Invertido, esquisito e errado


| Tempo de leitura: 4 min
“A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”

Montesquieu, filósofo e político francês
 
 
Tenho um grande amigo que recorre a uma curiosa expressão sempre que está diante de uma situação absurda, do tipo que desafia a lógica elementar. “É o capim comendo a vaca”, costuma esbravejar. Tive vontade de sair gritando o mesmo nesta última semana quando soube que o Ministério Público de Minas Gerais, contrariando conclusão do inquérito policial, resolveu denunciar à Justiça por homicídio o empresário Gustavo Corrêa, cunhado da modelo e apresentadora Ana Hickmann. Gustavo é o sujeito que conseguiu defender sua família de um lunático que os mantinha como reféns. Deveria ser aplaudido por todos, inclusive o Judiciário. Mas, neste país de tantos absurdos, vai acabar no banco dos réus.
 
O caso aconteceu em 21 de maio e provocou intensa comoção no país. Ana Hickmann estava em Belo Horizonte, hospedada no hotel Caesar Business, para participar do lançamento de uma coleção da sua grife de roupas. Faziam parte do grupo Giovana Oliveira, sua cunhada e assessora; o marido dela (e irmão de seu marido), Gustavo Correa; e o cabeleireiro Júlio Figueiredo.
 
Era início da tarde de sábado quando Gustavo foi surpreendido e rendido no corredor do hotel por Rodrigo de Pádua. Fã de Ana Hickmann, Rodrigo nutria uma espécie de paixão não correspondida que há muito superara a barreira da normalidade. Basicamente, sua vida se resumia a seguir os passos de Ana Hickmann em redes sociais, colecionar fotos e notícias e escrever mensagens de conteúdo ora apaixonado, ora raivoso para aquela que tinha como musa. Num pen-drive e no celular que carregava consigo, havia 10.840 fotos da apresentadora, além de algumas montagens com conotação sexual. De alguma forma, sentia-se “traído” por Ana Hickmann, com quem, vale ressaltar, jamais manteve qualquer tipo de relacionamento ou proximidade. Sob ameaça de um revólver, Gustavo foi obrigado a seguir até o quarto em que Ana Hickmann estava em companhia de Giovana Oliveira. No caminho, toparam com o cabeleireiro Júlio Figueiredo, que passou a segui-los. Ao chegarem ao quarto, apenas Gustavo e Rodrigo entraram. Júlio foi mantido do lado de fora. 
 
Rodrigo não se mostrava disposto a nenhum diálogo. Movido por ódio ou coisa que o valha, obrigou Ana, Giovana e Gustavo a se sentarem de costas para ele e, imediatamente, começou a disparar impropérios, misturados a frases desconexas, contra a apresentadora. Disse que pretendia “brincar” de roleta-russa com todos. Os apelos para que se acalmasse foram inúteis. Disparou na direção de Ana Hickmann, mas errou e atingiu Giovana. Gustavo conseguiu se levantar e pulou sobre Rodrigo. Os dois começaram uma “luta de vida ou morte”, conforme relatou o delegado responsável pelo caso, Flávio Grossi. Sabe-se que Gustavo conseguiu gritar para que Ana e Giovana, esta última ferida, saíssem. Ambas conseguiram.
 
Dentro do quarto, a loucura continuava. Foi só na base da mordida – literalmente – que Gustavo conseguiu afastar Rodrigo momentaneamente. Com a arma, fez três disparos em três segundos. Um atingiu o braço, dois acertaram a nuca. Rodrigo morreu na hora.  Imediatamente, Gustavo se dirigiu à recepção do hotel, narrou o que tinha acontecido, pediu que chamassem a polícia e entregou a arma. Sua mulher, Giovana, ficou dez dias internada até que se recuperasse do tiro no abdômen. Ana Hickmann não se feriu.
 
As investigações da Polícia sobre o caso mostram que Rodrigo, desde o início, estava disposto a matar Ana Hickmann. Morador de Juiz de Fora, vendeu parte de suas coisas antes de sair para a sua “missão”. Pesquisou na internet que tipo de arma era mais letal e optou por um revólver calibre 38. Escolheu uma munição “expansível”, que se espalha quando atinge o alvo.
 
Tratou de se hospedar no mesmo hotel da apresentadora. Anotações feitas por Rodrigo mostram que ele tinha se preparado para atuar em três diferentes momentos, a depender das circunstâncias. Primeiro, tentaria acertar a apresentadora no hotel. Se não obtivesse “sucesso”, segundo suas próprias palavras, iria até o local onde haveria apresentação da coleção de roupas de Ana. Se ali também falhasse, a seguiria até o aeroporto, para nova tentativa. Retornar para Juiz de Fora não estava em seus planos. O rapaz havia comprado apenas passagem de ida para Belo Horizonte. 
 
Portanto, sabe-se que o tal Rodrigo era obcecado por Ana Hickmann ainda que jamais tenham tido qualquer tipo de relacionamento. Que, transtornado, elaborou um plano para matá-la. Comprou arma, munição, se hospedou no hotel em que ela estava. Invadiu seu quarto, ameaçou-a com uma arma, xingou e atingiu com um tiro sua assessora. Só não fez desgraça maior porque foi impedido por Gustavo Correa, um cidadão que agora terá que enfrentar uma pesada acusação de “homicídio” por ter feito exatamente o que qualquer pessoa de bem faria – salvar a própria família. Os tiros na nuca, base do argumento do Ministério Público para descartar a legítima defesa, foram desferidos enquanto Gustavo e Rodrigo brigavam pela arma. Segundo relato do delegado Flávio Grossi, nunca houve “submissão” de Rodrigo e os disparos em nada se assemelham a uma execução. Mesmo assim, o MP ofereceu a denúncia.
 
Ana Hickmann reagiu e postou nas suas redes sociais a expressão “Indignação”, com várias definições para o termo. Assino embaixo. É mesmo revoltante. Como diria meu amigo, no Brasil de hoje, o capim está ou não está comendo a vaca? 
 
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN 
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários