Fábulas


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O sapo estava à margem do rio quando o escorpião se aproximou. “Você me poria nas costas e me levaria à outra margem?” perguntou o escorpião. “Não!”, respondeu o sapo, “Você é perigoso, você me picaria antes de chegarmos lá, e seu veneno mata!”. “Jamais!” respondeu o escorpião. “Se eu o picasse, morreríamos os dois!” contra-argumentou. “Então suba!”, disse o sapo, diante da lógica na réplica do peçonhento animal. No meio da travessia o escorpião cravou a pinça nas costas do sapo que o olhou entre espantado, arrependido e triste. Iam morrer os dois, mas ainda houve tempo do atônito e agonizante sapo perguntar “Por quê?” e ouvir a resposta “Porque essa é a minha natureza. É assim que eu sou.” 
 
Dizem, é uma fábula africana. Dizem outros, não tem autoria reconhecida e nem etiologia. O consenso é que se trata de história que avós nos contam para aprendermos em quem confiar. Que a essência das pessoas não muda e ninguém consegue manter por muito tempo aparência e postura daquilo que não é. Uma hora, a gente se trai, a máscara cai e a verdade se revela. 
 
O Reizinho Mandão tinha a péssima mania de mandar todo mundo calar a boca. Quando ouvia algo que o contrariava, mandava: “Cala a boca!”. Tornou-se mandão, teimoso, implicante e xereta. Divertia-se em fazer leis e mais leis absurdas, só para ter o prazer de se ver obedecido: mania de mandar em tudo. Aos conselheiros que se aproximavam para explicar que rei tem que fazer leis importantes para tornar o povo feliz, ele gritava: “Cala a boca!” e impedia a ação dos colaboradores. O reino ficou mudo e silencioso: ninguém mais falava nada. Silêncio pesado, que tornava tudo ali muito triste. 
 
Cansado do silêncio, o Reizinho decidiu que as pessoas tinham que falar com ele, mas elas haviam desaprendido como fazê-lo, pelo desuso da voz e da vontade. A história tem final quase feliz, Ruth Rocha, a autora, apresenta vários para o escolhermos. Mas antes ela mostra ao leitor pequeno ou grande — como é importante o diálogo, a tolerância, o respeito, o ouvir, o discernimento e a humildade. 
 
Longe, lá longe, tinha um rei insaciável, vaidoso, sem limites para saciar seus caprichos. Somente usava roupas muito caras e raras, até que não mais encontrou pano digno de lhe cobrir o corpo. Foi quando dois súditos apareceram e lhe prometeram entregar o tecido mais rico e mais bonito jamais visto, em troca de dinheiro, muito ouro e algum tempo. Acontece que os espertos fingiam tecer algo de cuja beleza e textura falavam tão bem e elogiavam tanto, que os demais artesãos da alfaiataria do rei foram levados a ver algo que não existia. 
 
Os costureiros sugestionados uns, amedrontados outros, “cortaram” e “confeccionaram” a roupa nova do rei, com o tecido que existia apenas na imaginação. O rei sai em passeata, os súditos acompanham, embasbacados pela beleza do tecido que, embora inexistente, eles viam. Foi quando um menino durante o desfile apontou o rei e, muito espantado, gritou: “O rei está nu!”. Quebraram-se encantamento, torpor coletivo e todos reconheceram a nudez do rei. Hans Christian Andersen escreveu essa obra-prima. 
 
Cansei de ler e contar essas histórias para os filhos. Não as conto mais porque não sou besta de competir com Ipads e Iphones dos netos. Entretanto não conheço maneira melhor de falar com crianças sobre Maldade, Prepotência, Verdade, Transparência, Respeito ao próximo, Canalhice, Diálogo, Tolerância, Discernimento e Humildade. Mostrar-lhes como é perigoso confiar cegamente. Provar-lhes que, embora se possa fingir, é improvável que o lobo permaneça muito tempo na pele de cordeiro. E que a natureza humana é muito mais complicada do que possa imaginar nossa vã filosofia. 
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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