Franca, domingo, 24 de setembro. Núbia Ribeiro, uma bonita comerciante de 21 anos, recebe mensagens no seu Facebook enviadas por Leonardo Cantieri, um mecânico de 20 anos com quem havia tido um breve relacionamento meses antes. O sujeito vivia agora com Lauany Viodres, uma estudante de Direito, 20 anos, com quem dividia apartamento no Parque das Esmeraldas. Desde a véspera, Leonardo insistia num encontro com Núbia.
No início da noite daquele domingo, Núbia passou na casa de uma amiga e de um amigo. Pretendiam ir a um pub, mas desistiram de entrar. Núbia convidou então os amigos para comer um lanche. Ninguém quis. Levou cada um deles de volta para casa. Sozinha, comprou um hambúrguer no McDonald’s da avenida Major Nicácio. Aquela seria sua última refeição.
Às 21h40, Núbia retornou a ligação de Leonardo e combinaram de se ver. O ponto de encontro foi marcado na rua Francisco Marques. Eram 22h10. De lá, Núbia o seguiu no seu carro até o apartamento do Parque das Esmeraldas. Deixou o Honda Civic, carro da sua mãe, na garagem do apartamento. Saiu com Leonardo no Gol branco dele.
A partir daí, supõe-se que eles rumaram para um matagal perto da usina Ceval, em Patrocínio Paulista, onde teriam encontrado Lauany. Foi provavelmente ela quem deu duas facadas no rosto de Núbia, mas os ferimentos foram superficiais. Pegaram então um outro objeto — desconfia-se de que tenha sido a chave de rodas do Gol — e desferiram uma violenta pancada na cabeça de Núbia. Depois, atearam fogo à vítima. Um certo Ítalo, notório vagabundo e traficante, ajudou no crime — não se sabe ainda se no assassinato, na desova do corpo, dos carros ou em tudo. O casal de assassinos fugiu para a cidade de Itaú de Minas, onde se escondeu por quatro dias. O corpo de Núbia, carbonizado, foi encontrado na manhã de terça-feira, debaixo de alguns bambus.
Las Vegas, domingo, 1º. de outubro. Stephen Paddock, 64 anos, era um auditor aposentado do governo federal americano. Morador de Mesquite, cidade próxima da borda leste do Grand Canyon, Paddock tinha uma vida tranquila, com patrimônio superior a US$ 2 milhões (R$ 6,5 milhões). Duas vezes divorciado e sem filhos, tinha feito mais de 20 cruzeiros para destinos como Espanha, Itália, Grécia, Jordânia e Emirados Árabes. Frequentador dos cassinos de Las Vegas, Paddock estava instalado desde a quinta-feira numa suíte com vista para a Strip, a avenida principal, no 32º andar do hotel Mandalay Bay.
Exatamente às 22h05, Paddock mirou a multidão de 22 mil pessoas que se reunia na rua num festival de música country. Começou a atirar. Durante dez minutos, usou 23 rifles, metade deles adaptados para funcionar como armas automáticas, para alvejar a multidão. Matou 58 pessoas, feriu outras 489. Dez minutos depois, acuado pela polícia, se matou.
Stephen Paddock não deixou carta, bilhete, e-mail. Não era filiado a nenhum partido político, não era adepto de nenhuma seita religiosa extremista nem participou de qualquer grupo que advogasse uma causa específica.
Janaúba, quinta-feira, 5 de outubro. A manhã deveria marcar o início das comemorações do Dia das Crianças na creche Gente Inocente, que atende 60 meninos e meninas na cidade de 70 mil habitantes do norte de Minas Gerais. Eram 9h30 quando Damião Soares, 50 anos, servidor público municipal que atuava como vigia noturno na creche e vendedor de picolés nas horas vagas, bateu no portão. Com férias acumuladas, estava ausente há três meses, descansando. Apesar disso, avisou que queria explicar para a diretora que não tinha condições de voltar ao trabalho. Damião tinha chegado a iniciar um tratamento psiquiátrico em 2014 — aparentemente, sofria de síndrome persecutória — mas abandonou depois da primeira sessão. Não tinha registro de qualquer problema na sua ficha funcional. Era um sujeito pacato.
Aberto o portão, Damião rumou para a área de recreação. Chamou as crianças, dizendo que iria distribuir picolés. De dentro do isopor, tirou um líquido inflamável e começou a jogar nos meninos e meninas, com idades entre 3 e 7 anos. Jogou também o líquido sobre si mesmo e ateou fogo. Com o corpo em chamas, abraçou quantas conseguiu. Damião matou oito crianças, uma professora, Heley Batista, e a si mesmo. Deixou ainda 41 feridos.
Ninguém tem a menor ideia de porque Damião agiu assim. Tudo que se sabe é que na terça-feira ele disse a familiares que logo se “veriam livre” dele. Sabe-se que a data escolhida para o crime coincide com o aniversário de morte de seu pai. Nada mais.
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Tenho a mais absoluta convicção de que vivemos num mundo profundamente doente. Não que os seres humanos sejam exemplos de bondade, generosidade e caráter. O que não faltam são episódios, ao longo de séculos, de homens e mulheres perpetrando todo tipo de atrocidades contra seus semelhantes. Mas há uma diferença que separa muitos destes episódios das barbáries que vêm se repetido com assustadora frequência: motivação.
Não que um pretexto qualquer sirva para justificar um ato de terror. Mas ajuda a entender um propósito mínimo, por mais imbecil que seja, para aquele ato hediondo, normalmente praticado por um líder numa disputa de poder.
Nestes três casos recentes, e em tantos outros que temos visto se repetir, não se trata disso. É maldade, ruindade, loucura, tudo junto e misturado, pura e simplesmente. Não há prévio aviso, nenhuma indicação nem qualquer possibilidade de antecipação. A próxima vítima pode ser qualquer um de nós. E o autor, um vizinho, amigo, primo, colega de trabalho, namorada... Ninguém está mais a salvo. De ninguém.
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