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“O melhor profeta do futuro é o passado”
Lord Byron, escritor inglês
 
 
Empresas, no Brasil e no mundo, têm vida curta. Na média, 62% dos negócios fundados na terra da Lava Jato sucumbem antes de completar cinco anos. Um terço não resiste nem mesmo ao primeiro ano de funcionamento. Apenas 3% das companhias — isso mesmo, só três em cada cem — ultrapassam os 30 anos de história. Na Europa e no Japão, a média é mais alta, mas ainda assim frustra: entre surgir e desaparecer, o tempo de existência de uma empresa é de modestos 12 anos. Nos Estados Unidos, maior potência econômica do planeta, tampouco os indicadores são mais alentadores, mesmo se analisadas apenas as gigantes — das 501 empresas listadas na Bolsa de Nova Iorque em 1925, apenas 2,6% delas (13 companhias) continuavam em operação em 2004, 80 anos depois, quando o estudo foi feito.
 
Empresas centenárias, então, são raríssimas. Contam-se nos dedos as companhias privadas que registram mais de um século de história. Franca é sede de uma delas. Obviamente, me refiro ao Comércio, que completou inacreditáveis 102 anos de existência na última sexta-feira. Sou profundamente grato por tudo que tenho vivido aqui há 25 anos. Podem ter certeza, há muita história para contar. Uma parte delas estará reunida na edição especial comemorativa que circula no próximo domingo, 9 de julho. Tenho certeza de que os leitores vão adorar, especialmente porque o formato escolhido, através de múltiplas listas de fatos interessantes e curiosos, torna a leitura um grande prazer.
 
É claro que, numa história tão longa, nem tudo são flores. Há muitos espinhos, especialmente porque a natureza da própria atividade jornalística, ao mesmo tempo em que atrai respeito e admiração, também gera adversários e ferozes opositores. Qualquer um que ganha espaço na entrevista de domingo, fica feliz. Nunca vi ninguém reclamar por ter sua foto publicada na Insight, na Patrícia, noutros tempos no Higininho. O mesmo não se pode dizer dos personagens registrados nas páginas policiais. 
 
Políticos costumam emoldurar as páginas com suas conquistas, com os momentos de júbilo, com suas vitórias nas urnas. Quando são denunciados por seus malfeitos, preferem atacar o jornal, culpar seus profissionais, invocar o papel de “perseguidos”. É uma lógica perversa, ainda que humana. Culpa-se — como já ficou até batido dizer — o mensageiro pela mensagem. Assim, se a polícia detém um empresário, o problema passa a ser o jornal que divulgou o caso, e não o constrangimento provocado pela ação propriamente dita. E todos os ódios são canalizados para o veículo que apenas cumpriu seu papel. Quase nunca esses mesmos personagens se insurgem contra as instituições que os colocaram em xeque. Preferem, pura e simplesmente, descontar no jornal.
 
Vale o mesmo para o sujeito que mata uma família inteira num acidente de trânsito estúpido e, ao invés de conceder uma entrevista se desculpando pela tragédia que protagonizou, prefere espalhar boatos absurdos — contra o jornal ou seus profissionais, obviamente — para tentar justificar o injustificável. Ou para o advogado que, flagrado roubando o próprio cliente, ataca a publicação da notícia como se o problema não fosse seus atos.
 
Sobram exemplos como estes. Faz parte, aqui e em qualquer lugar. Basta olhar para o que a imprensa americana enfrenta neste instante com o presidente Donald Trump. Ou para o que veículos nacionais recebem de ataques do ex-presidente Lula, do atual, Michel Temer, e dos seus respectivos entornos. É a mesma lógica invertida, que tenta responsabilizar a imprensa pelo registro dos fatos, pela análise da conjuntura, pela opinião crítica. De forma absurda, culpam os jornalistas por fazer exatamente aquilo que deveriam fazer. 
 
Saber que o que enfrentamos por aqui não é muito diferente do que acontece em outras bandas serve de consolo, mas não diminui os desafios. Porque, diferente do que se possa imaginar, a reação dos “atingidos” pela imprensa muitas vezes transcende a mera reclamação. Tem-se, de forma organizada, tentativas de boicotes e intimidações que, no extremo, flertam com a atividade criminosa.
 
Ao longo deste mais de um século de história, distintas famílias em formações diversas foram responsáveis pelo Comércio. Ora havia um único proprietário, como nos tempos do fundador, José de Mello; ora eram três, como durante os anos de Alfredo Costa, Jorge Cheade e Márcio Baguera Leal. Nos últimos 44 anos, coube à minha família a responsabilidade de manter a força e a tradição do Comércio. Primeiro, com meu pai e minha mãe. Depois, comigo junto. E, nos últimos 12 anos, desde a morte de meu pai, comigo e minha mãe, ao lado de uma equipe dedicada e competente, lutando para fazer o jornal avançar no ritmo de mudanças que os novos tempos exigem. Fizemos muita coisa neste tempo. Tenho enorme orgulho do nosso legado.
 
Sempre disse e repeti ao longo dos anos, em textos e discursos, que um jornal como o Comércio, muito além de ser propriedade de alguém, é um patrimônio da comunidade — e, por que não dizer, também do país. Por isso mesmo, a entrada de novos diretores nos últimos meses, liderados por Rodrigo Henrique — profissional com mais de 23 anos de experiência nas mais distintas áreas do Comércio — no comando da área administrativa-comercial, me deixa muito feliz. É um grupo de gente que traz os recursos e a energia fundamentais para que possamos avançar. Com força e coragem, rumo aos próximos 100 anos.
 
Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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