CRÔNICA

Perfumes

Por Lúcia Brigagão | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Lembranças de infância, via de regra, são doces, gostosas e muito cheirosas.  As minhas têm cheiro, mais gosto e mais quase textura. Praticamente passada na então chamada periferia da cidade, hoje a três quarteirões da Igreja Matriz, numa rua até larga, mas sem calçamento que ia dar no córrego onde engolíamos lambaris, girinos vivos, pois críamos que nos fariam excelentes nadadores. Basta fechar os olhos e, despertadas e embaladas por sons diversos, elas voltam nítidas e materializadas.  Bem em frente à minha casa havia imenso bueiro, cuja serventia só fomos conhecer quando asfaltaram a rua. Até então era a marca divisória, ou ponto final do asfalto que terminava exatamente naquele obstáculo.  Parada obrigatória: o carrinho de rolimã ficava preso na tampa de ferro e a gente continuava de bruços, os mais ousados; de bunda os mais medrosos, pela terra abaixo. Levantava empoeirada, esfolada, doída, sem derramar uma lágrima sequer. Como se nada tivesse acontecido, saíamos mancando, só mentalmente.

Naquele tempo tomávamos dois banhos por dia, quase sempre seguidos. O primeiro era no tanque de lavar roupas, na parte externa da casa, com mangueira de aguar jardim e sabão de pedra feito com cinzas do fogão a lenha, excelentemente asséptico para limpar e desinfetar arranhões, machucados, esfoladuras. Éramos quase sempre esfregados com buchas vegetais, hoje “produto natural” distribuído por farmácias e perfumarias, mas, naqueles tempos, nascidas e criadas na cerca viva do quintal, com direito a sementes pretas que volta e meia entupiam o ralo... Nem doía tanto assim: pior era o mertiolate nas esfoladuras, que vinha depois do segundo banho, agora com sabonete Lifebuoy, na banheira do minúsculo banheiro, já dentro de casa. Pijama, jantar e, sem televisão, mamãe nos lia algumas páginas de livro infantil. E dormíamos, sono pesado dos justos. Por essa época, o cheiro do sabonete causava deliciosa sensação de limpeza, cuidado, carinho e proteção. O Lifebuoy desapareceu, mas seu perfume barato e popular, ainda sinto ao mentalizar as cenas.

Mais tarde, mas ainda naquele bairro, casa ampliada, mamãe teve funcionária que era louca por perfumes e volta e meia ajudava a esvaziar –clandestinamente– as garrafinhas de vidros com essências perfumadas, que ficavam sobre a penteadeira do quarto dela. Tinha Seiva de Alfazema, Promessa, Nueva Maja, Maderas do Oriente, Embrujo de Sevilla, Señorita, Orgya, Joya, Nostalgia e Toque de Amor. Lembram nomes de música do Julio Iglesias. Lembranças fortes.  Fortes, aliás, como era esta última essência, que só de falar nela me arrepio toda. Quem a conheceu saberá a que me refiro... Vinha envasada em embalagem chamada cristal, moderna e avançada para a época. Era da Avon.

A maioria dos perfumes disponíveis na pequena cidade, que era Franca, estava disponível na Farmácia Normal, na Casa Síria, na Casa Hygino.   Quase todos levavam a marca Mirurgya, empresa forte no mercado da perfumaria de então. Os rótulos acompanhavam o conteúdo dos vidros. Os perfumes mais adocicados –dois ou três– mais apropriados para meninas-moças, eram de cor clara, suave, românticos. Os cheiros das senhoras eram fortes, ousados, mais pesados e os rótulos acompanhavam a essência: casais dançando, mulheres de olhar lânguido, dançarinas espanholas e atrevidas, com leque na frente dos olhos. Misteriosas. O rótulo do Maderas do Oriente me dava medo. Achava sombrio, não sei o motivo. Sombra de arranha-céu, mesquita com abóboda no primeiro plano, minarete ampliado, como que protegendo a mesquita. Pelo menos era o que eu via.

A funcionária de mamãe que gostava de andar cheirosa, deixou de herança história engraçada, que se tornou patrimônio de nosso anedotário e motivo pelo qual a perdoamos por todos seus pequenos furtos. Só pela história... Vaidosíssima, usava o perfume à noite dos finais de semana para namorar e, pelo visto, namorava bastante. Na segunda-feira, chegava em casa, ainda rescendendo um fio daquele específico perfume. Aí inventava história que o namorado tal havia lhe presenteado com um perfume igual ao de mamãe chamado “cachetê de buquetê” que, traduzido para o português, significava Cashemere Bouquet. Era como ela lia, era como ela falava.  Um ou outro perfume francês já aparecia por aqui, mas, ou era coisa de rico ou das amigas chiques de mamãe.

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