Durante anos, Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues foi conhecia como Luizinha, a sobrinha de Luiza e Pelegrino Donato Trajano, uma menina com tino para o comércio que fazia de tudo no então pequeno Magazine Luiza. Ainda como Luizinha, conquistou respeito e luz própria ao liderar o crescimento da rede de lojas com uma fórmula que é a cara das Luizas – a tia e a sobrinha. Hoje, o país a conhece como Luiza Helena, a mulher que forjou um império e fez do Magazine Luiza uma das maiores empresas do país. Mas não foi só no Magazine que a chama de Luizinha brilhou. À frente do Mulheres do Brasil, uma entidade que reúne 23 mil mulheres focadas na discussão de políticas que possam fazer o país avançar, Luizinha, como ainda é chamada por todos que a conhecem de Franca, segue no ritmo intenso que a caracteriza. Dá expediente no Magazine, coordena o Mulheres do Brasil e corre o mundo com suas palestras e conferências que inspiram mulheres – e também homens – nas suas vidas e carreiras. Se alguém acha que atingir o topo dá à Luiza Helena a sensação de “missão cumprida”, pode rever seus conceitos. Aposentadoria não faz parte de seu vocabulário. “Sempre estarei fazendo acontecer”, garante a empresária, que gosta de repetir que prefere ser feliz a ter razão, bordão que usa para criticar a disputa interminável de argumentos que muitas vezes não leva a lugar nenhum. Luizinha é assim - não para, nunca.
A senhora se transformou, ao longo das últimas décadas, num símbolo e inspiração para milhares de mulheres que sonham em construir uma carreira vitoriosa. Fez isso sem deixar de se casar, ter filhos, constituir família. Conciliar a vida pessoal e profissional foi um grande desafio?
Sempre consegui fazer tudo, e conciliar a vida pessoal com a profissional foi algo natural. Está certo que morar em Franca durante a adolescência e a infância dos meus filhos e me cercar de pessoas boas sempre ajudou muito, mas sempre levei o conselho de minha mãe, que dizia que eu não deveria ter culpa na criação dos filhos, e é o que aconselho também a toda mulher.
A senhora transformou uma pequena rede de varejo do interior numa gigante nacional. Suas ideias inspiram estudos e análises em universidades de outros países. O Magazine é, de longe, a maior empresa nascida em Franca. Há algum sonho profissional que ainda não realizou?
Nunca trabalhamos com um objetivo profissional de sermos a maior ou estabelecermos planos de tamanho, mas sim de gerar empregos e atender bem os clientes. Consequentemente, as coisas foram acontecendo, com planejamento e inovações que marcaram o varejo. Acredito que para qualquer empresa estar bem o país precisa estar bem, por isso espero realizar diversos sonhos em trabalhos que façam bem para o Brasil, como os estabelecidos em diversos comitês do Mulheres do Brasil, como educação, saúde, igualdade racial e muitos outros que devem contribuir para um país melhor.
O ambiente que a senhora teve que desbravar para forjar o Magazine Luiza sempre foi muito machista. Os principais competidores do ML sempre foram liderados por homens. Em algum momento, sentiu preconceito?
Antigamente, não só o varejo era liderado por homens, mas todos os mercados. Eu nunca deixei me tomar pelo preconceito nem mudar minha forma de gestão feminina para enfrentar essa realidade. Ainda existem muitos ambientes machistas e quase exclusivamente liderados por homens, mas este cenário está mudando até por inteligência das empresas, já que as características das mulheres estão muito mais de acordo com os novos modelos de administração.
Nos últimos anos, a senhora tem liderado o movimento Mulheres do Brasil. Como nasceu a ideia? A senhora se lembra da primeira reunião? Aonde pretende chegar com o grupo? A política partidária pode ser um destino para o Mulheres do Brasil?
Nasceu organicamente após uma reunião de mulheres de todos os níveis e segmentos realizada em Brasília que pretendiam discutir o Brasil. E percebemos que poderíamos e deveríamos fazer mais do que uma reunião, mas agir. Estamos com mais de 23 mil mulheres que, sem inventar a roda, estão atuando e conectando tudo que temos de bom no Brasil, e tem muita coisa. Queremos ser o maior partido político apartidário do Brasil, e, desta forma, influenciar fortemente as políticas públicas.
A senhora já foi cogitada para ocupar ministério, e muitos acham inevitável que dispute um cargo eletivo num futuro qualquer. A senhora já disse algumas vezes que acha importante participar da política, mas não se vê integrando um governo. A senhora descarta mesmo a participação de forma mais direto numa disputa eleitoral?
Acho muito importante a participação política, a pressão popular e a influência de grupos e setores, como o Mulheres do Brasil, na atividade política democrática em nosso país, isso é essencial para a melhoria da vida de todos. Eu, particularmente, nunca quis disputar um cargo eletivo. Vejo minhas atuais atividades como contribuição sem precisar participar de disputa eleitoral.
Como é sua rotina de trabalho? Atualmente quantas horas a senhora trabalha por dia? É verdade que dorme pouco e está sempre conectada?
O varejo não tem rotina, e minha posição atual no Magazine Luiza, que é de Presidente do Conselho, me permite despachar todo dia na empresa e cuidar das minhas outras atividades, como Conselhos, palestras e o Mulheres do Brasil. Gosto muito de estar conectada e acompanho tudo, e realmente me ajuda o fato de as poucas horas de sono me satisfazerem.
Como a senhora se vê daqui a dez anos? Onde Luiza Helena vai estar em 2030?
Espero que em um Brasil muito melhor, mas não fico pensando em coisas a longo prazo. Como disse São Francisco de Assis, preocupo-me com o seguinte: “comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível”. Sempre estarei fazendo acontecer.
Se a senhora pudesse dar apenas um conselho para uma garota de 15, 16 anos que sonha em construir uma carreira e ser independente, que conselho seria esse? O que ela não poderia deixar de fazer de forma nenhuma?
Toda garota tem o direito de construir sua carreira e ser independente, e isso está acontecendo cada vez mais com essa geração, que não quer mais trabalhar somente por dinheiro, tem que ter um propósito envolvido, e isso é muito bom. Elas não devem perder sua essência de forma alguma e devem descobrir um propósito de vida que a motivam e persegui-lo de forma intensa.
A senhora sempre diz que não quer estar certa, que quer ser feliz. Mas para construir o ML, a senhora certamente acertou muito mais do que errou. Em retrospecto, a senhora diria que ao longo da vida esteve mais certa ou foi mais feliz?
Não tenho problema algum em errar, é uma forma de aprendizagem. O que não suporto é errar a mesma coisa duas vezes. Às vezes não queremos agir por medo de errar. A questão de ser feliz não está ligada simplesmente ao erro ou acerto, e sim com assuntos ou discussões que têm somente o objetivo de a pessoa ter razão. Sempre pergunto em minhas palestras se você quer ser feliz ou ter razão. Eu prefiro sempre ser feliz.
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