A arte de viajar


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Dizem que pequenas viagens são uma excelente forma de higienizar a alma da gente. Descomplicadas, baratas, sem planejamento estressante, elas nos pedem um meio dia de atenção e um pouco de combustível. Em troca, nos dão a quebra da rotina. As pequenas viagens por cidades vizinhas é um hábito que não cultivamos, e nossa justificativa é a de que não vale a pena, sobretudo gastronomicamente. Não é o caso de se discutir o mérito, é o caso de reconhecermos que se não levarmos nosso dinheiro e disposição aos vizinhos, eles não melhorarão; é o caso de aceitarmos o possível, na esperança de dias melhores. 
 
Mas que desculpa dar quando temos perto a Excelência? Numa cidade que parece servir apenas do parâmetro “ainda falta muito” ou “estamos quase chegando” - é o que se pensa quando passamos por Brodowski, vai depender se estamos indo ou voltando de uma grande viagem. Pois bem, o Museu Casa de Portinari foi reinaugurado em 2016 e está encantador. Para visitá-lo, reserve um pouco mais de meio dia, aceite o ritmo de um debruçar de janela para ver a praça. As obras do pintor não são muitas, nada com a grandiloquência de um Retirantes ou Mestiço, mas, seguramente, consegue-se entrar na domesticidade do pintor. Supor o amor pela avó, cuja debilidade convocou Portinari a construir uma bela capela dentro da própria casa. Ver rabiscos e desenhos espalhados pelas paredes, afrescos simples, outros mais elaborados. Conhecer as técnicas e os estilos variados do pintor, frutos de uma vida artística profícua e amorosa. E ouvir a belíssima interpretação de Lima Duarte de uma compilação de textos de Portinari - faz-nos íntimos dele, não somos mais convidados.  
 
Na iluminada cozinha, há uma receita de um dos seus pratos preferidos: a polenta italiana, que se pode dizer brasileira também. Apreciei a receita porque a proporção de 1 parte de fubá para 4 partes de água (ou mais) sempre me pareceu a correta, porque permite o cozimento lento e a perfeita hidratação dos grãos de fubá, que devem cair em chuva na água salgada em fervura branda. O processo pode durar 20 minutos em que não desgrudamos o olho da lava amarela borbulhante, que irá ou não nos queimar. Desligado o fogo, acrescenta-se manteiga sem sal de ótima qualidade e parmesão ralado ou gorgonzola aos pedaços, despeja-se numa forma e, quando esfriar, molho de tomate ou pesto ou os dois juntos.
 
É sempre um ótimo prato, quente e caloroso, revelador da formação - nossa e do artista.

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