Só depois da paixão consumada podemos olhar para traz e ressignificar a dor. No dia da crucificação, enquanto caminhava de volta para não sei onde perdida sem direção, Maria contemplou os mistérios da vida. Para cada passo lágrimas amargas caiam na terra, dentro de si a trajetória do filho reluzia. Renascer da mansão dos mortos, da agonia dos sentidos desorientados, para que surja uma história nova é sempre urgente.
Quando no crepúsculo arde a última chama do sol, Maria dá as costas para a cruz e volta pelo mesmo caminho, esgotada, queimando por dentro. É como se o sol que se punha no horizonte dentro dela quisesse explodir novo dia. Nesse momento a mãe de Jesus encontra a primeira lágrima derramada seca no chão em forma de conta. No mistério gozoso há uma anunciação do Verbo. Só depois de encontrar a segunda lágrima-conta é que Maria percebe seu desejo de uni-las.
Talvez em sua alma triste, Maria encontrasse serenidade recompondo a narrativa dos fatos e seus mistérios ocultos. O luminoso batismo do filho no rio Jordão, o milagre da água transformada em vinho nas bodas de Caaná. Maria lembrou a transfiguração do filho em luz no monte Thabor e a magia da fraternidade representada na última ceia que fizemos ainda ontem. Relembrar nossa morte na paixão do dia a dia redimensiona a vida. Essas coisas que ainda se conta talvez não façam mais sentido, afinal somos modernos e felizes morando em cidades modernas e felizes sem quintais para brincar e inventar histórias como esta onde Maria refaz o caminho da agonia descendo, descendo, descendo.
Para cada lágrima uma lembrança conta, o coração de Maria exulta pronto para aceitar os mistérios dolorosos: a agonia no Horto das Oliveira, o flagelo, a tortura, a coroa de espinhos, a morte. O semblante endurecido de Maria anuvia relembrando os últimos passos do filho, e ganha a luminosidade da ternura à medida em que ordena essa narrativa enquanto resgata na terra suas lágrimas transfiguradas.
Quando o delírio da descida na dor mais profunda é costura visível, a paixão se torna peça de adorno. Ao chegar em casa, com as lágrimas alinhadas formando peça única, talvez tiara ou pulseira ou coroa, Maria as colocou na cabeça num gesto de pura majestade.
De novo irradiante, essa mulher de carne e osso torna-se rainha dos céus diante dos nossos olhos. E daquele momento até hoje um fio de boa vontade nos une mais humanos irmãos.
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