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Caixa de correspondência de e-mails abarrotada, hora de faxinar. Mais de duas mil mensagens espremidas, algumas das quais nem lembrava mais. Muitas preciosas, algumas bem antigas. Muitas ridículas, sem sentido. Algumas piadas de mau gosto, muitas engraçadas. Centenas criticando o governo PT, Lula, Dilma, Ali Babá e os quarenta ladrões. Denúncias antigas, caídas no vazio brasileiro: o castelo do Sarney em Portugal; as contas da Rose cadê ela? A urna eletrônica não é confiável. Arquivos powerpoint divulgando textos, pessoas, lugares e países que despertaram curiosidade e foram impulsos para conhecê-los. Fotos, mais piadas, críticas, elogios, declarações, cartas amorosas e algumas raivosas: tinha de tudo. 
 
Abro, leio ou releio arquivo por arquivo, para descartar o que não faz mais sentido. No meio de tanta diversidade, encanto-me com a que traz como título “O princípio 90/10”. Veio acompanhada de delicado alerta: “É um pouco longa!”. A pessoa sabia que não tenho muita paciência mas, afirmava, eu deveria ler com atenção, quando tivesse tempo. E, claro, refletir sobre ela. Chegou a hora, pensei.
 
Sem paciência para dourar qualquer pílula; incapacidade total para relevar; intolerante e sem diplomacia, nem acredito quando percebo que uma ou outra pessoa ainda e apesar de, gosta de mim. Nem tão ruim assim, vamos lá. Sou corajosa, não tenho o costume de mentir, pode ser esse o motivo. Quem sabe, porque sou confiável, não sou insidiosa, não tramo, não sou traiçoeira, artificiosa, maquiavélica ou falsa. Mas que gênio ruim, mamma mia! E há quem acredite que pau que nasceu torto, tem conserto. E aposta em mim e envia tal mensagem. 
 
Stephen Covey, o autor. Americano, autor do best seller administrativo Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes. Diz que, pelo tal Princípio 90/10, que apenas 10% da minha vida estão relacionados com o que se passa comigo no cotidiano e os 90% restantes com a forma como eu reagirei àquela pequena e fundamental parte. Não depende de mim e nem posso evitar, por exemplo, que o carro enguice, que o avião atrase, que o semáforo feche bem na minha hora de passar, que o passarinho me suje, que a chuva caia, que a porta do metrô se feche antes que eu entre. Mas serei eu a determinar os outros 90% do que me sucederá, a depender das minhas respostas e reações àqueles acontecimentos fortuitos. 
 
Acompanhe, ele propõe. Você está tomando café da manhã e sua filha, ao pegar a xícara, derrama café na sua blusa. (Você não tem controle sobre isso.) Você se irrita. Repreende-a secamente e ela começa a chorar. Censura a funcionária pela má colocação da xícara. Broncas e batalha verbal. Contrariada e incendida, você volta do quarto onde trocou a blusa, encontra a funcionária nervosa e a filha chorando por ter perdido a condução para a escola. Você propõe levá-la. Atrasadas, você ultrapassa sinal fechado no trânsito. Leva multa. Sua filha desce, não se despede. Você chega atrasada e aí percebe que esqueceu a bolsa de trabalho em casa. Azedou. Dali para a frente, dá tudo errado. Agora fiz: por quê seu dia foi péssimo? Por causa do café? Da filha? Da funcionária? Da multa? Bingo! Por causa daqueles 5 minutos de reação negativa a corriqueiro acontecimento. Em seguida o autor desfila as reações em cadeia, caso você tivesse respirado fundo e enfrentado com calma e tolerância a mesma situação. 
 
Não mudou minha vida. Todavia o momento trazido pela leitura e reflexão me fez repensar sobre o quanto sou responsável pelo que acontece comigo todos os dias, hora após hora. 
 
Para quem volta e meia acusa o próximo por seus infortúnios, talvez valha a pena receber a mensagem, que novamente arquivei. Posso compartilhar, mas já vou avisando: é um pouco longa. 
 
 
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br
 
 

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