Feito Bond. James Bond... André Luiz, o terceiro filho de Clara Junqueira e Nicola Maníglia Júnior, nasceu num 28 de maio, alguns anos depois que a Segunda Guerra acabou. Encontrou o planeta destroçado, o mundo dividido, escombros morais, tristeza, depressão, mas também grande esperança nos países e pessoas, desejo de reconstrução e renovação, busca de novos rumos e imensa sede de viver. Encontrou música nova, novos ritmos, artistas sublimes, engenharia ágil, novas filosofias de vida. E ele absorveu tudo isso. Mas transformou nosso mundo particular em um mundo de paz.
Foi em tudo atípico. Era dócil. Meigo, acreditava nas pessoas, via bondade nelas. Certa vez, nossa mãe, no fim do período de gravidez em que o gestava, teve perrengue em casa com nossa segunda irmã, Maria Helena: ela engolira moeda de metal, estava sufocando, mamãe saiu em disparada e subiu as escadarias da Escola Industrial Júlio Cardoso em busca de socorro com médico e/ou dentista que ela sabia que trabalhavam lá. A escola ficava em frente à nossa casa. Sob intensa pressão, desesperada, ao chegar no último dos degraus sofreu mal súbito e despencou. Veio literalmente rolando. Aparentemente nada sofrera, mas o bebê nasceria dias depois com grande bolha de sangue no canto da boca que desapareceria em alguns meses, mas que deixaria sequela: o canto da sua boca sofrera alguma avaria, os nervos da boca atrofiaram, deixando imóvel aquela região. E sem qualquer sensibilidade. André viveria sempre sofrendo bulling de colegas e companheiros. Mesmo de adultos, muitos anos depois. O engraçado é que aceitava o apelido e a denominação de “André Boca Torta”, sem nunca ter se importado com isso. Quem se incomodava era eu, a esquentada. Brigava, revidava, xingava, mas ele, impávido colosso, caminhava em frente. Sempre pra frente. Tenho para mim que a natureza, por vingança, o recompensou, fazendo dele um homem bonito, desses de chamar atenção. Alto e musculoso, atlético, polarizava a atenção da mulherada, coisa que aproveitou de sobejo. Olhos claros, não tão claros quanto os de papai, mas brilhantes, sagazes, que se fechavam quando ele sorria. Bem humorado, adorava música.
Todo sábado me ligava, quer fosse de Ribeirão Preto, quer fosse de Campinas – cidades onde se fixou – tomava meia dúzia de goles, botava cantoras e cantores do rádio serenatando para mim. Chorava, dependendo do grau etílico. Quando se apaixonava, a trilha era outra. Vinha Roberto Carlos, vinha Julio Iglesias, vinha Toots Thielemans, Gilberto Milfont, Nelson Gonçalves, Nat King Cole. Não sei onde pinçava aqueles dinossauros para mim... De todas as músicas, a que me traz ele de volta é o Ritmo da Chuva (Olho para a chuva que não quer cessar, nela vejo meu amor...), com Demetrius, que muito tempo depois foi regravada por Fernanda Takai.
Mais velho, ficou mais bonito. Seus cabelos grisalhos embranqueceram de vez, seus olhos se destacaram, ficou mais charmoso. Numa festa em que estávamos presentes, as mocinhas, que tinham idade para serem filhas dele, filhas dos meus amigos, suas mães e outras convidadas, enlouqueceram... Richard Gere, era o artista com o qual o comparavam. Porém, da mesma forma que ele ignorava o “Boca Torta”, mantinha-se incólume ao assédio que acontecia, muitas vezes sem que ele se desse conta.
28 de Maio marca o dia em que veio ao mundo. Queria que ele soubesse – e minhas companheiras espíritas garantem que certamente saberá – que ele me faz falta. Que eu brigava com ele é de inveja de ele ser tão superior, que seu espírito ignorava o mal que tentavam lhe fazer, atacando-o por causa de um defeito físico do qual não tinha a menor culpa. Queria que soubesse que sinto muita saudade dos nossos bailes, do nosso cigarro escondido, das nossas fugidas de casa para as farras: ele, homem, tinha permissão; eu, mulher, não tinha. Mas íamos juntos: ele me protegia e eu o incentivava. A gente chama isso de cumplicidade.
Um dia a gente se reencontrará. Espero tanto, que quase tenho certeza.
“De que são feitos os dias? De pequenos desejos, vagarosas saudades e silenciosas lembranças.”
Cecília Meirelles
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