NOSSAS LETRAS

The Crown

Por Lúcia Brigagão | Especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Chegou. A quinta temporada do The Crown chegou. Muito bom... Não gosto de séries, fico aflita, mas acompanhar a vida da Rainha Elizabeth, mesmo que através de obra criada pela imaginação, me deu muito prazer.

Nunca duvidei, por trás daquela aparência frágil e delicada, existia a mulher forte, corajosa, determinada, capaz de tomar decisões políticas e sociais complicadas, chamar à atenção homens arrogantes, recuar se entendesse necessário ou depois de receber bronca direta bem fundamentada. Não sei, nem ouso imaginar, que ela fosse à cozinha para preparar mamadeira para algum filho, mas acompanhei suas aparições quando passou carraspança em muitos ministros, presidentes, políticos. Privilégio, passei em Londres alguns dos seus aniversários comemorados nas ruas e nas praças dos bairros. Não consegui vê-la uma vez sequer. Acho que saber que ela existia, não era criação, já me bastava. Entrei no Palácio Buckingham, vi Balmoral de longe, visitei Osborne House - onde fiz xixi sob árvore copada e minha filha quase me matou – afinal era local construído pelo príncipe Albert especialmente para a Rainha Victoria e o Palácio de Windsor, algumas vezes antes e outras depois do incêndio. Não, não tenho a mínima inveja delas. Pelo contrário, admiro-as com todo meu coração...

Agora, pinimba eu tenho é com a Princesa Diana. Nunca entendi aquela mulher. (Ela deve ter morrido triste com isso). Por mais filmes e livros e revistas e reportagens que eu acompanhasse, ela continua sendo mistério para mim. Jamais tirou do rosto aquele ar infeliz. Sempre com a cabeça tombada para o lado, parecia miserável até sob tiaras, joias, pérolas e o amor dos filhos. A impressão que me dá é que queria porque queria ser amada pelo príncipe Charles, mas amor, como estamos cansados de saber, é sentimento que não se compra, não se força, não é imposto ou negociado. E ele amava outra. Muito mais feia – beleza não é tudo; desengonçada; mas balançava o coração dele.

Sofreram boicote: foram afastados e ela obrigada a se casar com outro, quando o príncipe Charles estava incomunicável e inacessível. Os motivos que a levaram a desistir dele não devem ter sido fracos, não. Há muito tempo eu acompanho com inveja a troca de olhares deles... Ah! Meu Deus, se eu um dia fosse amada assim...

Já li sobre os amores secretos e outros escondidos de Diana. Não sei até onde vai a criatividade dos escritores, mas minha memória me leva aos tabloides ingleses onde acompanhava a mídia correndo atrás dela em perseguição acintosa, chata e inconveniente. Até eu, que não era lá muito fã, achava. Até que articulista séria contou que Diana nunca saiu de casa sem avisar à imprensa. Sua assessoria avisava os itinerários que faria e o resultado era aquele tumulto em torno da princesa amada por todos, mas desprezada pelo marido. Um mito reforçando o outro.

Considero The Queen, drama biográfico britânico de 2006, com Helen Mirren, o mais completo e doído relatório sobre os dias que sucederam à morte de Diana, naquele acidente de carro. Elizabeth II e o ministro Toni Blair se engalfinham para chegar a acordo sobre como a família real deve responder publicamente à tragédia. Discutem sobre como ficaria a privacidade da família.

E a demanda pública por externo show de luto, espécie de circo dos horrores? De quebra, a cena que me emocionou: estão isolados no palácio, sem público externo, Elizabeth olha para esplêndida caça abatida e engole seco, sem poder derramar sequer uma lágrima diante da trágica notícia. Ela fica firme, estática, encara seus interlocutores e seu olhar se desvia para o cervo morto. Não derrama uma lágrima. Sente, sua dor é grande, mas íntima.

Reação dessa é só para quem têmpera - aquele processo de tratamento térmico com resfriamento contínuo, com o objetivo de gerar alta dureza e grande resistência aos aços e açoites da vida.

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