ARTIGO

Contar até dez

Por Sonia Machiavelli | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 4 min

Alguns escritores antenados com o futuro falavam nos anos 80 da era em que o bater de asas de uma borboleta seria sentido na latitude oposta. Faz, portanto, pouco tempo, em termos históricos, que aportamos à instantaneidade. Ela modificou nossa percepção de mundo e nosso modo de viver.

Vemos mísseis atingindo prédios na Ucrânia. Cantamos junto com os artistas do Lollapalooza. Seguimos com os que protestam contra arbitrariedades e preconceitos. Descemos na cápsula espacial com astronautas russos e norte-americanos em órbita há meses. Participamos de lives com interlocutores que talvez jamais encontraremos fisicamente.

No último domingo tivemos experiência do tipo ao acompanhar a cerimônia do Oscar, indiciada por requintes de luxo e nomes famosos do cinema. A audiência vinha caindo, mesmo antes da pandemia que suspendeu o evento por dois anos. Mas parece que voltará a crescer a partir deste 2022, em especial por conta de algo inconcebível que deixou o público perplexo. O ator Will Smith, incomodado com piada do apresentador Chris Rock sobre a cabeça raspada de sua mulher Jada, literalmente pulou no palco e estapeou o humorista.

Tudo aconteceu em poucos segundos. Mas um minuto depois começaram a chover nas redes sociais tentativas de explicações culturais e psicológicas sobre o tapa mais visto no planeta até hoje. Os internautas falaram de preconceito, racismo, vulnerabilidade, misoginia, feminismo, cultura do cancelamento, normalização da violência na sociedade norte-americana. Etc.

Todas as leituras pareciam possíveis; ao mesmo tempo não havia como eleger a mais plausível. Aquele tapa não era uma agressão comum. Atrás dele fermentavam questões, algumas inquietantes.

Por exemplo, até onde pode ir o humor? Há limites para ele? Seria desculpável a um ator premiado comportar-se como um brucutu? Que motivos profundos o tinham movido?

Sobre o humor, as divergências de opinião dividiram-se entre os que se posicionaram a favor do humorista, pago para fazer seu trabalho, e os que diferenciaram humor de deboche, considerando nesse segundo nicho a piada sobre Jada, que sofre de alopecia. A queda definitiva dos cabelos é problema sério de saúde, especialmente se afeta mulheres. Para os segundos, zombar da atriz foi mais ou menos como provocar o riso diante da pele de alguém acometido por vitiligo, do passo irregular de um manco, da dificuldade de falar de um gago, de qualquer precariedade física que causa muitas vezes dores psíquicas intensas.

A outra questão esteve atrelada à condenação da agressão física numa festa de louvor ao cinema, aos atores, diretores, técnicos, produtores, a todos que buscaram o melhor de sua arte em obras exibidas no último ano. Eles se esforçaram para que homens, mulheres e crianças alçassem voo diante de uma história contada com sensibilidade, capaz de levar ao sonho, algo de que os humanos necessitam para não enrijecer a alma, empedrar o coração, perder a esperança que nos guia em tempos difíceis como os que vivemos neste milênio.

Entre tantas opiniões virtuais, me perguntei se uma piada é capaz de nos desconsertar a ponto que despertar o impulso violento. Pelo visto sim, o que não significa que todo mundo que se sente ofendido responda como o ator. Ele estragou em um instante a noite em que deveria estar pleno apenas de alegria e gratidão por ter sido reconhecido como o melhor entre seus pares.

A cena que rodou o mundo e foi vista por milhões pode servir de lembrete para nós, humanos que carregamos sentimentos contraditórios o tempo todo. No caso de Smith, a raiva prevaleceu sobre a felicidade e nublou seu espírito, movimentando seu corpo de um jeito espantoso na direção do apresentador, em pleno palco.

Psicólogos e psicanalistas também têm se manifestado sobre o assunto e a dualidade que nos caracteriza, um tema caro aos da área. Li uns e outros. Mas na minha cabeça irrompeu mesmo foi um conselho prático que os de minha geração também devem ter ouvido dos pais: “Se ficar com muita raiva, conte até dez antes de tomar uma atitude”.

Contar até dez pode nos impedir de estapear alguém, dizer palavra imperdoável, estragar um bom momento, criar inimigo, sentir remorsos depois, e de coisas muito mais severas das quais me eximo de listar porque são muito dolorosas. Contemos até dez diante do ódio que insiste em pular para fora do recinto animalesco onde se mantém hibernado. Enquanto contamos, inspirando profundamente e expirando devagar, ele pode refluir. Se tivesse feito isso, Will Smith não estaria correndo o risco de perder o Oscar e ser banido da Academia de Cinema. Poderia ter saído por cima, usando o tempo de seu discurso de agradecimento para revidar a ofensa em níveis mais elevados. Palavras bem escolhidas podem ecoar mais que um tapa.

O ser humano está evoluindo muito lentamente. O processo, além de vagaroso, é custoso. Mas um dia esses traços selvagens hão de desaparecer por completo de nossa espécie.

Ainda me mantenho otimista.

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