O casamento


| Tempo de leitura: 4 min
Não tem jeito. Há determinados assuntos que, pelas mais diversas razões, sempre despertam grande interesse e muitos comentários. O casamento é um deles. Pode ser entre dois anônimos numa pequena cidade do interior ou com pompa e circunstância nos festejos de duas celebridades numa grande capital, nunca falta o que falar quando o assunto é a cerimônia de casamento. 
 
Se as bodas acontecem numa família real, com sua mítica que remete aos contos de fada e aos mais ternos sonhos infantis, a proporção do interesse multiplica-se exponencialmente. Quando o príncipe vai se unir a uma plebeia que, ainda por cima, é uma atriz que foge do cânone branca-nascida-rica-em-berço-de-ouro, o nível de atenção e curiosidade ganha escala global. Foi exatamente o que aconteceu com a cerimônia de casamento entre o príncipe Harry e a atriz Meghan Markle.
 
Não há aqui qualquer exagero. Ainda que o dólar em disparada assuste; que a queda de um avião em Cuba tenha deixado 100 mortos; que a imprevisibilidade de Kim Jong Il ameace a cúpula prevista com o insano Donald Trump; que José Dirceu tenha voltado para a cadeia; ou que a temperatura tenha despencado para menos de 10 graus em Franca, o fato é que nada disso, independente da sua relevância, se compara em interesse público ao clamor despertado pelo casamento real de Harry e Meghan. 
 
Bastava dar uma rápida olhada nos rankings das matérias “mais lidas” dos portais de notícias do Brasil e do mundo neste sábado para comprovar o que o volume de matérias publicadas desde a véspera já permitia intuir: todo mundo queria mesmo era saber do casamento, dos vestidos, da carruagem, da rainha, das comidas, dos amigos famosos e, mais especialmente, da noiva. 
 
O casamento tal qual conhecemos hoje, como a união entre duas pessoas que, por vontade própria, decidem partilhar a vida, os sonhos, os projetos, é uma “novidade” em termos históricos. Tem uns dois séculos, no máximo. Obviamente, o conceito de duas pessoas se unirem num casamento é mais antigo. Mas era um arranjo, uma composição de interesses, um negócio onde a opinião dos noivos pouco – ou nada – importava. Símbolo maior destes tempos era o pagamento do “dote”, o valor desembolsado pela família da noiva em favor da família do noivo. Parece estranho ou distante? Ainda que em desuso, a tradição da família da noiva pagar a festa é costume remanescente destes tempos.
 
Instituição conservadora por definição, a monarquia resistiu o quanto pode ao direito de escolha. Não que, desde o inicio do século XX, o noivo/noiva sejam diretamente determinados pelo rei/rainha, mas as restrições reservadas àqueles que seriam admitidos nas famílias reais eram tão grandes que, na prática, a escolha do consorte só podia ser feita entre uns poucos pretendentes possíveis. A união de um monarca com alguém do povo era coisa de... conto de fadas.
 
Há menos de 100 anos, na mesma Inglaterra, o rei Eduardo VIII perdeu o trono por desafiar esta premissa. Eduardo havia assumido a coroa em janeiro de 1936. Tinha 42 anos. Poucos meses depois de ter se tornado soberano do Reino Unido, de toda a Commonwealth (o que incluía Austrália, Canadá e mais uns 50 países em todos os continentes) e acumular ainda o titulo de imperador da Índia, Eduardo resolveu anunciar ao mundo sua paixão e, muito mais relevante, seu desejo de se casar com uma mulher, para a época, impossível. Sua amada era Wallis Simpson, uma socialite americana (portanto, estrangeira) que não tinha uma gota de sangue real em suas veias. Para deixar tudo mais complicado, Wallis tinha se divorciado do primeiro marido e estava em vias de se divorciar do segundo, o que era inaceitável para a Lei do Sucessão do Trono Inglês. Pressionado e apaixonado, Eduardo preferiu o amor à coroa. Abdicou do trono em favor de seu irmão, Jorge VI, e foi “condenado” a viver na França. Ironia do destino, é apenas por esta razão que Elizabeth, filha de Jorge, se tornou rainha da Inglaterra. E seus descendentes – Charles, William e Harry, herdeiros do trono, ainda que a chance de Harry se tornar rei e Meghan, rainha, seja parecida com a minha de visitar a Lua.
 
O que quer que seja que o destino nos reserve, o fato é que neste sábado, 19 de maio, Harry casou-se com Meghan Markle. São, a partir de agora, Duque e Duquesa de Sussex. Meghan, três anos mais velha que Harry, negra, divorciada (sim, foi casada por três anos), estrangeira, atriz, plebeia, tornou-se princesa da Inglaterra. Entrou na Igreja sozinha (o pai, alegando problemas com uma cirurgia, não apareceu na cerimônia), foi levada ao altar por Charles, a quem deu a mão apenas nos passos finais, e prometeu diante do reverendo anglicano “amar” e “cuidar” do seu marido, mas recusou-se a dizer que vai “obedecê-lo”, como recomendava a cartilha real. 
 
Teve que abrir mão de algumas coisas. Nada de contas nas redes sociais, onde acumulava milhões de fãs; nada de emitir opiniões públicas sobre qualquer assunto controverso, especialmente política; nada de votar; nada da carreira de atriz, que teve que abandonar. São renúncias, algumas pequenas, outras significativas, mas ainda assim nada comparáveis àquelas impostas ao tio-avô de seu agora marido, que teve que abrir mão de tudo para exercer o simples direito de ficar ao lado da mulher que amava. Sinal dos tempos. Um lindo e excelente sinal. 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários