Deu ruim demonizar a esquerda e considerar “de esquerda” temas de direito fundamental e tutelados pela Constituição Cidadã: empobreceu o debate construtivo e ofendeu democratas e progressistas que não compactuavam com discurso de ódio, nem com o curto senso crítico que investia no medo de que o comunismo se instalaria no Brasil e nos tornaríamos uma “Venezuela”.
Quem disse não existir racismo no Brasil foi logo desmentido pelas manifestações de discriminação e preconceito que as câmeras filmavam e a população negra sofria cotidianamente.
Quem se disse contra a “ideologia de gênero” e insinuava que ela queria se opor à natureza, destruir a noção de família tradicional e legitimar perversões sexuais, deu toda a pinta de que só queria polemizar: não dava ouvidos ao clamor das mulheres diminuídas pela tradição paternalista e massacradas pela violência machista; não respeitava os homens nascidos em corpo de mulher, nem as mulheres nascidas em corpo de homem; não queria enxergar que as orientações da sexualidade responsável nunca couberam na caixinha moralista.
No vale-tudo argumentativo das redes sociais rolavam postagens mentirosas, difamações, injúrias e muita baixaria. Via-se de quase um tudo: alienígenas engajados, notas de 3 reais e médicos negando a ciência.
Mas acredite: naquele tempo havia quem não se deixava levar pelas paixões partidárias e se conservava imune à manipulação ideológica. Havia quem se dizia “de direita” e dialogava civilizadamente com quem se dizia “de esquerda”. Também havia quem se dizia “de esquerda” e dialogava civilizadamente com quem se dizia “de direita”. Havia católicos e evangélicos que se respeitavam mutuamente e respeitavam budistas, candomblecistas, umbandistas etc.
E como eu gostaria de ter sido assim...
José Lourenço é presidente da Academia Francana de Letras.
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