“A esperança não é um sonho, mas uma maneira de traduzir os sonhos em realidade”
Cardeal Suenens, religioso belga
Muitos irmãos, filhos dos mesmos pais, nascem e crescem num mesmo lar. Ao longo da vida, criados de forma similar, partilham experiências análogas, frequentam a mesma escola e têm amigos comuns. Ainda assim, o resultado deste processo raramente é semelhante. Cada qual sai de um jeito, com suas características próprias, personalidade singular, gostos, virtudes e defeitos. Foi assim comigo e meu irmão caçula, André.
Outros irmãos, com quem se partilha apenas o pai ou a mãe, crescem em lares distintos, submetidos a realidades completamente diferentes e com visões de mundo que podem variar muito. Ainda assim, nestes tempos de relações nunca definitivas e de uma saudável possibilidade de recomeços e reconstruções, esses irmãos não são privados da chance de conviver e de se amar. Foi o que aconteceu com meus filhos Júlia e João.
Há irmãos que, frutos de complexas escolhas feitas pelo pai ou pela mãe comum, crescem apartados, distantes, muitas vezes sem sequer saber da existência um do outro. Seguem vidas simultâneas mas paralelas, sem pontos de intersecção, sem espaço para momentos de convivência. Foi assim comigo e meu irmão do meio, Rafael. Pelo menos, até 10 anos atrás.
Foi apenas em 2007 que conheci o Rafael. Não foi um encontro na maternidade, nem na escola e muito menos numa ocasião festiva. Tínhamos ambos 33 anos — sou meses mais velho do que ele. Era uma reunião, ponto final de um longo processo judicial que, simplesmente, ignorava. Não foi preciso nenhum papel, exame ou testemunho para, diante de sua presença física, constatar o óbvio: o Rafael era meu irmão. Mamãe, a pessoa mais íntegra, corajosa e amorosa que já conheci, concluiu a mesma coisa. A partir dali o Rafael seria, por todas as razões do mundo, acolhido por todos nós.
Desde então, tenho tido a chance de conviver com meu irmão tardio. Em muitas conversas — marcadas por seu jeito acelerado e entrecortado de falar, o que sempre me diverte — visitei seu passado, sofri em retrospectiva com seus tombos e aprendi a admirar seu coração generoso e seu otimismo permanente. Descobri interesses comuns, como as viagens, a boa mesa, os cachorros, o mar, o Corinthians, e outros nem tanto — meu irmão ama música eletrônica e costumava até atacar de DJ; eu detesto. Me emocionei incontáveis vezes ao ver como ele e minha mãe construíram uma relação de muito respeito. Vi ele se converter num tio presente e se encantar com a Júlia e com o João. Fiquei profundamente agradecido e tocado ao ver a forma como se engajou em minhas campanhas eleitorais, brigando com detratores e me defendendo nas redes sociais, muitas vezes em madrugadas intermináveis.
Pude acompanhar também seu esforço em deixar para trás os desajustes de uma adolescência que resistiu mais do que devia e seu empenho para atender às expectativas do seu tio e ídolo, Alexandre, no trabalho com o gado. Vi ainda meu irmão se apaixonar pela Elaine e com ela formar uma família. Me surpreendi quando nossas mulheres se tornaram amigas. Acompanhei o nascimento da Rafaela e da Manuela, minhas sobrinhas de 5 e 1 ano, e pude testemunhar o quanto elas o modificaram, com seu amor, para muito melhor.
Infelizmente, nem sempre a vida é justa. Há mais ou menos dois anos, uma pequena ferida na cabeça do meu irmão, de aspecto tão insignificante que foi confundida de início com um “galo” destes surgidos depois de qualquer pancada, acabaria se transformando num desafio imenso. De inocente, a ferida não tinha nada. Como uma série de exames logo confirmaria, tratava-se de um tumor.
Desde então, meu irmão não tem recebido tantas boas notícias quanto merecia. Sempre que a porcaria é removida de um lugar, insiste em surgir pouco depois num outro sistema do organismo. É um ciclo difícil, cansativo, dolorido. Mas vi, neste terrível processo, meu irmão se transformar num gigante. Pouco importa o número de sessões de químio ou rádio que tem para fazer, o tamanho da cirurgia pela frente, a dureza do tratamento que se aproxima, o Rafael está sempre disposto, animado, otimista. É uma espécie de Rocky Balboa na batalha contra o câncer. Você olha num instante e o vê cair depois de uma etapa cujo resultado não foi o que se esperava, mas nem dá tempo de lamentar. Três segundos depois ele já está de pé, forte, como o boxeador eternizado por Sylvester Stallone, pronto para o round seguinte. Não há notícia difícil o bastante para desanimá-lo, não há etapa suficientemente dura para fazê-lo desistir. Rafael é incansável.
Meu pai costumava dizer que não são as quedas que nos definem, mas sim nossa resiliência. Desde muito cedo, dizia que não importava quantas vezes eu viesse a tropeçar, o importante era sempre me reerguer. “Se cair dez vezes, meu filho, se levante onze”, gostava de repetir. Infelizmente, papai não se permitiu conhecer o Rafael. Foi um erro terrível. Se estivesse vivo hoje, certamente estaria muito orgulhoso do homem de fibra em que seu filho se transformou, exemplo perfeito de alguém que jamais se deixa abater por qualquer obstáculo. Um homem de fé inabalável, de esperança indestrutível e que carrega dentro de si uma vontade de viver do tamanho do mundo. Em hebraico, Rafael, o nome do meu irmão, significa “curado por Deus”. Que assim seja. Amém!
Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.