CRÔNICA

Febre Interlúdio

Por Baltazar Gonçalves | especial para o GCN
| Tempo de leitura: 3 min

Falaram-te que um dia seria da caça, mas todo dia é do caçador. A coisa viver é osso. Escuta a fala mansa; vê o punho serrado, se incomoda e não reclama, engolindo seco o pandemônio, a confusão dos jogos para quem é peça fantoche, marionete no tabuleiro, experimento de uma ficção científica nada realista porque perdemos a noção do que seja realismo e realidade.

O absurdo desconexo faz mais sentido, tomar um copo de prego, usar baratas vivas na gravata e dizer talvez para a noiva no altor, rindo da vida que, no fim das contas, não significada nada, não tem preço e sempre na promoção.

Na farsa da farsa de boteco na esquina, a filosofia se entrega, tudo é mesmo repetição das representações, somos linguagem desde o berço e a maioria de nós continua se sentindo mudo e surdo quanto mais ruído faz. Todo ruído embalado de sensacionalismo tem efeito certo e funciona, a letargia provocada anestesia os sentidos até o limite da loucura, não aquela te leva para o hospício, aquela que te autoriza chamar a mente com ansiolíticos e antidepressivos.

Água limpa só na fonte, existe um lugar onde nada e ninguém te alcança. É dentro de si, mas longe das impressões que se acumulam esgoto, ali é uma camada em que seu ego não está identificado com o fluxo das narrativas que você importa ininterruptamente, um eu profundo soterrado subsiste, é preciso respirar. Ali você pode ser honesto e dizer que o mundo como está não serve. Que é possível voltar ao simples, o simples que funciona. O básico é original.

O ladrão da sua alma não avisa o furto, está no aplicativo de mensagens que parece mais necessário que arroz e feijão. Quem espera a novidade não descansa, o mundo tá velho e é justamente nessa velhice que está o encanto. O tempo todo um grande nada circula velozmente, infiltrando mais vazio na personagem que você cria para lidar com as demandas, o ego inflado infeliz por todo nada que consome esfarela e não vale a pena seguir o barulho.

Outro nome para beijo é ósculo, ósculo bom é beijo dado. Você enxerga, mas não vê porque tem olhar manco. Na semana de podar as plantas há mudança de lua e você percebe que tudo está em movimento, que a vida é movimento, e você se deixa levar porque é bom sentir a rotação da Terra sob os pés. A lâmina afiada colhe a lágrima da planta na hora do corte, a planta não chora como você quando se corta, seiva não é sangue e só pessoas sangram. Cães, gatos e vacas também. Bife de vaca é bom no prato, gato a gente não mata nem come, nem cachorro, hindus consideram vaca bicho sagrado talvez porque na bosta dela nascem cogumelos alucinógenos que abrem a mente para supra-realidade.

Plantas agradecem o corte, aparar o crescimento limita no presente e faz crescer depois. Dedos amputados desaparecem, dinheiro público também desaparece.

Os que temem a criatividade alheia temem perder o poder porque não sabem controlar o que não sabe explicar, então limitam para que não saiamos voando nas asas da palavra que inventamos. O poder instituído teme a criatividade, mas passarinho esperto não faz ninho em roseiras cheias de espinhos. Cérebro de cachorro é iguaria na China para chineses. A roseira floresce na dor que não sente, também o leitor e o poeta se o verbo exuberante não for um exagero comum.

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