“Todos sabem fazer história mas só os grandes sabem escrevê-la”
Oscar Wilde, escritor irlandês
Dentro de 48 horas, um pouco mais ou um pouco menos, o Senado da República deverá chegar aos instantes finais do julgamento da presidente afastada, Dilma Rousseff (PT), por crime de responsabilidade. Se nenhuma hecatombe acontecer, a primeira mulher eleita para ocupar o mais alto cargo da nação será defenestrada do exercício de seu mandato por uma margem considerável de votos - estima-se que 61 senadores digam “sim” ao impeachment, enquanto não mais do que 19 se coloquem ao lado de Dilma. Haverá ainda, quase certamente, pelo menos uma abstenção - a do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB).
Até por dever de ofício, tenho acompanhado, desde a fase inicial na Câmara dos Deputados, o depoimento das testemunhas de acusação e de defesa. No Senado - onde a condição de ré de Dilma Rousseff ficou consumada e, depois da pronúncia, o julgamento passou a ser comandado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Levandowski - a formulação de idênticas perguntas, argumentos, intervenções e até interjeições por parte da tropa de defesa fez com que assistir às intermináveis sessões se transformasse num arremedo de tortura, especialmente nos momentos em que “questões de ordem”, para discutir aspectos formais sobre o qual já se deliberou, são repetidos à exaustão. Há que se ter paciência infinita. É um chororô sem fim.
Ninguém com o mínimo juízo imagina que qualquer um dos senadores forme suas convicções a partir das perguntas insistentemente repetidas ou, em última instância, do que dizem as testemunhas - ou informantes - em seus depoimentos. Não se trata de assunto que ignorassem, sobre tema que começou a ser debatido agora, nem há revelação que possa surgir capaz de mudar a opinião de quem quer seja. Exatamente por isso, a repetição da mesma ladainha, ao longo de meses, nas distintas fases do processo, é tão indigesta. Simplesmente, não acrescenta nada. No máximo, provoca náuseas.
Não há maiores “especialistas” neste efeito do que os integrantes da bancada do jardim de infância, como foi jocosamente apelidado o grupo formado pelos senadores Lindbergh Farias (PT), Fátima Bezerra (PT), Gleisi Hoffmann (PT), Vanessa Grazziotin (PCdoB) e Lídice da Mata (PSB). Vítimas de “coitadismo explícito”, em tudo veem manobras e maquinações da acusação, que consideram integrar um complô junto com parte do senado, dos deputados, do empresariado e, claro, da mídia, para tirar do poder uma “mulher honrada”.
É curioso como o juízo de valor do grupo é tão peculiar. Se Renan Calheiros (PMDB) - que apesar de ser presidente do Senado não comanda esta fase do julgamento - janta com o presidente interino Michel Temer (PMDB), a bancada do jardim de infância avança no microfone para vociferar que ele faz parte do complô e deixa de ter a isenção que se espera de um julgador. Mas se Lindbergh, Vanessa, Gleisi e companhia almoçam com Dilma Rousseff, nenhum deles vê nisso nenhuma conspiração nem conflito de interesses.
Quando o procurador do Tribunal de Contas da União, Júlio Marcelo, um dos primeiros a denunciar o rombo nas contas públicas, se apresenta para depor como testemunha, é logo desqualificado pelos defensores da presidente, que alegam “suspeição” por ele ter compartilhado uma mísera postagem no Facebook onde comentava a participação num ato de auditores que defendiam a rejeição das contas do governo federal. Mas se quem vai depor for algum declarado ideólogo da esquerda, fã do fracassado Chavismo venezuelano ou ainda nomeado para cargo de confiança por algum senador amigo, a bancada do jardim da infância não vê razões para estranhamento.
Se algum senador contrário à presidente afastada faz considerações sobre a pilhagem nos cofres públicos nos últimos anos ou relembra as mentiras da campanha presidencial de 2014, vem logo a bancada dizer que isso não é “crime de responsabilidade”, que esses fatos não fazem parte da acusação do impeachment e que quem critica é “canalha”. Ao mesmo tempo, não coram nem um pouco ao insistir que se trata de um “golpe”, apesar do longo processo que passou por diversas fases na Câmara dos Deputados, no Senado da República e que chega a julgamento sob o comando do presidente do Supremo Tribunal Federal, a corte constitucional brasileira.
Cereja do bolo, a encalacrada Gleisi Hoffmann ainda foi capaz de repetir nesta última semana que nenhum senador “tem moral” para julgar a “presidenta Dilma”. Na lógica da bancada do jardim da infância, quem define se foi crime ou não são eles, e não a maioria dos senadores. Portanto, como consideram que não houve crime, pouco se importam com a opinião dos demais. E dá-lhe à repetição a ridícula tese do “golpe parlamentar”.
Todos sabem o resultado que sairá da votação de terça-feira, inclusive a presidente afastada, Dilma Rousseff, que ainda faz um último discurso aos senadores antes de ser julgada. Deve apelar para o emocional, se diz pronta a responder quaisquer perguntas, mas ninguém espera mais por um “milagre”. Quem discursa, neste instante, o faz muito mais para polir suas biografias do que para conquistar votos. É legítimo, ainda que chato. Só deveriam fazer isso com argumentos mais consistentes. Repetir ad nauseam que “é golpe”, atacar testemunhas, apresentar pela milésima vez a mesma “questão de ordem” e delirar sobre complôs não ajuda em nada. Nem a presidente Dilma Rousseff, nem a biografia de quem quer que seja. Ninguém aguenta mais.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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