A dor pela perda de Carlos, marido, pai, sogro, irmão, avô, tio, cunhado recentemente deixou-nos todos profundamente aturdidos. Lancinante, extensa e incurável, difícil determinar sequer onde começa, quanto mais onde acaba, se é que teria fim. Irremediável, porque sem lenitivo: nada acalma ou suaviza. Previsível: afinal nada é eterno. Insensata: “se foi para desmanchar por que é que fez?”, embora seja a única certeza que temos, seres vivos, a partir do momento de nossa criação, ou nascimento.
Carlos, registrado Carlos Alberto, foi sempre grande pessoa. Excelente filho, irmão, parceiro, colega de escola, de Tiro de Guerra, de universidade, na vida social. Calado, não era de grandes discursos e sempre teve postura deveras elegante, ao revidar qualquer ofensa. Diplomático; conciliador; discreto; extremamente educado com as pessoas. Tratável e cego aos brilhos fugazes da vaidade, fazia amigos por onde quer que passasse e mais, amigos de todas as crenças, credos e ideologias. Paciente, sabia esperar o momento certo para agir e evitava ofender, mesmo aqueles que lhe causaram dores e decepções. Sério, embora soubesse rir descontraidamente de boa piada ou situação esdrúxula. Inexperiente no quesito maldade, sabia distinguir os diferentes graus de situações complicadas. E nunca demonstrou medo diante do perigo ou do inusitado.
Foi amado pelos amigos que o chamavam de “Lord Charles”. As mulheres se encantavam com sua elegância e delicadeza. Fosse para a mãe, filha, irmã, noras, netas, cunhadas, sogra e, especialmente para mim, ele abria porta do carro para entrarmos, puxava a cadeira para sentarmos. Jamais atendeu ao telefone enquanto falava com alguém. Um gentleman. Um nobre cavalheiro. Natural que fosse definido pelos amigos mais próximos como “unanimidade”. Desde muito tempo acreditava e praticava o respeito às mulheres. Foi dos primeiros feministas que conheci, convicto e praticante, embora o negasse. Diante da minha impaciência e, por vezes, destemperança, soube me perdoar sempre que preciso. Tinha máximas que ensinou aos filhos, através de exemplos diários. Algumas delas: *Nunca repita o que escutou ou viu de desabonador sobre quem quer que seja, mesmo que possa ter provas do que fala ou tenha presenciado.
- Bata sempre, antes de abrir qualquer porta fechada.
- Jamais vá aonde não foi convidado.
- Não abuse da inocência das pessoas.
- Seja honesto com seu próximo.
- Aprenda a perdoar.
- Trabalhe: o trabalho, por mais simples, dignifica a pessoa.
- E, quando amar alguém, ame sem limites.
Simples, mas isso lhe garantiu a fama de discreto, educado, polido e respeitador.
Vivemos longo relacionamento. Um privilégio, no 3 de julho de 2021 completamos Bodas de Ouro: 50 anos de casados. Noivado e namoro tomaram outros alegres, irreverentes, jovens e irresponsáveis oito anos. E formamos, ao longo da linha do tempo, linda família. Quatro filhos sadios por fora e por dentro: quatro verdadeiros seres humanos. Saíram à mãe na irreverência, na exteriorização fácil de alegria, na facilidade de comunicação com o próximo. Saíram ao pai no firme caráter, na força interior que demonstram nos momentos adversos, na tenacidade e na determinação. Como ele, os filhos aprenderam a perdoar. Hoje, esses filhos estão reproduzidos em seis netos, que enfeitaram e alegraram nossa vida.
Através destas poucas lembranças pinçadas entre tantas situações de nossa vida e diante de tudo que vivemos, reverencio e louvo a vida do meu marido e companheiro que partiu muito cedo, na opinião de todos os que o conheceram. Hoje ele provavelmente já se reencontrou com Lourdes, sua mãe, com Milton, seu pai, com meus pais, com nossos avós e é provável que estejam em festa. De nossa parte, minha e de meus filhos, noras, genro e netos, agradecemos - amigos, companheiros e familiares que acompanharam nossa dor; equipe de enfermagem e funcionários do Hospital São Joaquim de Franca; médicos que cuidaram dele e pessoal da funerária que preparou seu corpo para ir embora deste mundo - toda a força que recebemos e da qual desfrutamos ao longo destes 40 dias, momentos de provação e dor. Agradecemos homenagens, mensagens, flores, o imensurável carinho e acolhimento dos amigos e conhecidos, que aliviaram nossa dor.
Pedimos que o Criador nos dê força, coragem, tolerância para superarmos sua ausência. Paciência, sensatez, confiança e aceitação, além de pureza de caráter, para não blasfemarmos. Compreensão, desapego e generosidade para atravessarmos os tempos de ausência e dor, que certamente virão pela frente. Tolerância, modéstia e maturidade para dizermos, do fundo dos nossos corações, com convicção: “Seja feita Sua vontade, assim na Terra, como no Céu.” Adeus, meu grande homem, meu grande amor. Foi um privilégio conviver com você.
(Texto escrito e lido em 9 de outubro de 2021, durante as exéquias de Carlos Alberto Rosa Brigagão. Publicado somente em 27 de março de 2022.)
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