Um amigo que já tem netos me contou história sobre um deles, acontecida durante a representação da Paixão de Cristo, na igreja da pequena cidade mineira onde viviam então. Ao explicar ao menino de 7 anos o sofrimento de Jesus pregado na cruz, e obrigado a beber fel, ouviu a pergunta: “E por que ele volta todo ano?”
Surpreendido pela interrogação natural à lógica da criança, o adulto ficou pensativo por uns segundos, mas encontrou uma resposta que pareceu óbvia até a si mesmo: “Ele volta para a gente não esquecer”.
Precisamos mesmo ser lembrados do que é essencial. Porque a vocação humana para o esquecimento é forte. Como o é a condição de adaptar-se --uma salvação e ao mesmo tempo uma condenação. Se a adaptação, como ensinou Darwin, nos permite não desaparecer, ao mesmo tempo pode nos levar ao olvido do passado.
“A gente se acostuma com tudo; mas não deveria”--disse sabiamente a escritora Marina Colassanti. Precisamos desacostumar de acostumar, porque isso pode nos transformar em seres robotizados, desses que seguem as efemérides religiosas porque interessados apenas nos apelos concretos. No mundo consumista, muito mais no lucro. E viva o mercado.
Então, damos coelhinhos e ovos de chocolate (com brinquedinhos dentro!) a meninos e meninas que acabam deduzindo que esses bichos são ovíparos. Dessalgamos bacalhau, descongelamos salmão, peixes caros, para o almoço na Sexta-Feira Santa. Criamos cardápios especiais de olho no Domingo de Páscoa. Dessa forma, o sentido mais profundo da Paixão e da Páscoa escapa e por vias sensoriais assume sabores doces e refinados.
Chegamos a tal ponto nesse milênio que o fel que impingem a Cristo na cruz parece não ganhar níveis de metáfora para a maioria dos cristãos, ¼ da população do planeta. (No Brasil, o último censo demográfico apontou 64,6% de católicos; 22,2% de protestantes (evangélicos tradicionais, pentecostais e neopentecostais); 8% de espíritas; 7% de outras religiões e ateus.)
Para cristãos de verdade, a substância esverdeada e de gosto amargo, secretada pelo fígado e armazenada na vesícula biliar de todos os seres do reino animal, com exceção das pombas, costuma ensejar reflexões sobre as gotas de fel que vamos bebendo em nossa vida. Doença, desamor, injustiças, desgosto, decepção, ingratidão, empecilhos, desentendimentos, ciladas, nos são oferecidas em doses maiores ou menores quase todos os dias. São feles (sim, esse é o plural).
Como as concretas, que auxiliam na digestão preservando a saúde, as gotas abstratas podem exercer uma função em nosso íntimo, digerindo coisas indigestas, mudando-nos em seres melhores. Viver pra valer é um desafio constante. Às vezes, tudo parece desmoronar à nossa volta. Entretanto, se mantemos a esperança que o Cristianismo trouxe aos homens há mais de dois mil anos, então saberemos que a Vida pode renascer quando lhe damos uma chance.
Assim sinto a Páscoa. Um momento para ser celebrado não apenas em domingo marcado por ovos e coelhos. Mas a qualquer hora onde se tomem decisões cristãs, como perdoar ou pedir perdão. Tentemos viver em paz, não fazendo ao outro o que nos fere também. E antes que o leitor retruque, concordo: não é fácil. Mas, se de fato cristãos, precisamos tentar.
Feliz Páscoa, a você que me lê. Ela é a maior festa da cristandade, e não o Natal. Natal é nascimento; Páscoa é renascimento. No Natal celebramos a Vida. Na Páscoa, a vitória da Vida sobre a Morte.
Nunca precisamos tanto dessa esperança.
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Ps.: A imagem que ilustra este texto é uma pequena obra de arte –um delicado ovo de galinha pintado por ucraniana que reside em Prudentópolis, cidade paranaense que acolhe a maior comunidade de imigrantes da Ucrânia no Brasil.
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