Nada além do chororô


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“Uma mentira vem logo no encalço de outra”
Terêncio, poeta romano
 
A última sexta-feira, 4 de março de 2016, já faz parte do capítulo que reúne alguns dos trechos mais tensos, dramáticos – e esperançosos - da história política brasileira. Foi no início daquela manhã que agentes da Polícia Federal e da Receita bateram no apartamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para cumprir mandado de busca e apreensão e, também, conduzi-lo coercitivamente para prestar depoimento numa delegacia do aeroporto de Congonhas. 
 
Cumpriu-se o que se espera de um país democrático, com instituições sólidas e onde a Constituição pretende ser a mesma para todos. Lula foi abordado às 6h, como tem feito a Polícia Federal em qualquer operação do gênero; foi conduzido numa viatura, ainda que descaracterizada; e teve que prestar esclarecimentos para um delegado. No final da manhã, o ex-presidente foi liberado.
 
O desabafo, carregado de mágoa e rancor, veio poucas horas depois, num discurso na sede do Diretório Estadual do PT, no centro da Capital. Lula incorporou o papel de vítima, fez-se de coitado e perseguido, atacou a imprensa e, como sempre, dividiu o país entre “nós” e “eles”, entre pobres e elite.  “Colocam como corrupção um barco de R$ 4 mil da dona Marisa”, vociferou. “Se eu pudesse, dava um iate para dona Marisa”.
 
À noite, em novo discurso, desta vez no Sindicato dos Bancários, Lula conseguiu ser mais imodesto do que de costume e, sem corar, disse que não apenas se considera o maior presidente da história do Brasil mas, também, o maior presidente de qualquer país do mundo neste século. “Hoje é o dia da indignação para mim”, disse. “Cutucaram o cão com a vara curta”.
 
Apesar de continuar muito carismático e preservar uma oratória poderosa, os argumentos de Lula não se sustentam meio minuto. O próprio ex-presidente e seu círculo íntimo parecem ter tanta consciência disso que, mais uma vez, evitaram entrevistas. Lula falou muito, mas não reservou um instante sequer para responder a uma pergunta que fosse – e, muito menos, para esmiuçar os inúmeros pontos obscuros que persistem. 
 
O que Lula precisa explicar é simples. Se o apartamento no condomínio Solaris, no Guarujá, nunca foi dele, porque o ex-presidente foi vistoriar as obras com dona Marisa? Se ele não tinha certeza se compraria o triplex, porque dona Marisa especificou detalhes do acabamento e da finalização da obra? Muito mais importante, quer seja ou quer não seja de Lula o imóvel, por que diabos a construtora OAS, então presidida por Léo Pinheiro, empreiteiro encalacrado até o último fio de cabelo em escândalos de corrupção, pagou R$ 777 mil pela reforma desta unidade? Em troca de que a OAS fez tamanha gentileza por um imóvel que não é de ninguém? 
 
Raciocínio semelhante se aplica a Atibaia. Lula ironizou, perguntando que mal tem usar o sítio de um amigo. Nenhum, fosse essa a situação. Acontece que o buraco é mais embaixo. Fato inédito, os filhos de amigos do ex-presidente compraram a propriedade exclusivamente para Lula usar. Mais incomum ainda, empreiteiras resolverem reformar, ao custo estimado de R$ 1 milhão, a propriedade que nem é do ex-presidente. E, para deixar tudo mais suspeito, uma antena de telefonia celular, que custa outro milhão e atende apenas ao sítio, foi também instalada ali, sem custos, pela Oi. Beira o absurdo. Uma coisa é alguém receber seus amigos numa propriedade de veraneio. Outra é comprar a propriedade para o amigo usar e reformá-la com dinheiro de uma empreiteira que, em tese, não tem “interesse” escuso nenhum – a não ser pelo fato de que o “inquilino” ocupava, no instante do negócio, a cadeira de presidente da República.
 
Há que se esclarecer também por que razão a mesma OAS pagou até a despesa de transporte da mudança de Lula do Palácio da Alvorada para o sítio de Atibaia, além de arcar com os custos mensais do depósito que abriga parte do acervo do ex-presidente. Que tipo de empresa, que ainda por cima lida com obras públicas, faz isso “desinteressadamente”? Se era para ser gentil, por que a OAS não doou recursos para programas sociais que são tão caros ao ex-presidente? Quantas próteses não poderiam ser compradas para o Brasil Mais Sorridente, que Lula fez questão de citar em seu “desabafo”, com os R$ 2 milhões “doados” para as reformas?
 
Lula falou muito, mas não explicou nada. Fez um chororô danado, mas segue escondido por detrás do papel de vítima. Apega-se à lógica do “Davi” nordestino que, sobrevivente, soube enfrentar e derrotar o “Golias” das elites. Não cola mais. Mesmo porque, se é que existe a tal “elite branca”, o próprio Lula faz parte dela. Afinal, só com palestras, o ex-presidente faturou mais de R$ 30 milhões nos últimos anos, dinheiro que faz dele um milionário como poucos no Brasil – além de ser o conferencista mais caro do mundo. 
 
Se a origem destes milhões for lícita, Lula tem dinheiro suficiente para, com sobras, comprar o triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia, instalar uma antena de celular só para família Silva e até mesmo dar um iate de presente para dona Marisa, com direito a tripulação e ao melhor champanhe – ou cachaça, se preferir – que o dinheiro pode comprar. Tudo dentro da lei, sem indecências que retórica nenhuma é capaz de justificar.
 
 
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN email - jrneves@comerciodafranca.com.br

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