“A vida é uma longa lição de humildade”
Sir James M. Barrie, escritor escocês
O relógio marcava 19h14 quando meu celular tocou na última sexta-feira. Atendi prontamente. Após os cumprimentos de praxe, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi direto ao ponto. “Queria te dar uma boa notícia, Corrêa Neves.” A boa notícia a que o governador se referia era a garantia de que as três praças de pedágios, previstas para as rodovias Cândido Portinari, Ronan Rocha e Altino Arantes, anunciadas pela Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) no final de janeiro e que provocaram uma série de protestos, estão descartadas.
Precavido após 20 anos de jornalismo e consciente de que muitas vezes nuances linguísticas ofuscam a clareza que se espera dos homens públicos, achei melhor confirmar. Repeti a pergunta três vezes, detalhando que me referia aos pedágios entre Franca e Jeriquara, Franca e Patrocínio, Batatais e Altinópolis. Obtive sempre a mesma resposta. “Não vai ter pedágio”, insistia o governador. “Sei ouvir a voz da população. Não farei nada (com relação aos pedágios) que as pessoas não queiram”, completou.
A mensagem que o governador acabava de me transmitir era significativamente mais forte e clara do que aquela que havia expressado horas antes, no Palácio dos Bandeirantes, após reunião com dez prefeitos do Comam (Consórcio dos Municípios da Alta Mogiana). Os três pedágios anunciados pela Artesp estão completamente descartados. Não serão construídos. Ponto final. A discussão que será realizada pelo Comam é para futuras duplicações. E, na opinião do governador, a chance de a população concordar com pedágios para financiar essas eventuais duplicações adicionais é pequena. “Acho pouco provável”, confidenciou.
Resta agora o saldo que se extrai desta polêmica. Obviamente, não há vencedor maior do que a sociedade civil, com especial destaque para a contribuição de alguns grupos de acompanhamento do poder público, como a Udecif (União em Defesa da Cidadania de Franca) e o Franca Transparente, que mobilizaram seus simpatizantes em favor da causa. Sem os protestos, as críticas, o posicionamento firme e o bloqueio das rodovias, os pedágios seriam de fato instalados. Esse é um ponto crucial.
Entre os políticos, terminam com a imagem lustrada, merecidamente, o presidente da Câmara de Franca, Marco Garcia (PPS); o prefeito e a vice de Patrocínio Paulista, Marcos Ferreira (PT) e Néria Buzzato (sem partido); o vice-prefeito de Rifaina, Cidinho Diniz (PMDB); o ex-prefeito de Cristais Paulista Hélio Kondo (PMDB); e o vereador de Jeriquara Dinei Dias (DEM). Todos usaram sua condição de representantes da população para reclamar, foram às rodovias protestar, assumiram riscos... Venceram. Certamente, vão colher os louros de sua coragem. É justo.
Também é importante constatar que dois aliados convertidos em antagonistas desta história, cujas relações parecem irremediavelmente abaladas, conseguiram sobreviver a um desgaste que tinha potencial para ser politicamente mortal.
De um lado, o deputado Roberto Engler (PSDB), o fiador da promessa do governador de duplicar as rodovias sem custos para o usuário. Surpreendido com a decisão de instalação dos pedágios, viu-se numa encruzilhada. Brigava com o governo ou traía os eleitores a quem empenhou sua palavra. Teve coragem de escolher a batalha mais difícil. Enfrentou colegas históricos de partido, reclamou, desabafou na Assembleia. Aos trancos e barrancos, ajudou a colocar lenha na fogueira que transformou os pedágios em cinzas. E, não sem desgaste, honrou sua palavra.
Do outro lado, o governador Geraldo Alckmin, político raro que tem coragem de voltar atrás em uma decisão. Humilde nas palavras e, mais importante, também nas ações, soube ouvir a voz das ruas e, quando muitos imaginavam impossível, reviu sua decisão. Foi mais uma lição e tanto para alguns de seus correligionários de Franca que, muito diferente, orgulham-se de suas próprias intransigências. Só não sei se os tucanos encastelados no paço municipal têm a mínima condição de aprender. É uma pena.
Entre os perdedores, poucos têm tanto a lamentar quanto Gilson de Souza (DEM) e Marco Ubiali (PSB), ex-deputados que hoje, abrigados em cargos comissionados do governo do Estado, ignoraram a polêmica dos pedágios. Nenhum dos dois disse uma única palavra. Mantiveram seus cargos. Resta saber se preservaram a confiança da população. Há também o desgaste dos vereadores que se negaram a apoiar os protestos e a assinar a moção de repúdio ao governador, casos de Adérmis Marini (PSDB), Cordeiro (PSDB) e de outros “colegas”, cuja dimensão política sequer justifica a menção do nome.
Por fim, ninguém sai mais chamuscado dessa história do que o prefeito de Franca, Alexandre Ferreira (PSDB). Primeiro, ignorou todas as reuniões organizadas para discutir os pedágios, quer sejam as audiências da Artesp, quer sejam os encontros promovidos por prefeitos e vereadores. Depois, criticou os protestos, que classificou como “bagunça”. Uma vez mais deixou claro que, como líder, é irrelevante. Não teve força para diminuir a tensão entre Engler e Alckmin, não teve coragem de se posicionar contra os pedágios, não soube respeitar quem queria protestar. Péssimo.
Agora, é vida que segue, com Franca e região num novo patamar. A população deixou claro que não aceita decisões impostas goela abaixo sem discussão, sem o necessário convencimento. Mostrou também que sabe gritar alto e forte. Tão alto que foi possível ouvir num bonito palácio instalado na avenida Morumbi, na Capital. Forte o bastante para alterar os rumos da história e produzir uma “boa notícia”. Um feito. Dos grandes.
Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN
email - jrneves@comerciodafranca.com.br
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