Acompanho pela televisão e pelo jornal as chuvas torrenciais que aconteceram nas cidades de Salvador, na Bahia, de Belo Horizonte e outras cidades de Minas Gerais, no interior do Estado de São Paulo -todas trazendo muitos prejuízos materiais, o que não é nada, perto das pessoas que perderam suas preciosas vidas, soterradas nos escombros. Mas o pior foi dias depois, com as chuvas em Petrópolis, cidade do Estado no Rio de Janeiro, e ainda os mesmos prejuízos materiais e perdas de vidas que acabam de sofrer Parati e Angra dos Reis, no mesmo Estado.
As tragédias não podiam ser maiores. Casas foram destruídas e os moradores atingidos pela violência das águas que desciam morro abaixo. Enquanto escrevo, vejo as notícias sobre as vidas perdidas, que foram muitas, além das pessoas que estão desaparecidas, e com certeza mortas no meio dos escombros. Os trabalhos de resgate continuam e a solidariedade e as doações aos necessitados nos comovem.
Atenta aos depoimentos daquelas vítimas, um senhor chorando contava para as pessoas ao seu redor que acabava de saber da morte de seus três filhos nos escombros de sua casa. A moça dizia que levou nove anos para engravidar e ter uma filhinha, e teve a felicidade de tê-la apenas por um ano, vendo a criança morrer nos escombros. Chorei, porque sei o que é a dor da perda de um filho, quando ouvi de uma mãe desesperada pela perda da filha, dizendo ao repórter: “milha filha foi soterrada 50 anos depois que sua avó morreu do mesmo jeito, em outra tragédia como essa.” É tudo muito triste.
Fico pensando, em 50 anos, quantos foram os prefeitos que passaram pelas cidades brasileiras e quantos governadores e até presidentes da República, que pelo jeito nada fizeram, ou fizeram pouco. Essas tragédias acontecem todos os anos, quando as chuvas são intensas, cabendo aos mandantes desse país a obrigação de resolver os problemas de moradias para os pobres, que por falta de apoio e dinheiro moram sempre em lugares de alto risco.
Bem diz o escritor António Prata, em sua crônica, na Folha de São Paulo: “a urbanização de São Paulo e Rio nos últimos 150 anos, foi: tira os pobres daí, joga os pobres para lá, abre um cercadinho VIP onde estavam os pobres. Depois, quando der problema lá com os pobres, a gente culpa os pobres e vê como faz”.
Uma verdade. O pobre, principalmente se for preto ou pardo, mora em vila, favela, comunidade, casebre. Na maioria das vezes, ou sempre, sem saneamento básico, sem asfalto; toma dois, três ônibus para chegar ao trabalho; ganha uma miséria e, quando acontece um desarranjo no país como a pandemia que enfrentamos há dois anos, com o fechamento de muitos postos de trabalho, é ele que perde o emprego e fica nas filas horas para ser atendido nos hospitais. São os pobres que mais morreram com essa terrível Covid-19.
Entra ano, sai ano, vêm as eleições, trocam-se os chefes do governo, muitos voltam para continuar no poder, oferecem mundos e fundos para os trabalhadores, são eleitos, e tudo continua do mesmo jeito. As benfeitorias, se fazem, são para os mais afortunados.
Mas o que mais nos intriga é a falta de humanidade dos políticos. Com toda a devastação que a chuva provocou em várias cidades, pouco se viu de políticos preocupados com as vítimas. Fazem um pequeno discurso e vão embora. As vítimas e seus familiares contam apenas com vizinhos, amigos, os bombeiros e a solidariedade, para ajudá-los nessa empreitada tão triste. O presidente da República, enquanto pessoas morriam nas chuvas torrenciais no sul da Bahia, em férias gozava as delícias das praias, em Santa Catarina.
Como sempre acontece, passa o período das chuvas, tudo volta ao normal, as pessoas continuam morando nas áreas de risco, esperando que Deus as ajude a não ter novas desgraças. As verbas para melhorias em favor do povo para resolver os problemas são desviadas, enquanto o Congresso aprova a “pequena” quantia de 4 bilhões e 900 mil reais, para gastarem nas eleições que estão chegando. É a vida que segue.
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