Vejo no YouTube cena incomum: a reação de um bebê de seis meses que nasceu surdo e vai ouvir pela primeira vez a voz humana. Vem o médico, coloca o aparelho com extrema delicadeza, mas a criança estranha, se irrita, leva a mãozinha à orelha e chora. A mãe a acalma com carinho, ajeitando-a no colo. E assim, aos poucos, o especialista consegue introduzir o minúsculo microfone nos ouvidos do pequeno paciente. Ao lado, o pai mal contém a ansiedade. A câmera acompanha tudo e se fixa no rosto do menino quando o médico diz que a bateria está conectada. Impossível conter minha emoção, até parece que conheço o pequeno. Mas algo nos liga e eu acompanho as sutis mudanças no seu semblante quando a mãe lhe diz: “Você está ouvindo?” O pai repete: “Você está ouvindo a minha voz?” Primeiro o bebê demonstra surpresa. Depois, sorri. A mãe continua falando: “Essa é a voz da mamãe, Henry!” O espanto aparece associado a um sorriso mais amplo na face infantil. Em seguida, ao ouvir de novo a mãe, um sentimento pungente se espraia pelo rostinho. É nítido o impacto de quem está conhecendo a voz humana. Entre duas lagriminhas que tremulam mas não caem, o menino escuta a mãe: “Você está emocionado, Henry! Isso é emoção!” Foi um dos momentos mais bonitos que a Internet me proporcionou nos últimos tempos. Talvez porque, tendo uma deficiência auditiva, eu conheça a falta que faz um ouvido perfeito e admire os avanços nessa área da medicina, associados à tecnologia de ponta.
Ouvir é essencial para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de uma criança. Cabe a quem cuida descobrir o quanto antes se o bebê ouve bem, mal ou se, simplesmente, não ouve. Hoje, até para o caso de surdez profunda há algum recurso. Tudo deve ser tentado, porque viver no mundo do silêncio, diante da riqueza de sons que nos cercam, é condenar um ser humano a um tipo de falta que poderia ser sanada. É pelo ouvido que nos chega a voz de nossa mãe, a primeira que aprendemos a identificar nas canções de ninar com que nos embala, e mesmo antes de nascer, ainda no útero. Depois a paterna, reconhecida com certeza por oposição à materna. Vêm as vozes dos irmãos, dos avós. O assovio do tio brincalhão. A gargalhada do primo mais velho. Vêm os ruídos da casa: porta que abre ou fecha, água que escorre da torneira, celular que toca, brinquedos que fazem barulho, papel amassado entre mãos, talheres que tilintam, pratos que quebram. Algumas trilhas sonoras de desenhos animados podem hipnotizar em associação às imagens e permanecerão na memória talvez para sempre. O estouro de um pneu na rua ou o barulho do trovão costumam aterrorizar. Mas o latido do cachorrinho de estimação é música para os ouvidos. Nosso par de órgãos para a audição é extraordinários. Pode captar cerca de 400 mil sons; imaginam o que é isso? Talvez só os músicos consigam avaliar. E os poetas capazes de ouvir estrelas, como Bilac.
Enquanto escrevo vêm à minha mente lições aprendidas no lar e na escola onde o livro já tinha substituído a cartilha. Numa das primeiras páginas encontrávamos uma quadrinha. A forma esqueci, mas a mensagem permanece na memória. Nas rimas singelas, os versos nos lembravam de ter apenas uma boca para falar mas dois ouvidos para ouvir. A professora maternal discorria por bom tempo sobre o tema, tocando nossos corações puros. Não sei hoje se ela então saberia que Sêneca já havia dito que os deuses dotaram os homens de única boca mas dois ouvidos para que ouvissem o dobro do que falavam. Em todos os idiomas há provérbios assemelhados e vem dos chineses um muito conhecido: “A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”. Viver me ensinou que ouvir vale mais que ouro. De ouvir não nos arrependemos. De falar, às vezes sim.
Dos órgãos do sentido, é a audição que primeiro abre as portas ao nosso diálogo com o mundo, nos conectando com outros humanos. Mas ouvir não é apenas captar signos inteligíveis. Em muitos humanos “as palavras entram por um ouvido e saem por outro”. Isso é apenas escutar. Ouvir verdadeiramente é dar um passo além do som. É atentar para o que o outro pretende nos comunicar. Isso exige algum grau de generosidade. Se o temos, seremos capazes de ouvir em profundidade, compreendendo as emoções e necessidades de quem fala. Ouvir também está na base do sentimento de empatia que nos leva a sentir a dor do outro. Por isso acho que a capacidade de ouvir pode nos levar a constantes expansões da mente e do coração. Não sugeriu por acaso o saudoso Rubem Alves que é pelo ouvido que engravidamos de beleza, alçamos entendimentos, acrescemos mais tijolos à nossa construção interna?
Ouvir o zunir do vento. O ribombo dos trovões. O açoite dos relâmpagos. O barulho intermitente da chuva caindo no telhado. O rumor do mar. O trinado dos pássaros. O galope dos cavalos. O clamor de animais perseguidos. O grito das árvores feridas. O balbucio de um bebê. Uma risada inocente. O choro de quem sofre. Um pedido de socorro. As notas de uma peça musical. Os versos de um poema declamado. Todas as palavras que nos movem. As demandas que nos chegam. Ouvir sempre a voz do próprio coração.
Ouvir é uma ponte para a conexão com o outro, o nosso interior, o planeta, talvez até com o universo. Ouvir é um milagre.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.