Carne podre


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Salsicha recheada com farinha de mandioca e tiras de papelão. Frango com água injetada para aumentar o peso. Linguiça de cabeça de porco e cartilagem. Presunto azedo lavado com produtos químicos para voltar às gôndolas. Carne vencida e malcheirosa “rejuvenescida” com ácido ascórbico. O menu acima, capaz de provocar náuseas e repulsa em qualquer pessoa que tenha noções elementares de higiene, não faz parte da oferta de produtos de um açougue suspeito que vendia cortes oriundos de abate clandestino numa corrutela qualquer perdida no meio do Brasil. Tampouco foi encontrado num depósito abandonado explorado por algum marginal que não tinha noção do que fazia.
 
Como sabem milhões de brasileiros - e outros tantos consumidores espalhados por mais de 150 países para onde a carne brasileira costuma ser exportada - desde a manhã da última sexta-feira, a prática de colocar no mercado todo o tipo de subproduto animal misturado a celulose num “disfarce” de embutido, bem como de reaproveitar em novas embalagens carne podre, azeda e vencida, era protagonizada de forma sistemática e em larga escala por algumas das maiores e mais importantes empresas brasileiras. Companhias do quilate da BRF, dona de marcas como Sadia e Perdigão, e da JBS, das famosíssimas Friboi e Seara, cada uma delas com milhares de funcionários, operações globais e produtos conhecidos e admirados há gerações, são hoje uma vergonha nacional. 
 
A operação Carne Fraca, desdobramento de uma investigação iniciada há mais de dois anos para apurar a qualidade suspeita da salsicha servida aos estudantes da rede pública do Paraná, foi deflagrada pela Polícia Federal. No total, mais de 1000 homens e mulheres da PF cumpriram 38 mandados de prisão, 77 conduções coercitivas e 194 ações de busca e apreensão em cidades do Paraná, São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais e Goiás. 
 
O que se divulgou até agora é estarrecedor. E, mais uma vez, envolve corrupção grossa, desta vez com frigoríficos no lugar de empreiteiras, mas num arranjo já bem conhecido dos brasileiros. Têm-se partidos políticos (por enquanto, PMDB e PP), agentes do governo (no caso, fiscais sanitários) e grandes empresas (as já citadas JBS e BRF, para ficar apenas nas maiores). Tem também o Paraná como epicentro da investigação, uma outra coincidência com a Lava Jato.
 
Na prática, caciques destes partidos políticos manobravam a indicação de apaniguados para os mais altos postos dos departamentos de fiscalização sanitária do Ministério da Agricultura e suas superintendências regionais. No comando da máquina, os “afilhados” garantiam que fiscais corruptos fizessem vista grossa para a condição de operação de dezenas de frigoríficos. Licenças eram concedidas sem qualquer verificação. Produtos aprovados sem inspeção. As empresas, “protegidas” pela fiscalização inexistente, adicionavam tudo quanto é porcaria para diminuir os custos de produção. Foi assim que, num dos casos mais absurdos, salsichas acabaram produzidas a partir de ossos de frango, cartilagem de porco, farinha de mandioca e pedaços de papelão. Carne mesmo, praticamente nenhuma. Além disso, as empresas evitavam “prejuízos” reaproveitando carne imprópria para o consumo. Presunto azedo era reembalado - com a complacência da fiscalização omissa - após um “banho” de ácido ascórbico e seguia para as prateleiras dos superm
ercados como se fosse mercadoria de boa qualidade. Como “agradecimento”, BRF, JBS e companhia teriam feito multimilionárias doações para partidos políticos, além de generosas “contribuições” para fiscais corruptos. 
 
O impacto da operação Carne Fraca foi imediato - e brutal. As ações das principais empresas envolvidas no escândalo despencaram nas bolsas de valores. Fiscais sanitários e executivos das empresas estão presos. Consumidores no mundo inteiro estão apavorados. Porque, hoje, nenhum produto brasileiro é tão global quanto a carne. Nem mesmo o café.
 
Resta óbvio que os desdobramentos da operação Carne Fraca ainda estão muito longe do fim. Por enquanto, as diretorias das principais empresas envolvidas correm para negar que o comportamento seja sistêmico. Garantem estar colaborando com as investigações e juram que os mecanismos de controle e fiscalização são efetivos. Não é impossível que sejam, mas é muito difícil acreditar que todo esse desmando tenha acontecido alheio à percepção dos mais importantes executivos. Vale lembrar que não se trata de um único problema em apenas alguns lotes de carne de um frigorífico específico. Têm-se, na Carne Fraca, milhares de toneladas de carne de frango, porco, boi e seus derivados que, apesar de imprópria para consumo, foram despejados no mercado. Tudo facilitado pelo pagamento de propina, de forma planejada, organizada - e vultosa.
 
Reconquistar a confiança do consumidor não será uma tarefa simples - nem vai acontecer de forma imediata. Será uma batalha difícil, que vai exigir muito mais do que campanhas de marketing com atores de renome contratados a peso de ouro. Até porque é difícil imaginar alguém de prestígio que, neste instante, aceite associar seu nome aos produtos destas companhias, ainda que muito bem pagos.
 
De qualquer forma, crises - mesmo as gigantes - sempre geram oportunidades. Produtores pequenos reconhecidos por sua qualidade podem ganhar espaço. Afinal, quando alguém compra uma linguiça, espera encontrar carne de porco dentro. Jamais cabeças, cartilagem e ossos. Vale o mesmo para uma picanha, muito bem-vinda com uma capa de gordura branca e proporcional. Nunca com salmonela ou depois de um banho de ácido. Quem conseguir convencer o consumidor de que age com verdadeiro respeito e responsabilidade pode ocupar o vácuo deixado pelas gigantes sob suspeita. E crescer. Rápido - e muito.
 
Corrêa Neves Júnior, jornalista e vereador em Franca
email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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