Filha de pai ausente e mãe displicente, Cláudia terminava o magistério, curso de formação profissional, quando se percebeu grávida do playboy de pequena cidade no interior do Paraná. Tinha dezessete anos e morava com a avó. Seu mundo, ou o que restava dele, desabou. Conta que, rejeitada e mal falada, passava os dias no cemitério depois de frequentar as aulas, que felizmente não abandonou. Nos estados do sul é comum nos cemitérios a existência de pequenas construções semelhantes a casinhas de um só cômodo, erigidas para abrigar imagens de santos, fotos e flores. Cláudia, depois do período escolar ficava em uma delas, longe dos ataques dos remanescentes familiares, da pequena sociedade local e do rapaz que negava veementemente qualquer ligação com ela. Comia frutas e gestava sozinha a criança que nasceu linda e saudável. Menina.
Empenho da professora, também muito nova, Cláudia foi encaminhada para dar aulas para crianças, o que lhe garantiu alimentar, vestir e cuidar da filha e até fazer pé de meia. Ouvia falar de conterrâneos que se mudavam para a Europa, em busca de melhores condições de vida. Lá um dia comprou passagem para a França, fez as malas, a dela e a da filha.
Deixou a menina com a avó paterna, que havia se apaixonado pelo bebê. Atravessou o oceano, foi para Paris. Seguem-se relatos de episódios horripilantes de roubos — companheiros de alojamento tiraram-lhe até o último centavo. Episódios de mau-caratismo, insídia, traição dos companheiros brasileiros, permeiam o relato de como superou tudo e se reergueu.
Conheci-a muito tempo depois de sua chegada a Londres, quando prestes a se casar com cidadão europeu para regularizar permanência naquele país e a filha, já mocinha, morava com ela. Na ocasião acompanhei o relato de Cláudia, como se ouvisse roteiro e pormenores de romance. Chorei, ri, fiquei ora emocionada, ora revoltada, ora arrepiada.
Garante que não volta para o Brasil. A possibilidade nem lhe passa pela cabeça. Que reconhece não ter rotina invejável, que trabalhava demais na cozinha do restaurante do bairro, que suas mãos estão sempre vermelhas como reação aos produtos de limpeza que usa para manter panelas e local, limpos e higienizados. Mas que trabalha e se vê recompensada: teve dinheiro para trazer e manter a filha perto dela; tem teto, cama e banheiro; a menina estuda. E ela, agora, pode entrar na Zara, comprar a roupa da vitrine, pagar; jantar em restaurante e ainda poupar e para enviar dinheiro para sua avó. Cláudia jurou nunca mais usar calça fusô preta com camiseta de propaganda política, uniforme de quase oito anos, desde a gravidez até a saída do Brasil.
Pede aos amigos que, quando morrer, enviem seu corpo para escola de medicina inglesa e que, jamais, nunca, o mandem para cá: seu pior pesadelo é que morreu e está sendo enterrada em terras brasileiras, no mesmo cemitério onde, no passado, gestou a filha. Acorda sufocada.
Já havia contado a história de Cláudia. Mas ela volta à lembrança toda vez que me tomo de esperança e acredito que mudanças ocorrerão no cotidiano e no panorama brasileiro. Quando sonho que os governos — municipal, estadual e federal — diminuirão o elenco desastroso de colaboradores fajutos; que a competência substituirá o apadrinhamento; que políticos do naipe de Collor, Sarney, Maluf, Eduardo Cunha, Lula e Renan Calheiros desaparecerão. Que pagaremos impostos que, administrados, cobrirão nossas necessidades de saúde, educação e segurança. Que nenhum centavo vindo do povo será desviado para bolsos vagabundos. Que miséria e desigualdade sociais são problemas da nossa cidade, do nosso Estado e do nosso país a serem resolvidos com trabalho e oportunidades. Que o exercício de cargo político sendo efêmero e transitório, jamais tornaria o eleito superior ao eleitor.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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