“Daqui a vinte anos você estará mais decepcionado pelas coisas que você não fez do que pelas coisas que você fez. Portanto livre-se das amarras. Navegue longe de portos seguros. Pegue os ventos da aventura em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra”
Mark Twain, escritor americano
O Comércio completou, na última quinta-feira, 101 anos. Inacreditáveis 36.894 dias separam a tarde de quarta-feira, 30 de junho de 1915, quando o então pequeno semanário circulou pela primeira vez, deste domingo, 03 de julho, em que sai às ruas com mais uma edição comemorativa.
Não é exagero dizer que absolutamente tudo de relevante que aconteceu ao longo deste século está registrado em suas páginas. Conflitos, dá para perder a conta: Primeira Guerra, Revolução Russa, Segunda Guerra, da Coréia, do Vietnã, Irã-Iraque, Malvinas, do Golfo, Invasão do Afeganistão, do Iraque, massacres em Ruanda, Somália e, mais recentemente, os trágicos detalhes do terror imposto ao mundo pelos fanáticos muçulmanos – primeiro, da Al Qaeda e, agora, do Estado Islâmico.
Deste nosso Brasil, os sobressaltos estão registrados em mais de 22 mil edições. Do fim da política do café com leite até a construção de Brasília, da ditadura de Getúlio Vargas aos anos de chumbo dos regimes militares, da loucura de Jânio Quadros até a deposição de João Goulart, da redemocratização até o impeachment de Collor.
Também nas páginas do Comércio a população acompanhou o surgimento do rádio, o crescimento do cinema, o nascimento da televisão. Viu o homem chegar ao espaço, ir e voltar à Lua. Descobriu que novas tecnologias permitiriam ao mundo se conectar sem fios, por satélites, reduzindo a zero quaisquer distâncias ou fronteiras.
Depois, maravilhou-se com as notícias que mostravam as transformações que viriam com computadores, celulares e a internet, tecnologia que transformou radicalmente a vida como conhecemos. Não nos relacionamos, compramos, nos informamos – e nem, vivemos - mais como antes.
Obviamente, o Comércio não apenas registrou a história –também foi afetado, como todos, por seus desdobramentos. Numa trajetória tão longa, não faltaram conquistas importantes. Do pioneirismo na impressão off-set ao primeiro prêmio Esso de Jornalismo conquistado por um jornal do interior. Ressalte-se, ainda, nossas experiências com a integração de mídias que serviram de norte para outros tantos veículos país afora.
Mas nem tudo são flores. Não faltaram dificuldades nesta longa jornada. Dos meses em que, sob o comando de Ricardo Pucci, o jornal ficou impedido de circular por ordem da ditadura Vargas, nos anos 30, até a prisão de seu então diretor responsável, Alfredo Costa, na década de 60, vítima do regime militar.
Além disso, impossível deixar de recordar os múltiplos desafios que meus pais, Corrêa Neves e Sônia Machiavelli, enfrentaram desde que assumiram o controle do jornal, no início da década de 70. O jornalismo que passaram a desenvolver, fundamentado na realidade e naquilo que era de interesse público, ainda que por vezes fosse desagradável, chocou-se frontalmente com outros interesses, políticos e econômicos, de uma certa “elite” que preferia ver impressa uma versão quase ficcional dos fatos. Foram anos até que esta parcela da sociedade, pequena mas poderosa, enfim aceitasse que nenhuma ameaça surtiria efeito. Claro, ainda há quem tente pressionar, mas hoje é minoria.
Nos últimos tempos, tivemos que aprender a lidar com problemas que foram sintetizados, em poucas palavras, pela cantora e “filósofa contemporânea” Valeska Popozuda: “é tiro, porrada e bomba”. Tivemos os três nos últimos quinze meses. Primeiro, foi a ação de uma quadrilha que, armada com fuzis e dinamite, explodiu um andar da nossa sede para roubar o caixa eletrônico. Depois, viria o atentado contra a Crazz Publicidade, um incêndio criminoso que destruiu um prédio, milhares de documentos e muitos equipamentos. Por fim, houve o roubo de computadores da ONG Academia de Artes, mantida por nós no Recanto Elimar sem um centavo do poder público. Os prejuízos foram enormes. Nenhum dos três crimes foi esclarecido pela polícia.
Os desafios estão longe do fim. Enfrentamos hoje a “tempestade perfeita”. O mercado de comunicação passa por profundas transformações. O modelo de negócio dos impressos, baseado em circulação paga (assinaturas + venda avulsa) e publicidade (classificados + anúncios), passa por mudanças. Trata-se de um desafio para jornais e revistas do mundo inteiro. O detalhe é que, no Brasil, isso foi agravado pela seríssima crise econômica. Com o país em recessão e encolhendo, crédito escasso e publicidade em baixa, o aperto foi inevitável. Cortes de despesas tiveram que ser adotados, redução de estruturas também. É uma realidade que veio para ficar.
Estamos no meio de uma travessia que ninguém concluiu. O futuro do mercado de mídia segue desconhecido. Sabe-se que há terra adiante, mas ninguém ainda avistou. Nem aqui, nem em lugar nenhum. O que nos conforta e impulsiona é constatar que, exatamente como há um século, as pessoas continuam ávidas por informação. Pode ser em papel, pode ser digitalmente – e hoje, o portal GCN é um dos 23 maiores do país, segundo dados auditados. Somados, impresso e digital alcançam 170 mil pessoas por dia.
Nunca fomos tão lidos, por tanta gente, em tantos lugares. Nunca fomos tão relevantes. Não poderia haver melhor notícia para um veículo que, orgulhosamente, entra em seu segundo século de existência. Um brinde ao Comércio. Hoje, mais do que nunca, o jornal que todo mundo lê.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.