O ontem, o hoje


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Eis que a vida se sofisticou e a mussarela se disse muçarela - e fomos obrigados a aceitar essa grafia horrorosa. Fazer o quê? Desde que pode ser feita de leite de búfala, virou um nojo
Eis que a vida se sofisticou e a mussarela se disse muçarela - e fomos obrigados a aceitar essa grafia horrorosa. Fazer o quê? Desde que pode ser feita de leite de búfala, virou um nojo
A vida já foi mais simples, a mussarela também. Houve um tempo em que um lanche era um pão francês, uma fatia de presunto, outra de mussarela, simples assim. Poderia ser lanche de escola, lanche do serviço, do passeio, da viagem. Poderia ser feito em casa, o que nos levaria a pensar que se tratava de uma casa de posses. Ou se poderia comprá-lo na venda, o que era mais comum. Pagava-se à vista ou marcava na caderneta, para ser acertado quando o “pai recebesse”. Em algumas padarias, a gente podia ver os lanches já prontos, pão, uma fatia de mussarela fria. Os pãezinhos ficavam empoleirados formando pirâmides na vitrine dos balcões, que eram também armários. Quem os comprava os recebia das mãos nuas da atendente, que os enrolava em papel rosa, fazia duas dobras laterais e virava para baixo. 
 
Nesse tempo, em que mussarela era escrita com dois ‘s’, me parece que quase tudo era bem mais simples, talvez para não destoar do lanche. Existia a conga branca para a educação física, a vermelha para o prézinho, a bala Chita, a flor era a margarida, o cachorro era vira-lata, o bolinho era de chuva e a gente podia brincar na enxurrada. O pão estava quase sempre meio murcho e ninguém, ninguém mesmo, jamais ousou pedir o mais branquinho ou o mais torradinho. O pão nem era feito onde era vendido, alguém do Centro o levava todas as madrugadas em peruas Kombis recheadas de balaios belíssimos de vime. 
 
Lembro-me também que as mães eram criaturas muito simples, até onde minha vista alcança as ruas de minha infância, Homero Alves, avenida Batatais, São Luiz, Capitão Fernando Garcia, não me lembro de uma única mãe que trabalhasse fora de casa, mãe era espera, de filhos e marido. E quando fosse o caso, em seus cadernos de receitas, lá estaria escrito mussarela... 
 
Para uma viagem intermunicipal, era melhor reforçar o lanche e transformá-lo em bauru, ou misto frio. Iam em saquinhos de papel pardo, ou quem preferisse, poderia comprá-lo nas rodoviárias. Lá, teriam os mesmos lanches anunciados em tabuletas cheias de cocô de mosquito: pão e mussarela; pão mussarela e presunto; pão mussarela, presunto e tomate. 
 
Mas eis que a vida se sofisticou e a mussarela se disse muçarela - e fomos obrigados a aceitar essa grafia horrorosa. Fazer o quê? Desde que ela pode ser feita de leite de búfala, ela virou esse nojo. Ainda bem que a febre do tomate seco como acompanhamento vai passando. A rúcula bem pode ficar, elas são nascidas uma para a outra. O presunto, seu fiel companheiro, foi atacado de todos os lados - e mais recentemente cravaram: ele é cancerígeno, cruz credo! Para os saudosistas resta o pão com bife acebolado e muçarela, o pão com ovo frito e muçarela, o pão de forma e muçarela, feitos na bauruseira de ferro na boca do fogão. Melhor dizendo, vale tudo, vale qualquer coisa que nos tire da depressão de um drive-thru. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Goiabas
 
Estamos acostumados com as goiabas. Há pés delas para todo lado. Dobro a esquina e mesmo antes de vê-las amontoadas nas carriolas já adivinho a presença delas, que têm um cheiro realmente invasivo. 
 
Então, vamos às dicas para saboreá-las: Para derreter goiabada muitos indicam o banho maria ou o fogo diretamente. Nada disso. Pique em cubos, coloque pouca água e micro-
ondas. Dá certo e é rápido. 
 
Uma forma elegante de consumi-las é fazer uma gelatina com a polpa. Descasque, bata no liquidificador, vá colocando água apenas suficiente para o liquidificador funcionar. Você terá um purê firme. Passe pela peneira, adicione açúcar de confeiteiro a gosto. Acrescente gelatina sem sabor, quanto menos melhor, apenas para firmar. E ponha para gelar.
 
Para fazer uma salada de frutas onde haja goiaba, tem-se que lavar bem a casca, retirar as sementes e cortar em fatias. E a fruta tem que estar bem firme, para não desmanchar. 

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