Lucila está na janela do seu apartamento e observa o encontro de dois homens. Ela já viu esta cena muitas vezes, quando o único caminho que lhe apresentaram fora a prostituição. É que Lucila nasceu Lúcio, mas não era quem via quando se olhava no espelho. Para ser de fato o que nasceu para ser toda gente luta, nessa vida os que têm coragem se deixam mudar para com muita sorte se revelarem. Foi um longo processo de aceitação e autoafirmação. Mas aqui estamos, com Lucila na janela do seu apartamento observando os dois homens que se aproximam.
Lucila gosta do perfume barato de certos homens brutos e suas mãos cegas, certas e brutas quando depois do banho úmidos em volúpia acreditam ter o mundo girando em torno do umbigo, ela até inveja a certeza bruta deles, é quando cora fingindo purificada por tão bem definida verdade: a da carne dura, a ideia fixa de ter sido melhor se nascida noutra vida quando a cor de sua pele escura seria mais que o desejo desprendido desses inquilinos vampiros do seu nome. Mas lucina nasceu indulgente da brutalidade cega de tais homens, da candura inesperada da fêmea crua, assim exposta na janela seu olhar vaga itinerante "insuportadora", ela é no aberto das feridas o rasgo de estrias abruptas invisíveis, ela é onde dói mais e por isso ergue-se outra da janela em que observa o encontro dos dois homens, Lucila é ainda mais bruta que aquelas mãos cegas úmidas em volúpia.
É Lucila que nos conta o que só ela viu pela janela, não há pressa na pele papel macia do homem mais velho, nem demora na pele seda porcelana fria do rapaz de frete; os dois vivem na solidão e marcaram esse desencontro. A pressa do rapaz é olho de águia na grana, não aprendeu a amar, a demora no olhar do outro é gana, esqueceu-se de como se ama. Seria bonito de ver se o caso fosse outro, de amor entre dois homens, encontro de dois sujeitos numa oração coordenada pelo desejo nato desinibido, simples sobreposição de corpos com sede de hidratação, ou troca de afeto, ou solidão mordida, ou apenas o apetite da fome.
Embora não raro, esse caso é encontro famigerado: os dois foram marcados pela vida e um será o outro amanhã. Sendo a pele o maior órgão do corpo, se compreendida tornar-se-ia e a tudo mais humano, mas a pele também é moeda de troca, papel de grife, embrulho, do perfume o frasco, a pele é perfumaria, mal tocada quebra tanto mais trocada sangra.
Com olhos de águia, Lucila imagina a apele deles serem perfuradas por duros pelos negros de um lado e macios fios loiros do outro, na pele deles chuva de granizo. A pele nunca está pronta: eriçada, é a mais bela flora na epiderme em choque, flor repisada espinho árduo, armadura na braguilha, por fim o acerto é feito: amor abjeto, a obra, coito - vivos beijos mortos de línguas tensas, o silencioso desejo que sobra é texto há muito redigido, abuso, pedido de socorro, lamento, gemido abafado, nada é de fato esquecido e o medo no ápice do orgasmo pede colo e paz de abrigo.
Aplacada a gana, grana gasta, marcas na grama: os dois homens buscam no tempo o que não foram e do amor a quixotesca figura depois do furor os seguem no seu rumo. O amplificado fica não dito se vai junto deles a sombra do medo expiada na memória sob a pele.
Lucila fecha a janela e com ela retornamos para o mundo dos homens que vivem seus dramas no sigilo, escondidos e ameaçados pelo desejo que os persegue.
___
PS.: esse texto em prosa é adaptação de dois poemas do livro Diário dos Miseráveis (Ed. Penalux, 2019) de Baltazar Gonçalves
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.