“A punição que os bons sofrem, quando se recusam a tomar parte do governo, é viver sob o governo dos maus”
Platão, filósofo grego
Sérgio Machado, 70 anos, é um empresário e político cearense. Ingressou na vida pública nos anos 80, quando se filiou ao PMDB e o governador Tasso Jereissati fez dele seu secretário de Governo. No início dos anos 90, virou tucano, foi eleito deputado federal e, depois, senador. Estava de volta ao PMDB quando Lula chegou à presidência. Acabou indicado para comandar uma poderosa subsidiária da Petrobras. De 2003 a 2015, foi presidente da Transpetro, responsável pelo transporte e armazenamento de combustíveis.
Sérgio Machado é um canalha. Corrupto, comandou um esquema que desviou centenas de milhões de reais da Transpetro. Acuado pela operação Lava Jato, ofereceu o pescoço de seus “padrinhos”. Armou uma “cama de gato” capaz de fazer inveja a qualquer campeão de truco e, entre o final de fevereiro e o início de março, gravou clandestinamente conversas em que induzia líderes do PMDB – gente como o senador e ex-ministro Romero Jucá; o presidente do Senado, Renan Calheiros; e o ex-presidente da República, José Sarney – a recordar o que de mais podre tinham feito durante os governos dos petistas Lula e Dilma Rousseff. Fez questão também de passear nas conversas pelo esquema de financiamento de campanha com recursos ilícitos que alimentou outros partidos, como o PSDB. Sua delação foi aceita e homologada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Pedro Corrêa, 68 anos, carioca, formou-se médico no Recife, capital de Pernambuco, onde se radicou. Foi eleito deputado federal em 1978 – na sequência, viriam outros cinco mandatos. Estava filiado ao PP quando foi cassado, em 2006, por conta do “mensalão”. Foi condenado pelo STF a nove anos e cinco meses de prisão por crimes como formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Estava no presídio quando foi surpreendido, no final do ano passado, com mais uma condenação. Desta vez, a sentença saiu da caneta do juiz Sérgio Moro – e foi sensivelmente mais severa: 20 anos e 7 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no “petrolão”.
A perspectiva de reduzir a pena através de uma delação premiada produziu em Pedro Corrêa uma súbita disposição para contar a verdade. Não que Pedro Corrêa sinta remorso. Ao contrário, é ainda mais canalha do que Sérgio Machado. Admitiu, em depoimentos, que sempre usou a política para enriquecer. Sem corar, confessou que recebeu propina desde o inicio – a primeira delas, pela intermediação de um acerto com o INAMPS (o avô do INSS) ainda nos anos 70. Participou de esquemas de corrupção em 20 estatais. Com a autoridade de quem fez do assalto aos cofres públicos um meio de vida, contou ainda na sua delação sobre os malfeitos de 80 deputados federais, 17 senadores, um governador, seis ex-governadores, dois ministros e 18 ex-ministros de Estado.
A cereja do bolo fica por conta dos detalhes sobre como Lula comandava pessoalmente a divisão da propina e até arbitrava os conflitos para evitar que “aliados” se digladiassem pelo espólio do roubo. Pedro Corrêa disse que certa vez Lula foi procurado por parlamentares do PP incomodados com o avanço do PMDB sobre a diretoria de abastecimento, comandada por Paulo Roberto Costa, o Paulinho. Lula disse que todos tinham que manter a calma, porque a diretoria era “muito grande” e havia dinheiro para todos. Lula teria dito ainda que, apesar do PMDB pegar um naco, “a maior parte das comissões seria do PP, dono da indicação do Paulinho”.
Sérgio Machado e Pedro Corrêa não passam de escória. São ladrões, corruptos, amorais, desleais. Quando admitiram seus crimes, não estavam motivados por qualquer tipo de sentimento nobre, de arrependimento, de vontade de fazer diferente. Queriam apenas poupar o próprio pescoço. Nada mais. Mesmo assim, prestaram um grande serviço ao país.
As gravações que um fez e os detalhes da delação que o outro firmou revelam com transparência cristalina o grau de podridão do sistema político brasileiro. Estão ali a tentativa de PT, PMDB, PP e até PSDB de frear a qualquer custo a Lava Jato; a afirmação de que Dilma Rousseff, nas palavras de Renan Calheiros, é mesmo corrupta e tratou diretamente do pagamento de sua campanha com dinheiro sujo da Odebrecht; os detalhes de como Lula operava a compra de apoio via propina de dentro do Palácio do Planalto; o ódio que os investigados têm do procurador geral da República, de ministros do STF e do juiz Sérgio Moro; e o amplo sistema de financiamento de campanhas eleitorais usando dinheiro de corrupção.
É terrível constatar que nos mais altos cargos da República não há praticamente ninguém preocupado com a qualidade da gestão, com a eficiência da máquina pública, com a execução de um plano de governo, com o futuro do país. Fica claro que as indicações são apenas para colocar os “afilhados” em postos-chave de onde possam, livremente, roubar. Um tanto para si, outro tanto para o financiamento eleitoral de aliados e “padrinhos”.
Uma ampla reforma política tornou-se imperativa, a única ferramenta capaz de impedir que continuem se multiplicando Sérgios Machados, Pedros Corrêas e assemelhados. Num país onde o Executivo e o Legislativo estão em estado de putrefação, o Judiciário tem se mostrado um dique capaz de evitar que o país se reduza a uma Venezuela. Mas é preciso pressa. Tem corrupto demais - até mesmo para Sérgio Moro, Rodrigo Janot e os ministros do Supremo Tribunal Federal.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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