela ele protagonizou o milagre da multiplicação de cinco pães e dois peixinhos em comida suficiente para saciar uma multidão.

Escrevendo sobre a fome no jornal “O Estado de São Paulo”, o arcebispo Dom Odílio Scherer retomou esta passagem evangélica para lembrar que Jesus  não ficou indiferente à fome do povo, nem o mandou embora para suas casas de barriga vazia,  mas “assumiu como próprios a preocupação e o sofrimento da multidão faminta (...)  Ensinou também que a urgência da fome se resolve mediante a partilha, “que precisa ser promovida mediante políticas públicas e iniciativas generosas de cada cidadão para proporcionar trabalho, geração de renda, produção de alimentos,  acesso a eles e o socorro a quem padece de fome.”

Todas essas providências deveriam ter sido tomadas ontem. Porque quem tem fome é como quem tem dor. Tem pressa, não aguenta esperar.

Post Scriptum
1. Já fomos considerados “o país do futuro”, frase cunhada por Stefan Zweig, que se matou em 1942.
2. Hoje somos campeões  da desigualdade social, com  os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.
3. Somos também um dos reis do desperdício de alimentos: 1/3 do que produzimos é levado para o lixo.
4. Depois que a multidão se fartou de pães e peixes, Cristo mandou recolher as sobras e “foram enchidos doze cestos”.

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