Quando Martins feriu de morte Fabiano, vulgo Bim, todos os vizinhos e até pessoas da polícia acharam que Martins tinha feito a coisa certa. Com ferimentos no corpo, o rapaz foi levado para o hospital em estado grave, mas muita gente achou que Bim merecia o castigo e devia ter morrido. Um absurdo.
Mas acontece que Bim era na verdade o terror da vizinhança. Tinha na época quatorze anos, não ia à escola, não trabalhava e além de fumar crack, vivia infernizando a vida das pessoas, inclusive da avó e de outros parentes que moravam por perto. Com essa tenra idade, já tinha estado na Fundação Casa (Febem) por algumas vezes e, como todas as suas ações ainda não passavam de traquinagens e furtos de pequeno valor, sem um crime maior, ficava pelo menos vinte dias na instituição, e voltava para casa.
Com essa identidade, é claro que Martins não gostava de Bim, e como era comerciante na rua em que o adolescente morava, também sofria com as suas importunações. Por isso, quando naquela noite, depois das vinte e duas horas, já com seu comércio fechado, Bim bateu em sua porta, querendo que Martins o atendesse para vender-lhe garrafas vazias, o comerciante ficou irritado e disse que não o atenderia pois tinha passado da hora.
Bim não se convenceu e em altos brados, acompanhado de outro pivete, começou a esmurrar a porta do comerciante dizendo palavras de baixo calão, inclusive ameaçando-o de morte, pois trazia consigo um pedaço de pau.
Martins, tentou ter paciência por algum tempo, esperando que o adolescente fosse vencido pelo cansaço, mas como Bim continuava a esmurrar a porta, pois precisava do dinheiro para comprar crack, o comerciante, em vez de acionar a polícia, que era o certo, resolveu agir por conta própria. Abriu a porta armado de um facão com a intenção de apenas amedrontar os adolescentes, quando percebeu que Bim também tinha um pedaço de pau nas mãos. Não esperou ser atacado, foi para cima do rapaz, e acabou ferindo-o gravemente na região do abdome, tendo Bim desfalecido no local.
No dia seguinte, os noticiários dos jornais trouxeram a estória, cada um a seu modo. E o assunto foi discutido entre pessoas de todas as camadas sociais, e com o aval para o agressor, visto a marginalidade de Bim.
Acontece que Bim deve ter nascido com sua estrela apagada ou sem estrela, pois quem olhasse para o adolescente, não lhe dava mais que dez anos, quando já tinha na época completado quatorze. Desde seu nascimento, conviveu com todas as desgraças possíveis. Com uma família complicada, seu pai era considerado um dos mais temíveis marginais da região. Vivia com sua mãe em constantes brigas e o casal tinha inúmeras passagens pela polícia, sem contar períodos em que seu pai passou atrás das grades.
Numa noite de grande orgia em que a bebida correu solta, iniciaram uma discussão, entraram em luta corporal e a mãe de Bim conseguiu tomar do pai, totalmente embriagado, o revólver que estava apontado para ela. Atirou contra o marido matando-o friamente, na frente do menino que contava apenas cinco anos de idade. A criança ficou traumatizada por muito tempo, ante a brutal cena que presenciou.
Com a mãe presa, Bim perambulou pelas casas dos parentes, vivendo da caridade da avó, que também era pobre; e enquanto ela trabalhava, solto nas ruas, aprendeu a fumar crack.
Quando a mãe saiu da cadeia, Bim voltou para sua companhia. Mas viciado compulsivamente pelo pior entorpecente, não conseguiu frequentar a escola e, então, passou a viver mais na rua do que na casa da mãe, que ante sua vida desregrada, não tinha como impor regras ao filho. Terrivelmente dependente da droga, a fim de adquirir dinheiro para a compra do entorpecente pressionava as pessoas para que lhe comprassem os objetos que ganhava ou furtava, para sustentar seu vício. Naquela noite Martins foi o escolhido.
Bim, depois de receber alta do hospital, com uma ficha de pequenos furtos, foi novamente levado para a Febem, onde não se recuperou. Voltou para a casa da mãe e depois de algum tempo foi executado.
Martins teve melhor sorte, foi julgado pelo tribunal do Júri e absolvido com o aval da sociedade. Afinal ele havia tentado matar apenas um marginal, que na verdade, não passava de um pobre ser humano, sem uma estrela que o guiasse.
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