CRÔNICA

ADVERTÊNCIA - André Bolívar

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 2 min

Eu gostaria de dizer eu escrevo para toda gente de toda idade, mas isso não seria honesto. Eu escrevo para quem já viveu um tanto, e para quem deixará de ser criança um dia. Lancei meu segundo livro em 2021 no pico da pandemia, uma parte de mim temia não estar aqui hoje, qualquer um de nós podia ter morrido de covid-19 e os riscos ainda são reais apesar da vacinação em massa. Mas aqui estamos, o DIÁRIO DOS MISERÁVEIS registra em sua estrutura a poesia dos ligamentos dos nervos dos músculos dos órgãos do sangue da pele do sêmen do suor nos desencontros e reencontros da vida e da morte para festejar novos horizontes possíveis encubados na fé que anima a nossa esperança.

O texto a seguir foi escrito antes da publicação do DIÁRIO por André Bolívar que leu os originais a meu pedido. Grato por ter amigos leitores atentos, compartilho essa ADVETÊNCIA e, na sequência, o poema LAGAR PISADO referido dele que no livro antecede o prefácio (outro presente maravilhoso) que o livro ganhou do fotógrafo e pesquisador das linguagens Delzio Marques.

ADVERTÊNCIA
de André Bolívar

Cuidado! Estas páginas pulsam. Gritam "no fim de mais um turno / eu resta óleo para o mercado". LAGAR PISADO é um dos poemas mais lindos que já li. Está dentre os dez, os cem, os mil? Isso não importa, porque a Poesia é um oceano. Interessa é que ele está aqui, neste livro, no meio de tantos outros poemas.

Contive a vontade de apresentar ou indicar outros textos, pois, para o leitor, o que valerá é a sua própria impressão.  Igual a um bom poema, cada legente é único com suas experiências, preferências, vontades, vida, vontades, procuras, perguntas - essa vontade imensa de viver a vida.

E o que é mesmo a vida? Esse desejo de procurar a felicidade e dar de cara com o Diário dos miseráveis, e quem sabe trocar de rumo, e buscar a mudança das coisas urgentemente, primeiramente.

Se a Poesia é a busca de um rumo significativo, aqui ela está num bom caminho; e finalizada a leitura, como que movidas pelo efeito de um grito, estas páginas vibrarão.

LAGAR PISADO

Todo caminho dá na fábrica
onde os frutos são esmagados,
da massa disforme no jirau exposta
boa parte do líquido que flui é sangue.

No lagar pisei e fui pisado
fui subtraído no ascender inglório
da bagaceira retinta e temo não haver lugar
fora do aparelho quebrado
quando os operários partimos sonolentos em comboio.

Eu descarnado e desnutrido e feliz por quase nada
entrega sua força e deposita no vestiário
os seus sonhos desidratados.

No fim de mais um turno eu resta óleo para o mercado:
sem mais serventia, sem mais valia
bagaço ressequido
pálida poética cor de memória ressacada.

André Bolívar Pinto dos Santos nasceu em Passo Fundo, no planalto médio do Rio Grande do Sul, tem 52 anos, é pai da Bárbara e do Arthur. É poeta, contista, cronista, romancista e letrista. Onde comprar o livro: https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/depois-eu-conta-diario-dos-miseraveis

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