Dédalo era um ateniense com talento para a engenharia. Invejoso, assassinou o aprendiz que se destacava e fugiu com o filho Ícaro para a ilha de Creta. Escondendo seu passado foi acolhido pelo rei Minos, que lhe encomendou a construção de um lugar para encarcerar Minotauro, um ser metade homem metade touro que apavorava os cretenses. Dédalo cumpriu o desejo real, esperando como recompensa ajuda para retornar com Ícaro à terra natal. Mas o rei, ao saber do crime, trancou ambos no mesmo espaço construído para prender o monstro: o labirinto. Dédalo, mesmo conhecendo a saída, não podia escapar, pois a porta estava guardada do lado de fora. Restava-lhe o céu.
Então, com natural habilidade, construiu asas para o filho adolescente, criando um par com estrutura de madeira, nela colando com cera de abelhas penas de aves. Ensinou Ícaro a usá-las, recomendando-lhe que não se aproximasse demasiado do Sol, para que o calor não derretesse a cera; nem chegasse muito perto do mar, para que o vapor não inutilizasse as penas. Porém, quando Ícaro alçou os céus e viu lá do alto as cidades de Cnossos e Creta, deleitou-se com o espetáculo. Querendo ampliar sua visão e aproveitar o sentimento de liberdade, subiu mais e mais, desatento aos gritos de advertência do pai. O calor derreteu a cera desfazendo as asas e Ícaro precipitou-se no mar. Esse episódio da mitologia grega inspirou e continua inspirando muitos artistas que o associam ao implícito desejo humano de liberdade.
O anseio de voar como os pássaros habita a alma dos humanos desde que deixaram de olhar apenas para baixo. E faz bem pouco tempo que voar num artefato mais pesado que o ar tornou-se possível. Dizem uns que os pioneiros foram os Irmãos Wright, norte-americanos da Carolina do Norte. Outros atribuem a façanha ao brasileiro Santos Dumont. O certo é que no início do século 20 vários humanos já se empenhavam na façanha. De lá para cá, a indústria da aviação cresceu de forma impressionante. Em apenas um século as conquistas foram espetaculares. Mesmo assim, apesar de muita tecnologia e bilhões em recursos, não se conseguiu ainda o avião perfeito.
De vez em quando um cai no mar, como Ícaro; ou no chão, como o jato da China Eastern Airlines que despencou há três semanas numa região montanhosa da província de Wuzhou, com 123 passageiros e nove tripulantes a bordo. Câmeras de segurança de indústria local gravaram a queda. Como nunca se havia visto antes, o jato despencou de bico, verticalmente, cobrindo seis quilômetros em dois minutos. É provável que na metade desse tempo os passageiros tenham perdido a consciência. Mas antes disso, num triz, o que terão sentido? É uma indagação que me faço, instigada talvez por uma versão poética de Dédalo e Ícaro que li recentemente.
Acidentes aéreos tornam-se cada vez mais raros. Mas o fato de que acontecem de vez em quando, assusta. Fernando Reinach, que é biólogo, escreveu para o Estadão, antes do desastre, artigo sobre os pássaros que “em sua capacidade de manobrar durante voos curtos, são superiores a qualquer caça militar; e em voos de longa duração, facilmente competem com aviões comerciais”.
Fruto de uma parceria entre engenheiros aeroespaciais, que projetam aviões, e zoólogos, que estudam o voo das aves, um estudo mostrou coisas interessantes, que Reinach traduziu na linguagem coloquial com que seduz os leitores. Contou que pesquisa com 22 espécies indicou que o ângulo do cotovelo, do ombro e do punho das aves varia e essas variações “modificam muito as características aerodinâmicas das asas e, portanto, o comportamento durante o voo.” O mais importante foi descobrir que é especialmente a modificação do ângulo do cotovelo e do punho que permite à ave configurar suas asas para um voo estável, como nos aviões comerciais, ou instável, como nos aviões de caça.
Olhai as aves do céu, leitor. Quando vir urubus em círculos farejando lá do alto animais mortos; gaviões em manobras ultrarrápidas em busca de bichos que transitam inocentes na terra; admiráveis formações de estorninhos, ou (como nos filmes e documentários) grupos de patos em longos voos migratórios, pense que o homem ainda tem muito a aprender com os pássaros sobre a perfeita técnica de voar.
Reconhecer isso é valorizar espécies no mesmo reino onde o humano se sente superior; é reconhecer nossa incompletude, é acionar o sentimento de humildade.
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