Tinha nove anos quando ganhei meu primeiro videogame, um Odissey, e me lembro como se fosse hoje da emoção e do prazer de jogar Senhor das Trevas. Os “gráficos” não passavam de uns triângulos, bolas e discos que faziam as vezes de naves e armas laser. Desde então, pude acompanhar de perto a fantástica evolução de computadores, celulares, tablets. Sigo fã de tecnologia e adoro um gadget.
Nunca pensei que esses dispositivos pudessem fazer mal. Nem que um dos meus filhos acabaria se transformando em “vítima”. A primogênita escapou ilesa. Aos 19 anos, não corre mais riscos. O mesmo não dá para dizer do caçula.
João, prestes a completar 8 anos, é tecnodependente desde antes de se alfabetizar. Aprendeu a manusear tablets e celulares enquanto deixava as fraldas. Antes que os dedinhos soubessem como segurar um lápis, já estavam ágeis na arte de deslizar telas e clicar ícones. Aos cinco, tinha seu próprio dispositivo, que usava para desenhar e jogar. De repente, quis ter sua própria conta nas redes sociais (o que jamais permitimos) e pediu um celular para chamar de seu (nem pensar). Seus heróis são youtubers. Ainda que tuteladas, as telas são onipresentes na vida desta geração.
É uma conexão tão profunda que, diante de um tablet ou celular, meninos e meninas parecem estar em transe. Não ouvem chamados, não percebem a aproximação de ninguém, não querem conversar fora do ambiente virtual. Tentamos limitar o tempo de uso e o tipo de conteúdo, mas é um desafio controlar.
Preocupado, me debrucei sobre um monte de estudos acerca do impacto da tecnologia nas crianças de hoje. Grande parte aponta para uma relação direta entre o uso dos dispositivos e uma série de distúrbios — de dificuldade de atenção e agressividade a prejuízos para visão. Pelo menos um, feito por um certo Andrew Pryzbylski, da Universidade de Oxford, vai no sentido contrário e garante que o uso destes aparelhos, desde que com “alguma” moderação, faz é bem.
Na última semana, depois de mais um episódio de falta de educação explícita, com direito a ignorar completamente meus chamados até que não aguentasse mais dizer “Joooããããooooo”, resolvi declarar guerra. Admito que o primeiro ímpeto foi quebrar o tablet, inspirado num vídeo que mostra a revolta de um avô diante da birra do neto. Calmamente, o avô encerra a discussão atirando o aparelho na churrasqueira e o controle na piscina (https://youtu.be/ZIJ2sbThsbk). É impagável. Ainda assim, acabei concluindo que seria mais educativo — e barato — banir o dispositivo. Por um ano.
Coincidência ou não, na manhã seguinte meu menino doce estava de volta, com direito a “te amo infinito, papai”. Ressurgiu acompanhado de uma surpreendente autocrítica. “Acho que é melhor assim. Não sei o que me dá que não consigo parar, papai”. Pode até ser que o Dr. Pryzbylski tenha razão, mas achar a “moderação” adequada é tarefa inglória. Na dúvida, João fica sem tablet, com exceção do período de férias. Será assim, pelo menos, até 2019. Se não funcionar, prevejo o tablet fazendo uma visita a uma churrasqueira. Acesa.
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